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Entrevista

“A China está a ganhar em todos os tabuleiros da energia”

17 mar, 2022 - 22:15 • José Bastos

Clemente Pedro Nunes, catedrático do IST, sustenta que a vulnerabilidade energética portuguesa se agravou com o fecho das centrais a carvão, ao contrário da “Espanha que tem defendido os seus interesses e decidiu a reativação”.

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Entrevista a Clemente Pedro Nunes
Entrevista a Clemente Pedro Nunes

Com os executivos de Madrid e Lisboa a preparar uma proposta comum para a Comissão Europeia fixar um teto máximo para os preços de venda no mercado diário de eletricidade a 180 euros por megawatt/hora MWh (os preços médios superam os 200 euros – para amanhã beira os 291 euros na hora de maior consumo) multiplicam-se os apelos para o Conselho Europeu da próxima semana tomar medidas imediatas para desligar a cotação do gás e da luz e controlar as subidas de preços agudizadas pela invasão russa.

Portugal e Espanha haviam mantido até julho o preço máximo de 180 euros por MWh nos seus mercados elétricos, mas tiveram de desistir do limite máximo para cumprir com as normas comunitárias. Nas últimas semanas, com o impulso da invasão russa os mercados de eletricidade ibéricos chegaram a bater marcos históricos com um preço médio de quase 545 euros por MWh.

Agora os governos de Lisboa e Madrid pretendem impor esse limite de 180 euros por MWh vendido no mercado ibérico (na plataforma OMIE) e pretendem também conceder às centrais a gás com custos acima desse preço uma compensação por venderem abaixo do custo. Este mecanismo de subsidiação surge porque os preços do gás natural têm estado a condicionar os preços grossistas da eletricidade e a intenção das capitais ibéricas é levar Bruxelas a “desligar” o preço do gás do da eletricidade.

Com os preços regulados da luz e gás a subirem em abril esta solução de preços máximos na eletricidade e apoios ao gás é apenas um dos ângulos da escalada nos custos da energia que, de acordo com associações empresariais está a obrigar empresas a condicionar a produção, a enviar milhares de trabalhadores para lay-off e a perder contratos de exportações, decisivos para a economia nacional.

Clemente Pedro Nunes, professor catedrático do Instituto Superior Técnico, voz crítica das opções de política energética nacional dos últimos anos, diz à Renascença que “a crise energética em Portugal era já profunda antes ainda do início da guerra na Ucrânia”. Entre os fatores de vulnerabilidade do mercado nacional e os danos causados à competitividade económica está o encerramento das centrais a carvão ao contrário da “Espanha que tem defendido os seus interesses e decidiu reativar as centrais de carvão, antes ainda da guerra na Ucrânia”.

No plano da geoestratégia da energia, Clemente Pedro Nunes defende que a “Europa está com diferenciais record de preços de energia face à China. A China está a ganhar em todos os tabuleiros. Habilmente”, sustenta o professor catedrático do IST. Os grandes perdedores no plano energético desta guerra são a Europa e a Rússia”. “Do ponto de vista energético esta crise é marginal para os Estados Unidos, quem se prejudica comparativamente é a Europa”, conclui Clemente Pedro Nunes.

As interligações entre Portugal e Espanha são tão vastas que podem atuar conjuntamente. Mas a Espanha tem defendido os seus interesses. A decisão de reativar as centrais a carvão foi tomada em outubro, antes ainda de haver a suspeita de um conflito desta dimensão na Ucrânia

Num mercado energético doméstico já sob enorme pressão que problemas maiores a guerra da Ucrânia vem acrescentar?

A crise energética, em particular no sistema elétrico em Portugal, era já profunda antes do desencadear da guerra. O governo português decidiu encerrar as centrais de carvão - não diretamente, mas pela sua política de taxas de carbono - que no seu conjunto produziam 2100 megawatts, uma potência relevante e, sobretudo, uma potência firme. Isto é, uma potência com a qual se pode contar de acordo com as necessidades.

É que a potência firme se opôe claramente às potências intermitentes, isto é, o caso das potências com origem nas centrais eólicas e nas fotovoltaicas, cujo ciclo de produção só é acionado quando há vento ou quando há sol. Evidentemente, no inverno, ou mesmo agora, quando já estamos no fim do inverno, a partir das 5 e meia da tarde praticamente deixa de haver produção de energia com origem fotovoltaica, o que significa que na chamada "ponta da noite" - começa por volta das 7 e meia - não há qualquer energia com origem fotovoltaica. Portugal tem alguma energia dessa fonte fotovoltaica, entre 600 e 700 megawatts, mas tem muito mais de origem eólica.

