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Reino Unido tenta adiar a pandemia sem desligar o motor

Médica portuguesa é "detetive" do coronavírus no Reino Unido. "Encerrar escolas teria impacto fraco na transmissão da infeção"

14 mar, 2020 - 01:00 • António Fernandes, correspondente da Renascença em Londres

Os números de infetados com o novo vírus estão a subir, mas ao contrário do resto da Europa o Governo britânico está a reagir de forma mais suave. Uma médica portuguesa faz parte da equipa de resposta ao coronavírus no Reino Unido e explica a resposta à pandemia.

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O Reino Unido teve o seu primeiro caso de coronavírus a 31 de janeiro, o mesmo dia em que deixou a União Europeia.

Desde aí, viu um lento aumentar do número de casos positivos e tem agora perto de 800 infetados. E se o vírus se demorou mais a espalhar numa fase inicial, em muito se deve à primeira fase do plano do Governo britânico para responder ao coronavírus: a contenção. Nesse período, algumas das medidas são quase invisíveis para o público, mas são de extrema importância, como explica Inês Campos Matos, médica portuguesa de saúde pública que trabalha Public Health England e que faz parte da equipa de resposta ao novo vírus, recolhendo e analisando os dados da propagação do vírus no Reino Unido.

Como é, então, esse trabalho de “detetive” para tentar evitar uma epidemia?

“Quando uma pessoa entra numa população com uma infeção nova, é extremamente importante perceber de onde é que essa pessoa veio, onde foi infetada e com quem contactou. É aí que entra a saúde publica. Tentámos perceber quem foram os contactos, com um foco nas pessoas mais suscetíveis, como os idosos ou pessoas com outras doenças, que correm perigo de vida se forem infetadas, mas também as pessoas saudáveis, para garantir que, se forem infetadas, podemos diminuir o alastramento da infeção”, começa por explicar Inês Campos Matos. E prossegue: “No Reino Unido, nas primeiras cinco semanas não tivemos mais do que 10 casos. No início, quando tínhamos poucos casos, sabíamos de onde vinham. Os primeiros eram associados a pessoas que tinham viajado de sítios onde existia a infeção, depois a contactos dessas pessoas. Mas, de repente, começámos a ver casos que não conseguíamos identificar onde tinham apanhado a infeção. E é nesse momento que percebemos que temos de passar para uma fase de adiar; já não podemos conter”.

Agora que o Reino Unido passou de conter para adiar, isso não significa um fracasso da primeira fase. Muito pelo contrário, diz Inês Campos Matos. “Mesmo que não consigamos conter a doença como aconteceu, ganhamos bastante tempo, conseguimos atrasar a velocidade com que a doença se espalhou”.

Uma doença que se vai continuar a espalhar, com Chris Whitty, o conselheiro chefe do Governo em assuntos médicos, a dizer que no pior cenário 80% da população do Reino Unido vai ter esta infeção. Sabendo isso, agora há uma escolha a fazer. “Ou a infeção se propaga muito rapidamente e temos um pico muito rápido, com muita gente doente ao mesmo tempo – o que tem consequências terríveis para o Serviço Nacional de Saúde, com muitas pessoas vulneráveis que se arriscam a morrer por causa da infeção, sem camas, sem profissionais de saúde disponíveis –; ou então temos um período mais alargado, em que a infeção se alastra devagarinho e os serviços de saúde têm o tempo e a capacidade para responder. Se o fizermos assim, temos mais possibilidade de proteger melhor os mais vulneráveis”, explica Inês Campos Matos.

É com esse objetivo que o Reino Unido entra na fase de adiar. Uma das principais medidas é indicar que todas as pessoas que tenham sintomas, mesmo que leves, devem ficar em casa durante sete dias. Para além disso, a política de como se testa pessoas também muda, passando só para os hospitais e para os doentes mais graves, para confirmar que essas pessoas tem o coronavírus. Por outro lado, a história de viagem deixa de contar, já não é preciso ter viajado ou ter estado em contacto com um viajante proveniente de um sítio como a China, por exemplo, para ser considerado um possível caso de coronavírus.

Medidas que fazem parte de um plano, mas que são ainda assim leves quando comparadas com outros países como Itália, França e, até, Portugal. Leves até tendo tem conta que o primeiro-ministro Boris Johnson deixou o aviso de que muitas famílias iam perder entes queridos antes de tempo.

Coronavírus na Europa

Jeremy Hunt, antigo ministro da Saúde, é um dos principais críticos da estratégia do Governo e, em entrevista à BBC, disse que a estratégia do Governo é “preocupante” e que não é suficiente para prevenir a propagação do Covid-19.

