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O que é o "Comboio da Liberdade" que paralisou a capital do Canadá?

07 fev, 2022 - 21:05 • João Malheiro

A situação em Otava está "fora de controlo", admitiu esta segunda-feira o presidente da câmara da capital canadiana, com o centro da cidade bloqueado há mais de uma semana com protestos contra as restrições impostas para conter a pandemia.

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Começou no final de janeiro e ainda não há fim à vista. O movimento "Comboio da Liberdade" (Freedom Convoy é o nome original, em inglês) começou por ser uma reivindicação de camionistas canadianos, mas tornou-se um protesto mais alargado contra medidas sanitárias e o Governo do país.

A situação em Otava está "fora de controlo", admitiu esta segunda-feira o presidente da câmara da capital canadiana, com o centro da cidade bloqueado há mais de uma semana com protestos contra as restrições impostas para conter a pandemia.

A Renascença explica o que está em causa neste protesto que paralisou a capital do Canadá.

Como começou?

As autoridades do Canadá decidiram, desde meados de janeiro, exigir que os camionistas tivessem de apresentar certificado de vacinação para atravessar a fronteira para os Estados Unidos (EUA).

Em reação, a 29 de janeiro, um grupo de camionistas bloqueou as ruas de Otava, a capital administrativa do Canadá, em frente ao parlamento e ao gabinete do primeiro-ministro, para protestar a decisão.

O conselheiro das comunidades portuguesas no Canadá, Daniel Loureiro, considera, em declarações à Renascença, que o protesto se transformou numa "ocupação".

"Uma manifestação tem um princípio e um fim. Esta ocupação não parece que tenha um fim", aponta.

Quem apoia o movimento?

Originalmente, o protesto era apenas sobre as novas exigências para os camionistas, contudo as ruas começaram a preencher-se com outros manifestantes, contra as medidas sanitárias contra a Covid-19 e também contra o Executivo de Justin Trudeau.

Entre os que ofereceram o seu apoio aos protestos estão o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump e o empresário Elon Musk.

Ouvido pela Renascença, Daniel Loureiro alerta para a presença de grupos da extrema-direita, o que faz com que a mensagem da ocupação seja "incoerente e estranha".

O movimento estava a ser apoiado financeiramente através de doações feitas no site GoFundMe. O serviço entregou cerca de um milhão de dólares ao "Comboio da Liberdade".

Nesta sexta-feira à noite, a plataforma anunciou, numa declaração, depois de falar com a polícia, que não cederia mais dinheiro aos manifestantes.

"Temos agora provas da aplicação da lei de que a manifestação anteriormente pacífica se tornou uma ocupação, com relatos da polícia de violência e outras atividades ilegais", explicou o GoFundMe.

Qual é a situação atual?

Os protestos continuam, sem sinal de pararem, e alastraram-se por outras cidades, em menor escala, como Toronto, Quebeque e Winnipeg.

Em Quebeque, houve manifestações durante o fim de semana e cerca de trinta camiões ainda foram tolerados pela polícia local, que, no entanto, avisou os camionistas que estariam em violação dentro de poucas horas.

No domingo, o presidente da câmara de Otava, Jim Watson, admitia que a situação estava "fora de controlo", com o centro da cidade bloqueado há mais de uma semana, acabando por declarar "estado de emergência" na capital canadiana "devido aos protestos em curso".

O conselheiro das comunidades portuguesas no Canadá, entrevistado pela Renascença, acredita que haja "cansaço" na ocupação e que, eventualmente, "as pessoas terão de regressar à sua vida normal".

"A estratégia também pode mudar se a polícia optar por uma intervenção", refere, ainda.

Como reagiu o Governo do Canadá?

O primeiro-ministro canadiano e a ministra da Defesa, Anita Anand, disseram que o Governo canadiano não tem qualquer intenção de utilizar as forças armadas do país para pôr fim ao protesto.

Anand disse no Twitter que "as forças armadas canadianas não são uma força policial" e que não há planos de destacamento em Otava.

Tem havido violência?

Daniel Loureiro explica que não tem havido ocorrências de violência grave, na sequência das manifestações, apesar da paralisação do centro da cidade de Otava e acusações de assédio aos residentes da cidade.

Em toda a área, muitos negócios foram encerrados durante a última semana, resultando em dezenas de milhões de dólares em vendas perdidas. Os que se mantêm abertos têm lutado para fazer cumprir as regras do uso de máscara.

"É uma cidade que mexe muito ao ritmo do Parlamento, que vive durante o dia, e se as pessoas não puderem dirigir às suas atividades, é difícil para os comércios", explia, Daniel Loureiro, à Renascença.

Cerca de 450 multas foram passadas desde a manhã de sábado, inclusive por excesso de ruído e fogo de artifício, revelou a polícia de Otava, referindo que houve comportamentos perturbadores ou ilegais por parte dos manifestantes durante a noite, que representavam um risco para a segurança pública ou um aumento da "angústia" para os residentes da cidade.

Foram também abertas cerca de 100 investigações sobre crimes relacionados com o protesto.

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