O problema que a fonte eólica só produz quando há vento e a armazenagem de eletricidade não se faz diretamente e indiretamente é um processo muito caro. Em Portugal a armazenagem é feita através das barragens. A situação em que já se estava em final de dezembro era extremamente grave do ponto de vista das "potências firmes", porque, na minha opinião e de vários especialistas, tinha sido prematuro o encerramento da central de carvão do Pêgo e, antes ainda, da central de Sines. Não há ainda suficientes "potências firmes" para aguentar o sistema sem sobrecustos adicionais e sem riscos adicionais muito graves.

Já antes desta guerra na Ucrânia os consumidores estavam a ser vítimas do aumento do preço do gás e do fato do conflito entre a Argélia e Marrocos ter obrigado ao encerramento do pipeline que ligava diretamente a Portugal através de Málaga, passando por território marroquino. Um encerramento a colocar a Península Ibérica apenas dependente do outro ‘Trans-Mediterranean Natural Gas Pipeline’ que vem diretamente da Argélia sem ser afetado por esse conflito que também tem a ver com o Saara Ocidental e das disputas territoriais entre a Argélia e Marrocos.

Assim, a partir de dezembro o preço do gás natural já estava muito alto e, não esquecer, também que a administração Biden já havia colocado restrições à produção de gás natural no final do ano, diminuindo a capacidade de exportação.

... no caso português há ainda o fator 'seca'. Já se fala na necessidade de estender até julho a suspensão da produção nas barragens…

A seca começou a ser sentida em força em princípios de janeiro. Até meados de dezembro havia uma situação razoável, embora com alguns indicadores abaixo do normal, mas a pluviosidade no mês de janeiro foi muito fraca. Fevereiro também foi bastante débil.

Esperemos poder recuperar algum volume em março, mas, provavelmente até setembro não certamente o suficiente para grandes produções hidroelétricas. Mas em janeiro claramente se recorreu excessivamente à energia hídrica para tentar travar os preços da eletricidade, e, provavelmente, também teve a ver com motivações eleitorais e outras. O certo é que logo a seguir às eleições foi decidido suspender a produção hidroelétrica em oito barragens que estavam com grandes problemas de armazenamento de água, incluindo a mais paradigmática das barragens, Castelo do Bode.

É em Castelo do Bode que está armazenada a água que, além de turbinar a produção hidroelétrica, abastece a região da Grande Lisboa. Desde maio do ano passado que a situação já era bastante grave com preços absurdos para uma situação normal de 400 euros por megawatt/hora, um valor extremamente elevado. Para "potências firmes" deixando de ter o carvão, além de alguma biomassa à volta de 500 megawatts, a produção é claramente insuficiente para o consumo na proporção do vazio criado que anda à volta dos 4 mil megawatts ou nas horas de maior consumo, as chamadas horas de ponta, andará pelos 9 mil megawatts.

Portanto, 500 megawatts é insuficiente para a necessidade, dá a sua ajuda, mas não chega para evitar ‘apagões’. Para evitar ‘apagões’ só há duas soluções: ou o nuclear ou o gás natural visto que se abandonou o carvão. A Espanha avaliou melhor os riscos e decidiu reativar as centrais a carvão logo em outubro passado.

Então tal como importamos energia com origem nuclear - Almaraz produz muito para Portugal, um país que representa 0,1% das emissões globais de CO2 - também teremos de importar eletricidade baseada em carvão?

Essa é uma das ironias deste processo. As coisas não correm bem quando as pulgas querem inchar para ficar do tamanho das vacas. Não podia ter corrido pior. Há dias a Comissão Europeia avançou com a hipótese de prolongar a vida das centrais nucleares e centrais a carvão. Portugal pode reativar as centrais a carvão. Este governo certamente iria ter de tomar não sei quantas pastilhas de Alka-Seltzer para esse ‘rearranque’, mas quando os preços da eletricidade estão a este nível, e Portugal importa ou produz a partir do gás natural, é brutal o rombo produzido na economia e nas contas externas do país.

As importações de eletricidade são pagas logo no momento e, hoje, o gás natural é muito mais caro que o carvão mesmo com a aplicação da taxa de carbono ao carvão. Acresce que a taxa de carbono é um ónus para o consumidor quando a origem é do carvão - o carvão emite mais CO2 para a atmosfera por unidade de energia produzida que o gás - mas é uma taxa que fica em Portugal. A taxa é uma das receitas do famoso Fundo Ambiental, as taxas de carbono vão para o Ministério das Finanças/Ministério do Ambiente. Pode ser usada, como o governo está agora a fazer, para tentar travar o aumento de preços.

