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"Facada nas costas". EUA, Reino Unido e Austrália assinam acordo polémico de submarinos

17 set, 2021 - 18:49 • Hélio Carvalho

Enquanto os EUA preparam uma presença militar mais forte e mais perto da China, a França fala de uma "facada nas costas" por ver afundar um negócio milionário de venda de submarinos à Austrália.

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O acordo assinado na quarta-feira entre os Estados Unidos, o Reino Unido e a Austrália, para o fornecimento de oito submarinos de propulsão nuclear aos australianos, está a provocar uma crise internacional.

A parceria estratégica "Aukus" surpreendeu e irritou a aliada França, que perdeu um negócio milionário de fornecimento de armamento, e levou a adversária China a falar em "ameaça à paz" na região do Indo-Pacífico.

Numa conferência de imprensa na quarta-feira, o Presidente norte-americano, Joe Biden, ladeado pelas presenças digitais do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e do homólogo australiano, Scott Morrison, anunciou o acordo que coloca a Austrália firmemente e definitivamente do lado dos EUA, depois de anos a hesitar contrariar os interesses militares e económicos da China.

A China criticou imediatamente o crescimento militar da Austrália e a ameaça pendente de um regresso ao clima de Guerra Fria na região.

O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Zhao Lijian, afirmou que o acordo representa uma "conduta irresponsável" e "coloca em risco a paz e a estabilidade da região, exacerba uma corrida ao armamento e prejudica os tratados de não-proliferação de armas nucleares".

As críticas também se fizeram ouvir do lado dos aliados ocidentais. É que o acordo para os submarinos que a Austrália irá receber do Reino Unido e dos EUA irá substituir um acordo assinado em 2016 entre Austrália e França para a construção de 12 submarinos franceses, no valor de 66 mil milhões de dólares.

A França não vai receber mais um tostão do acordo e nem sequer foi mencionada na conferência de imprensa por Morrison.

O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, disse numa entrevista à rádio Franceinfo que o acordo é "uma decisão brutal, unilateral e imprevisível" e comparou a jogada política com a repentina e hostil relação diplomática criada por Donald Trump.

Mais tarde, o mesmo ministro e a ministra francês das Forças Armadas, Florence Parly, afirmaram, num comunicado conjunto, que os americanos "escolheram excluir um parceiro e aliado europeu", e apelidaram a decisão de "incoerente".

A diplomacia francesa também fez questão de notar o seu desconforto de forma simbólica, ao cancelar uma gala marcada para esta sexta-feira na embaixada francesa em Washington D.C., que marcaria os 240 anos de uma batalha pela independência dos EUA (que foram apoiados pelos franceses na sua revolução).

O desconforto entre Paris e Washington foi comparado pelo New York Times à confusão em 2003 sobre a invasão do Iraque. O bloco europeu tem-se mantido geralmente afastado do clima de crescente militarização entre EUA e China, contrariando o Governo chinês em matérias de direitos humanos mas não sendo tão assertivo em questões económicas.

Ameaça chinesa "obriga" a exceção nuclear

O eixo EUA-Reino Unido-Austrália não tem unicamente o objetivo de fortalecer a presença militar australiana. Uma Austrália militarmente relevante e poderosa coloca o Ocidente na fronteira com o mar da China e com a Zona Económica Exclusiva chinesa, onde a Austrália poderá fazer missões de patrulha, de acordo com analistas em defesa.

Esta presença, juntando à marinha americana, é considerada pela China uma afronta direta aos seus objetivos de expansão para ilhas desabitadas ou recentemente construídas com o propósito de aumentar a sua zona exclusiva e poder monitorizar melhor a Ásia Oriental.

O acordo é o mais recente episódio da "guerra sem tiros" que os EUA e a China têm travado. Além de se colocar firmemente do lado de Taiwan na disputa entre o território e a China, os Estados Unidos travaram a aquisição de tecnologias pela China, incluindo semicondutores (que estão em falta no mercado mundial), pediram à comunidade internacional para impedir o avanço da empresa chinesa Huawei e a sua tecnologia 5G, e têm sido um voz bem sonora contra a supressão de democracia em Hong Kong e Macau.

A necessidade americana de continuar a bater à porta de Pequim é tal que a administração Biden está disposta a fazer uma exceção às suas prioridades nucleares.

Os submarinos que serão vendidos à Austrália são nucleares, não no armamento, mas no abastecimento. Podem permanecer submergidos durante meses e usam urânio altamente enriquecido, semelhante ao utilizado em bombas nucleares, o que torna este veículo num moderno resquício da Guerra Fria. Basta substituir União Soviética pela China.

Os EUA têm promovido uma política de desnuclearização dos seus reatores, pelo menos passando a usar urânio menos enriquecido e menos passível de ser usado em armas e bombas.

No entanto, este acordo com a Austrália vai diretamente contra essas ideias. A última vez que os EUA partilharam este tipo de tecnologia foi em 1958, com o Reino Unido. A Austrália goza de uma partilha que nem mesmo a Coreia do Sul, um dos principais aliados dos americanos, tem a oportunidade de gozar.

Uma facada no Eliseu e no coração da Europa

As críticas francesas não se destinaram apenas aos EUA e à falta de diálogo. A França tinha já preparado, em 2016, um acordo com a Austrália para o fornecimento de submarinos "tradicionais", sendo que este novo acordo para a compra de submarinos nucleares é, diz o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, uma "facada nas costas" do Governo de Paris.

O acordo de 2016 entre França e Austrália será agora cancelado, sendo que previa a construção de 12 submarinos convencionais e os australianos já gastaram cerca de 1,5 mil milhões de euros no programa, segundo apontou a Reuters.

Para complicar mais a situação com um dos seus principais e mais antigos aliados - a França é um aliado dos EUA desde a fundação do país, apoiando os colonos americanos na guerra de independência -, o acordo entre americanos, australianos e britânicos surge depois do discurso do Estado da União da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a preconizar e defender um esforço militar conjunto na União Europeia.

"É tempo de a Europa avançar para o nível seguinte", disse esta semana Ursula von der Leyen, no Parlamento Europeu.

A iniciativa tem o apoio da França, e esse apoio poderá tornar-se mais forte depois do inesperado acordo dos submarinos. Além disso, Macron sempre defendeu que a União Europeia devia tentar manter-se equilibrada entre a China e os EUA, evitando ser arrastada para um conflito entre os dois países.

Florence Parly disse à Franceinfo que soube do acordo através das notícias, apesar do NYT referir que a Austrália ficou "encarregue" de dar a notícia ao Governo de Macron. E Le Drian lamentou que a Austrália deitasse por terra o acordo previsto em 2016, que inclui "muitas transferências de tecnologias e um contrato de 50 anos".

Já o líder da diplomacia europeia, Josep Borrell, disse que o acordo demonstra que a UE precisa de cimentar a sua autonomia estratégica, argumentando que a União "tem de existir por si própria, já que os outros existem por si próprios".

No meio destas disputas e tensões, o Reino Unido continua a procurar o seu lugar fora da União Europeia no mundo pós-Brexit, dirigindo recursos para as regiões do Índico e do Pacífico.

Para já, a tensão continua entre França e EUA. Macron ainda não visitou a Casa Branca e Paris ainda não foi visitada pelo secretário de Estado americano, Anthony Blinken, (que viveu em Paris muitos anos). Os EUA também não consultaram a França na sua saída do Afeganistão.

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