Segundo Inês Campos Matos, a forma como o Governo britânico está a impor novas medidas de forma faseada tem por base “modelos matemáticos, que preveem o impacto das medidas e indicam que pode haver momentos desta epidemia em que pode ser mais eficaz tomar outras medidas do que tomá-las todas ao mesmo tempo”, mas sabendo também que é preciso “um equilíbrio e fazer uma escolha entre o impacto na saúde, e nos cuidados de saúde, e o impacto na economia e na sociedade. Apesar de sabermos, e de haver evidência, que se toda a gente ficar em casa reduz-se o contágio, mas o impacto social seria extraordinário”.

“Encerrar escolas? Pode ser eficaz, mas com o coronavirus ainda não sabemos"”

Para já, as escolas continuam a funcionar. Para Chris Whitty, o impacto de fechar as escolas é maior na educação das crianças do que propriamente no combate ao vírus.

Inês Campos Matos explica a lógica por trás desta decisão: “Na gripe, as crianças tendem a transmitir a infeção muito facilmente, interagem muito, não lavam as mãos tão bem quanto os adultos. Como as crianças não mostram sintomas da gripe tao graves, o que acontece é que estão aparentemente saudáveis, vão para casa e infetam os familiares. Portanto, no caso de uma gripe pandémica, fechar uma escola pode ser uma medida de saúde publica muito eficaz. No caso do coronavírus nós não sabemos se as crianças transmitem o vírus tão efetivamente como transmitem a gripe, portanto, encerrar as escolas teria um impacto fraco na transmissão da infeção, mas podia ter um impacto porque se os pais ficarem em casa diminui-se o contacto”.

Não há ainda indicação para que as pessoas comecem a trabalhar de casa ou para que sejam cancelados eventos com muitas pessoas, mas depois de a Premier League ter confirmado a suspensão do futebol pelo menos até 3 de abril, de a maratona de Londres ter sido adiada para outubro e das autárquicas (que estavam marcadas para maio) terem sido adiadas para 2021, tudo indica que Governo deve agora avançar para o cancelamento dos eventos de massas.

Na conferência de imprensa em que foi anunciada a mudança para a fase de adiar, Sir Patrick Vallance, o conselheiro chefe do Governo para a Ciência, defendeu que “se suprirmos um vírus de forma muito forte, quanto suavizarmos as medidas o vírus volta – e volta na altura errada”. Patrick Vallance disse também que os números reais de infetados podem estar entre os cinco e os 10 mil, mas os mais de 30 mil testes realizados encontraram até agora 798 infetados – dos quais resultaram 11 mortes.

Essa discrepância nos números reais e oficiais justifica-se porque vários podem estar infetados ainda que não o saibam, mas também porque “a maioria das pessoas têm sintomas relativamente leves, o que reconheceríamos como uma constipação ou uma gripe não muito forte, e por isso podem só ter ficado em casa e terem-se tratado da mesma forma que tratariam uma constipação normal. Até há pessoas que podem ter o vírus e não ter sintomas”, esclarece Inês Campos Matos.

A médica portuguesa diz que em qualquer epidemia há dois tipos de medidas para reduzir o número de infeções: as individuais, como lavar as mãos ou diminuir o contacto com outras pessoas, e depois há as decisões que só as instituições ou o Governo podem fazer, como “pedir para as pessoas com sintomas ficarem em casa” ou, num caso extremo, “ fazer o que a Itália fez”: criar um cordão sanitário à volta de uma área geográfica onde há muita transmissão “para tentar restringir o movimento de pessoas”.

Um movimento de pessoas que está já mais restringido, com cada vez mais bilhetes aéreos por comprar e voos cancelados. No Reino Unido, a British Airways já avisou que como consequência do impacto financeiro da pandemia terá de despedir parte do seu staff. Começam também a ser mais comuns o estabelecer de fechar de fronteiras ou rejeitar certos visitantes, como os Estados Unidos estão a fazer em relação primeiro aos cidadãos chineses – e, agora, aos europeus.

Uma ideia que nem sempre resulta, “porque as pessoas que querem viajar arranjam forma de viajar”. “Até pode ter o efeito contrário, levando a que as pessoas entrem no país de uma forma menos controlada, onde não podemos, por exemplo, fazer triagens ou informar as pessoas do que devem fazer caso tenham sintomas”, diz Inês Campos Matos. Para a médica de saúde pública acresce outro problema: “A história ensina-nos que as emergências de saúde publica são oportunidades para estigmatizar e discriminar, para atitudes xenófobas – o que já se viu no caso desta pandemia. E não podemos deixar que seja uma oportunidade para descriminar”.