Antes da guerra o cenário já era grave e piorou. Ainda há outro problema. O parque de refinação é ainda capaz de abastecer o país, mas, com o encerramento da refinaria de Matosinhos, em abril do ano passado, tem mais limitações do que há um ano

Como avalia as medidas do governo para suavizar os efeitos do aumento do preço da energia elétrica e dos combustíveis? Já a comissária europeia da energia, Kadri Simson, anunciou que os países podem compensar parcialmente as empresas e para financiar essas medidas taxar os lucros extraordinários das produtoras e quer agilizar o licenciamento para as energias renováveis... Como avalia a terapia?

Avalio de forma crítica. Quanto aos lucros extraordinários veja-se o caso como a França, ou mesmo a Espanha, que têm produção nuclear em grande, os preços do urânio sofreram poucas alterações e têm um peso reduzido na matéria-prima. Isto é, uma central nuclear espanhola que esteja a vender hoje a eletricidade a 400 euros o megawatt/hora quando há um ano estava a vender a 40 euros, apresenta lucros brutais, mas ficam em Espanha. Em Portugal não temos essa vantagem.

Com estes preços loucos a única vantagem é que quando há vento e há sol as famosas 'tarifas garantidas' - com precedência sobre as restantes tarifas - ficam mais baratas e pode aliviar alguma receita para o Fundo Ambiental. Depois do encerramento das centrais a carvão também a receita das taxas de carbono ficou muito reduzida. As fontes das receitas da taxa de carbono resumem-se agora ao gás natural e são muito menos do que eram.

É evidente que o problema das "renováveis intermitentes" porque há duas, uma delas é armazenável - a hidroelétrica - e a outra é armazenável mesmo diretamente, a biomassa. Agora, o drama é com as eólicas e as fotovoltaicas, porque o custo de armazenagem é brutal e é indireto através de barragens, de bombagens, já que, na prática, o sistema de baterias não funciona.

Na alternativa para fazer frente à descarbonização refere regularmente o exemplo sueco, baseado em três pilares: nuclear, biomassa e hídrico...

É verdade. Refiro o exemplo sueco e o finlandês que é nuclear e biomassa e agora tem uma nova central que está já a funcionar a 70%, a primeira grande central nuclear de última geração na Europa, a chamada quarta geração. Mas veja-se os números: a diferença do custo da eletricidade em Portugal e na Finlândia tem sido, na maior parte do tempo, uma diferença entre 200 e 300 euros por megawatt/hora mais caro em Portugal do que na Finlândia.

Repare-se no grau de devastação que este fator produz no plano da concorrência económica entre os vários países. O estado português está endividado, como se sabe nos 130% do PIB, e qualquer apoio que dê é contabilizado na dívida pública por Bruxelas. A não ser que se vá usar o PRR - como defendem presidentes de confederações empresariais, caso da agricultura - para reafetar verbas nesta situação de emergência energética.

Antes da guerra a situação já era gravíssima e depois tornou-se ainda mais grave. Portugal tem ainda outro problema grave, porque o parque de refinação é ainda capaz de fornecer o país, mas tem hoje mais limitações do que há um ano com o encerramento da refinaria de Matosinhos em abril de 2021. No gasóleo e nos lubrificantes o cenário atual é de muito maior dependência do que há um ano.

O preço do barril de petróleo corre o risco de chegar aos 300 dólares depois do bloqueio às importações de Estados Unidos e Reino Unido? A Rússia é 'uma espécie de Lehman Brothers' dos mercados globais de energia? Qual é o potencial disruptivo da Rússia nos mercados globais das energias?

A Rússia é o terceiro maior produtor mundial de petróleo e aí entra já a geoestratégia. Qualquer tentativa de anular a Rússia tem consequências no plano militar e no plano económico. Não apostava no colapso do regime a curto prazo. É uma roleta russa. É já brutal a disrupção que já vai haver por razões geopolíticas no mercado global de energia. No caso de um país como Portugal o que tem a fazer é otimizar o mais possível a redução de custos associados à energia.

Em qualquer intervenção do Estado, mesmo as autorizadas por Bruxelas, de uma forma ou de outra, uma coisa é garantida: terá consequências na dívida pública e no défice. A não ser que haja mutualização da dívida na UE, algo que não antecipo é haver mais mutualização do que já houve, além dos benefícios indiretos nas taxas de juro de estar na moeda única, mas com a inflação acima dos 4 e 5% começa a ser complexo. Vejo aqui o caminho muito estreito.

