Siga-nos no Whatsapp

Ucrânia

Invasão da Rússia "é mais arriscada do que qualquer conflito da Guerra Fria", avisa especialista

24 fev, 2022 - 17:57 • João Malheiro

Luis Tomé explica que, neste momento, há muitos cenários que podem servir de "um rastilho bastante perigoso" para despoletar um confronto direto entre Rússia e as forças da NATO. Independentemente dos objetivos finais, o professor de Relações Internacionais acredita que, a curto-prazo, Putin "quer reforçar a posição da Rússia à mesa das negociações". E avisa que a China poderá aproveitar para invadir Taiwan.

A+ / A-

O professor de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa, Luís Tomé, alerta que a guerra entre Rússia e Ucrânia, que espoletou, em definitivo, esta quinta-feira, "é mais arriscada do que qualquer conflito da Guerra Fria".

"Já não temos na Europa uma cortina de ferro totalmente intransponível. É tudo muito mais fluído. Na Guerra Fria tínhamos duas superpotências que controlavam todos os atores. Hoje, ninguém controla o vasto conjunto de fatores e atores por completo. Isso provoca incidentes que saem do controlo do cálculo", refere, à Renascença.

O especialista em geopolítica explica que, neste momento, há muitos cenários que podem servir de "um rastilho bastante perigoso" para gerar um confronto direto entre Rússia e as forças da NATO.

"A Rússia pode parar o apoio logístico militar da NATO à Ucrânia através de bombardeamentos. Pode fazer algo em relação aos países bálticos, alegando defesa da diáspora russa. E podem acontecer conflitos em fronteiras da Ucrânia com países NATO que podem ser focos de rastilho", indica o professor de Relações Internacionais.

"Os principais atores são racionais, mas a racionalidade é frequentemente ultrapassada pela emoção e pelas variáveis que não controlam", acrescenta.

E, no caso de um confronto direto entre soldados norte-americanos e soldados russos, é "evidente que facilmente pode escalar para um cenário nuclear".

"É isto que, creio eu, todos tentarão evitar a todo o custo", afirma, Luis Tomé.

"Putin quer reforçar posição da Rússia à mesa das negociações"

O especialista em geopolítica diz "toda a narrativa" de Vladimir Putin é confundir a Rússia com a União Soviética e o Antigo Império Russo.

"A Rússia não é a União Soviética. É uma de 14 partes, apesar de ser, obviamente, a maior. Mas para ele, Rússia e União Soviética é tudo igual", refere.

O professor de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa realça que, em 2018, antes de ser reeleito, o presidente da Rússia resumiu a sua visão histórica que, hoje, usa para legitimar a invasão à Ucrânia.

"Putin disse que a Rússia perdeu 23.8% do seu território nacional, 48.5% da sua população, 41% do seu PIB, 34.9% do seu potencial industrial e 46.44% da sua capacidade militar. Se Putin diz que a Rússia perdeu o que é seu, acha-se no direito de o recuperar", aponta.

Esta leitura de que todo o espaço ex-soviético é parte da Rússia lança incerteza para o que será, verdadeiramente, o objetivo político de Putin, segundo o especialista em geopolítica.

O presidente da Rússia pode querer apenas apoiar as duas repúblicas separatistas, se é para ficar com a Ucrânia e limitar-se aí ou se é até para ir para "uma visão mais ampla".

Independentemente dos objetivos finais, Luis Tomé acredita que, a curto-prazo, Putin "quer reforçar a posição da Rússia à mesa das negociações".

"Se não cederam à ameaça de usar a força, usa a força para cederem", explica.

China pode ter janela de oportunidade para ocupar Taiwan

E no meio de um conflito complexo na Ucrânia e que pode levar a confronto direto entre NATO e Rússia, a China "é um ator muito importante".

O professor de Relações Internacionais indica que tudo o que a Rússia tem feito "é articulado com a China" e que o regime chinês é a "alternativa para a Rússia atenuar o impacto das sanções económicas".

"Isso não implica, no entanto, que a China entre numa guerra do lado da Rússia, por causa da Ucrânia. Mas também não será mediador com o Ocidente, porque há uma grande hostilidade entre EUA e China", explica.

E o conflito na Ucrânia pode ter uma consequência fora da Europa: A China pode aproveitar para iniciar uma invasão militar definitiva a Taiwan e emular o que a Rússia está a fazer com o território ucraniano.

"Dependendo da avaliação da China à tenacidade ocidental face à Rússia. Imagine-se o que é a Rússia a invadir em grande escala a Ucrânia e a China a tomar para si Taiwan, ao mesmo tempo", aponta Luis Tomé.

"Teria um risco enorme de confrontação entre as grandes potências do mundo. Seria dos piores cenários", acrescenta.

Saiba Mais
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • EU
    24 fev, 2022 PORTUGAL 20:28
    Mostrem as IMAGENS aos JERÓNIMOS e ROSAS deste País democrático.

Destaques V+