Em Londres, onde vivem mais de 10 milhões de pessoas, o metro é o local ideal para um vírus se propagar. À hora de ponta, os londrinos apressados empurram-se para entrar no metro e tentar evitar atrasos na chegada ao trabalho, seguindo a sua viagem com uma proximidade com as outras pessoas que é menos do que confortável. Ainda assim, não há uma estratégia diferente para as cidades, até porque “seja numa cidade ou numa aldeia, em qualquer sítio o risco é proporcional ao número de contactos”. “Qualquer medida que diminua o contacto que as pessoas tenham umas com as outras e que tenham em locais com muitas pessoas ou que pessoas passam, vai sempre ter um impacto na diminuição da velocidade com que a infeção se alastra”, explica Inês Campos Matos.

Esse é o desafio que o Reino Unido tem pela frente: tentar adiar a propagação do vírus e diminuir o impacto nos cuidados de saúde.

Boris Johnson disse que o Reino Unido está cerca de quatro semanas atrás da Itália, por isso, para Inês Campos Matos, há a vantagem de “aprender com Itália. E explica: “Portanto, podemos implementar medidas agora que evitem que cheguemos a uma situação como em Itália, em que o número de casos aumentou tão rapidamente nessas semanas”.

É também um desafio que não é possível combater sem os serviços de saúde.

E é por isso que Inês Campos Matos relembra os perigos que correm: “Nós suspeitamos pelos dados que vêm da China que um dos grupos populacionais mais infetados – e quando digo infetados, não digo aqueles que têm maior probabilidade de morrer; mas sim maior probabilidade de serem infetados – são os profissionais de saúde. Nas pandemias e epidemias são sempre os profissionais de saúde que estão na linha da frente a tomar conta das pessoas que estão infetadas, e que têm a doença, que tendem a sofrer mais”. E acrescenta: “Isto é quase um ciclo vicioso, quanto mais profissionais de saúde ficam doentes menos profissionais podem trabalhar e piores recursos temos nos cuidados de saúde. Portanto, é extremamente importante que os serviços de saúde ocupacional – por exemplo, os hospitais e os cuidados primários de saúde – se certifiquem que os seus profissionais estão protegidos. E têm que ter equipamento para se proteger. Têm que trabalhar horas razoáveis e não trabalhar demasiado. E temos sempre que ter o cuidado de proteger os cuidados de saúde”.

Para além disso, para Inês Campos Matos esta crise reforça a necessidade de investimento na saúde pública, a principal responsável pelo adiar da epidemia no Reino Unido.

“A razão pela qual nós agora no Reino Unido temos 500 casos, e não temos mil ou 100 mil, é porque a saúde pública estava lá, é porque temos médicos e profissionais de saúde pública que trabalham no terreno e identificam os casos rapidamente. E que identificam os contactos rapidamente. E que, com isso, com esta atividade, conseguiram adiar e atrasar alastramento desta epidemia. E isto é extremamente importante. A saúde pública é daqueles serviços que só quando falham, ou quando não estão lá, é que nós damos por falta deles”, lembra.

A resposta médica e da comunidade científica é aplaudida várias vezes por Inês Campos Matos, que destaca que perante “uma doença nova no mundo – há três ou quatro meses atrás nunca ninguém tinha ouvido falar deste vírus –, conseguimos criar um teste para o vírus, implementar esses teste em inúmeros laboratórios num país como o Reino Unido, conseguimos um sistema de partilha de informação – querendo assim dizer que há uma célula que recolhe todos estes testes e os seus resultados e conseguimos partilhar esta informação rapidamente, quase ao vivo, com toda a população”.

Mas nem só de respostas médicas e políticas se faz a resposta a uma pandemia.

Falta o lado social e de como se vai cuidar de pessoas vulneráveis. Para Inês Campos Matos, não só as pessoas da nossa família, mas também ter a certeza que, se tiverem de estar isoladas ou de quarenta em casa, “têm alguém para levar comida, por exemplo, se as pessoas mais velhas ou vulneráveis da nossa família estão protegidas e ter a certeza que não as vamos visitar durante uns dias se tivermos sintomas de infeções respiratórias – para protegê-las. Portanto, isto é a outra responsabilidade individual, que nós todos temos que ter, de proteger as pessoas vulneráveis da nossa comunidade”.

No entretanto, com quatro semanas de atraso em relação a Itália, o Governo britânico tenta encontrar um equilíbrio (que se pode revelar traiçoeiro) entre o adiar da propagação de um vírus, tentando manter a vida o mais normal possível, e o evitar de medidas mais fortes – que pode ser criticado se os números continuarem a aumentar.

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