Cito frequentemente o exemplo da Suécia, mas podia referir o caso da Finlândia, ou indicar o caso da Polónia. A Polónia foi muito pressionada pela Comissão Europeia para abater o seu parque de centrais a carvão e... resistiu. Imagine-se o que seria neste momento a Polónia sem o seu parque de centrais a carvão. Posso dizer que nos últimos quatro meses a Polónia tem tido sistematicamente preços de megawatt/hora entre 100 e 150 euros abaixo do preço pago por Portugal.

Um país frágil e com uma economia débil como Portugal - em que o fator energia em muitas indústrias tem um peso muito grande nos custos de produção - apresenta-se com condições concorrenciais muito diferentes e muito piores que outros países, mesmo na União Europeia. Há outros que estão tão mal, mas Portugal está no leque dos piores na concorrência ligada ao custo da energia.

À luz dos acontecimentos do último mês decidir encerrar progressivamente as centrais nucleares alemãs - no pós Fukushima - foi o grande erro do consulado da sra.Merkel?

Considero Angela Merkel uma tacticista brilhante e uma personagem política com grande equilíbrio, mas não uma estratega de longo prazo. No pós-Fukushima, Merkel ajustou-se à dinâmica 'bem-pensante' da opinião pública. Embora as decisões devam ser vistas com todas as variáveis de um quadro retrospetivo - Merkel tinha um cenário próprio de relações com a Rússia, ela já lá não está, não se sabe o que teria acontecido no conflito se ainda fosse chanceler. Hoje já sabemos que a decisão tomada pela Alemanha de Olaf Scholz é a de adiar o encerramento das centrais nucleares. Como é óbvio. E o carvão pode redobrar de importância.

A Alemanha ficou mais dependente do gás russo, porque Merkel decidiu fazer um ‘phasing out’ no carvão, ao contrário de Portugal fê-lo de forma equilibrada, mesmo os Verdes aceitaram a decisão até 2030, era uma supressão gradual suave e na eletricidade, de origem nuclear, relativamente suave. Só que no plano da emissão de CO2, como o carvão emite muito mais que o gás natural - o nuclear não emite diretamente CO2 - as emissões poluentes têm vindo a subir na Alemanha.

Uma tendência em contradição no processo de descarbonização, mas tendo no horizonte a tal ideia de que seria neutralizada com as 'intermitentes' e com outros sistemas de armazenagem, tecnologicamente ainda não maduros. Esse é um erro brutal. Para defender a concorrência na economia, não se pode aplicar uma política estratégica e económica de novas tecnologias ainda não maduras.

A Europa está com diferenciais de preços de energia como nunca teve face à China. A China está a ganhar em todos os tabuleiros energéticos. Habilmente

A Península Ibérica tem um terço da capacidade de ‘regasificação’ da Europa, mas a capacidade de exportação está limitada. Qual pode ser o papel da Península Ibérica na diversificação de fornecedores, apesar da posição francesa de rejeição do gasoduto MidCat ? Por outro lado, na energia elétrica, há a tese de Macron de que o nuclear é indispensável para manter os preços controlados...

Em 2018 Macron veio a Portugal defender o reforço das interligações entre a Península Ibérica e a França e trouxe um cheque de 540 milhões de euros, mas as coisas têm andado muito devagar. Portugal está indiretamente envolvido. É a Espanha que está diretamente porque o plano atual prevê um cabo no mar, mas junto à costa entre a zona de San Sebastián e Biarritz.

Trata-se de uma ligação fundamental, porque, quando há excedentes de produção de eólicas ou fotovoltaicas, permite a qualquer momento vender para França e, quando não há, comprar a energia produzida no nuclear mais barata ou comprar a que for a mais barata nesse momento, porque é à hora que a decisão é tomada. Aliás, discute-se muito na Europa se esta questão do preço marginalista, isto é o último a entrar na rede, o mais caro é que define o preço nessa hora, não tem inúmeros inconvenientes.

Este é um tema muito discutido entre os economistas, porque a prática pode ser alvo dos oportunismos de mercado, mas esta questão da formação dos preços é muito complexa e suscetível de ser alvo de muitas manipulações. Todas as questões podem ser alvo de condicionamentos indesejáveis, mas esta é mais. Mas a questão da eletricidade produzida a partir do nuclear é fundamental. Para ser direto: não consigo ver como é que pode haver descarbonização da economia sem o envolvimento do nuclear.

Agora, não se pode esquecer um fator: todas as tecnologias em desenvolvimento, incluindo as baterias, painéis solares e outros, usam muitos metais e minérios de que a Rússia e a China são os, ou dos, maiores produtores do mundo. Portanto, sai-se de um problema e entra-se noutro. Para a América do ponto de vista energético esta crise é marginal, quem se prejudica comparativamente é a Europa. Os grandes perdedores são a Europa e a Rússia. Repare-se que a India está a comprar energia à Rússia aos preços que quer e ainda com descontos. A China ainda mais que a India. Os Estados Unidos da América têm uma auto-suficiência energética a rondar os 99%.

Quem está então encostado à parede? A Europa. Isto é dramático. A guerra é na Europa e está em curso a destruição de valor económico. É evidente que todas as medidas tomadas pela União Europeia vão amortecendo e anestesiando a situação, mas o quadro é gravíssimo no plano energético. Até em algumas das alternativas os preços estão a disparar nos mercados internacionais, por exemplo no caso do níquel, chave no revestimento de outros metais, minerais chave conhecidos em grupo como 'terras-raras'. Neste caso é como as guerras, não há boas opções, há as más e as péssimas.

No caso do setor elétrico da Península Ibérica o que se tem de fazer terá de ser conjugado com Espanha. As interligações entre Portugal e a Espanha são tão vastas que podem atuar conjuntamente. Mas a Espanha tem defendido os seus interesses. Atente-se que a decisão do governo espanhol de reativar as centrais a carvão foi tomada muito antes da haver qualquer suspeita de um conflito a assumir as dimensões presentes na Ucrânia.

A decisão do governo de Pedro Sánchez foi assumida logo em outubro passado. Porquê? Porque é do mais elementar bom senso económico. Se se depende de duas matérias-primas é prudente deixar em aberto a possibilidade de, a qualquer momento, poder optar entre as duas. É como ter dois supermercados na rua. Se tem só uma possibilidade e os preços disparam.... Atualmente os preços do gás natural são absurdos. Por outro lado, fala-se muito no Gás Natural Liquefeito (GNL), Portugal pode receber, tem Sines, mas, cuidado, os navios ‘metaneiros’ são escassos e os fretes estão caríssimos.

Josep Borrell já sugeriu que os europeus poupem no aquecimento das suas casas...

As economias de guerra têm custos brutais. Também se pode cortar a eletricidade a certas horas, mas isso estaria ao nível do pior da India rural. Atente-se bem nisto: a Europa está com diferenciais de preços de energia face à China como nunca teve no passado. A China está a ganhar em todos os tabuleiros. Habilmente. A China está a comprar gás e petróleo à Rússia a desconto, evidentemente, financiando o tesouro russo. A India recusou taxativamente alinhar ao lado dos Estados Unidos e do Reino Unido e diz-se neutra neste conflito da Ucrânia. Ora a India é das maiores potências económicas mundiais e precisa desesperadamente de energia barata e está a conseguir essa energia.

Atente-se que os três países que podem substituir a Rússia neste abastecimento mundial de energia são complicados: a Arábia Saudita, o Irão - na questão nuclear alvo de sanções dos Estados Unidos, com a Rússia a fazer parte da equipa negocial - e a Venezuela, aliada da Rússia - a colocar a problemas mesmo a uma administração Biden de esquerda. A situação é grave e não há boas opções. É evidente que qualquer país produtor de petróleo vai aumentar marginalmente a produção, mas quando se refere o risco do preço do barril chegar aos 300 dólares, não é o sr.Putin que o decide, mas sim o mercado com outros ‘players’ importantes. Mas basta quatro ou cinco desses grandes produtores - aliás há o grupo OPEP/OPEC plus de que a Rússia faz parte com grandes exportadores como a Arábia Saudita.

Os Estados Unidos são o maior produtor mundial, mas não exportam petróleo, é, praticamente, todo para auto-consumo e o mais relevante nas exportações é a Arábia Saudita, mas a seguir são a Rússia e o Irão. Irão com o seu próprio programa nuclear, uma ameaça para Israel, isto é visto numa análise de estratégia de processos industriais - a área onde me treinei ao longo de 50 anos - mas, justamente, à luz do sistema de otimização de processos vejo o cenário como extremamente complicado.

A Angela Merkel era doutorada em química, eu sou em engenharia química, posso imaginar razoavelmente o seu quadro de decisão em alguns dos desafios enfrentados, mas para quem está hoje à frente dos processos de decisão o cenário é muito complicado e, sobretudo, há um ponto que muito me preocupa, porque envolve uma guerra com uma potência nuclear. Li muitos textos sobre o início da primeira guerra mundial, havia excelentes ministros dos estrangeiros na Europa, e, às vezes, fico com arrepios na espinha. Acabou-se em Sarajevo e nas trincheiras da Flandres e morreram milhões de europeus. Não quero terminar numa nota pessimista, mas tem de haver muita prudência e sabedoria.

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