Hora da Verdade

Temido responde a Marcelo: “PRR não tem a ver com a questão do OE”

24 mai, 2024 - 07:00 • Susana Madureira Martins (Renascença) e Maria Lopes (Público)

Candidata do PS recusa leitura nacional do resultado das europeias. Ex-ministra diz que o sentido de voto do PS no OE2025 “depende do percurso da AD” e rejeita pressões presidenciais.

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Reforma da AIMA “provavelmente” podia ter sido feita de outra maneira
Veja a entrevista completa de Marta Temido ao Hora da Verdade. Foto: Rui Gaudêncio/Público

Marta Temido admite que as sondagens “não indicam a possibilidade de repetição” do resultado de 2019, em que o PS elegeu nove eurodeputados, mas garante que trabalha para “melhorar” a composição do grupo dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu.

Em entrevista ao programa Hora da Verdade, da Renascença e do jornal Público, a cabeça de lista do PS às europeias diz que convidou António Costa para participar no período de campanha oficial e espera que o ex-primeiro-ministro possa ter um futuro europeu. “Faço votos para que sim”.

A ex-ministra da Saúde do PS mantém que é “praticamente impossível” e “muito difícil” que os socialistas venham a viabilizar a proposta de Orçamento do Estado da AD, mas ressalva que “há sempre três sentidos de voto em aberto”. E responde às pressões do Presidente da República sobre o OE: "Não me parece que a execução do PRR tenha muito a ver com a questão do Orçamento".

A três dias do arranque da campanha oficial das europeias, Marta Temido garante que vai cumprir o mandato de cinco anos até ao fim, e admite que “todos os bons resultados em todas as eleições reforçam a capacidade de um partido, a sua implantação e a sua capacidade de reivindicativa”.

Em relação à saída de Fernando Araújo da Direção Executiva do SNS, a ex-governante diz esperar que não seja um “ajuste de contas” da ministra da Saúde e assume “perplexidade” com “alguma tentação de ‘estes não são nossos, vão todos embora’.

O PS elegeu nove deputados em 2019. É possível repetir um resultado destes em junho?

O resultado depende dos portugueses, é evidente. Da nossa parte, vamos continuar a fazer, até 9 de junho, o maior esforço possível no sentido de ser claros sobre aquilo que está em causa nestas eleições europeias. É a Europa que está em risco, são duas visões muito diferentes que podem triunfar. Não se trata apenas de uma questão de uma guerra em solo europeu, mas também um conjunto de adversários do que é o progresso e os valores essenciais do projeto europeu.

Mas com o partido na oposição é repetível?

Na altura foi um resultado muito bom. As sondagens não indicam essa possibilidade de repetição, mas trabalhamos para o melhor resultado possível que é ganhar as eleições. O objetivo é melhorar a composição do grupo dos socialistas europeus no Parlamento Europeu.

Ultrapassar o PPE?

Ou ultrapassar outras forças que estão à nossa direita e minimizar o risco de coligações adversárias do projeto europeu, que parecem uma possibilidade, quando ouvimos o PPE dizer que, dependendo dos resultados, poderá fazer determinadas escolhas e alianças.

A lista de candidatos do PS não repete um único dos atuais eurodeputados. Esta mudança total não provoca dificuldades?

Só posso dizer duas coisas: a primeira é que não me ficaria bem como cabeça de lista escolhida pelos órgãos do partido fazer comentários sobre essas escolhas. E a segunda é que todos temos contado com um apoio inexcedível dos atuais eurodeputados.

Vão estar na campanha? Pedro Marques, Margarida Marques...

Vão estar na campanha e já têm estado.

E vai ter António Costa?

Não faço a menor ideia quais são as disponibilidades e as vontades.

Convidou-o?

Claro que sim.

Conta com António Costa se a meio a campanha precisar de um impulso?

Vamos ver. Se isso for relevante, penso que poderá acontecer.

Estará também sempre acompanhada por Pedro Nuno Santos?

É uma questão também de compatibilidade de agendas. Vamos procurar alinhar o mais possível.

Vai ficar exilada em Bruxelas durante cinco anos?

Deixe-me ser muito clara sobre isso: não aceitarei qualquer outro desafio enquanto estiver a exercer o meu mandato de eurodeputada. Tem a ver com aquilo que está em causa neste mandato ao Parlamento Europeu, uma visão da Europa. Estou muito empenhada e entusiasmada neste projeto e vou levá-lo até ao fim.

Os resultados eleitorais destas europeias podem condicionar a política caseira? São uma espécie de segunda volta de futuras legislativas?

Não aceito essa leitura. O que está em causa é muito mais do que uma segunda volta das legislativas. As eleições são sempre autónomas, distintas. Sabemos que, numas circunstâncias, as pessoas votam mais em função dos candidatos, noutros votam mais em função dos partidos. Não há possibilidade de leituras transversalizadas.

Se ganhar, o PS sente-se legitimado para ter mais pressa em provocar eleições legislativas?

Evidentemente, que todos os bons resultados em todas as eleições, sejam quais forem, reforçam a capacidade de um partido, a sua implantação e a sua capacidade de reivindicativa. Isso é diferente de retirar consequências, de fazer leituras para, ou de instrumentalizar uma eleição.

Deixou de ouvir-se da parte do PS que é “praticamente impossível” chumbar o Orçamento do Estado. Já vê como possível a viabilização por parte do PS?

Desde o primeiro momento que a opção sobre esse tema é clara em dois pontos: o orçamento é um instrumento de política, não é uma escolha financeira orçamental abstrata; e com determinado tipo de políticas seria absolutamente inviável um determinado sentido de votação.

Depende do que seja o percurso do Governo e o que temos visto é uma curiosa oscilação entre aquilo que parecia estar no seu programa e aquilo que, em alguns pontos, afinal é o programa do PS.

A linha oficial do PS tem sido dizer que é praticamente impossível, que é muito difícil”…

E parece-me que sim, que é praticamente impossível e muito difícil. Mas há sempre três sentidos de voto em aberto. Aquilo que o PS tem dito, e que eu acompanho inteiramente, é que o projeto político que está por trás de um eventual orçamento para 2025 apresentado pela AD, dificilmente é compatível com o que são as nossas linhas de aceitabilidade. [O sentido de voto] Depende do processo que a AD fizer em termos de evolução.

O Presidente da República veio colocar pressão: se o Orçamento do Estado não for viabilizado, os projectos do PRR podem ficar em risco. O PS é pressionável neste ponto?

Não me parece que o PS deva ser pressionável por qualquer argumento. E não me parece que a execução do PRR tenha muito a ver com a questão do Orçamento. Está no terreno, tem a ver com outros níveis da administração mais de proximidade do que com outras circunstâncias.

O argumento do Presidente é fraco?

Não vou classificar o argumento do sr. Presidente. Neste momento, se calhar, a tónica será mais até no outro ponto.

Qual?

O da execução.

É candidata às europeias, mas também ex-ministra da Saúde. Qual a sua opinião sobre a exoneração de Fernando Araújo da Direção Executiva do SNS?

Tenho procurado guardar recato em relação ao sector. A direção executiva é um projeto essencial para a reorganização do SNS e tem que ter um pendor, não de definição de políticas, mas de implementação de soluções no terreno e de coordenação entre estruturas. Houve uma linha de trabalho que foi interrompida. Compreendo a decisão que foi tomada. Desejo a maior das sortes à nova Direção Executiva.

Esta escolha do militar Gandra d’Almeida para a Direção Executiva faz sentido?

Não considero o estatuto civil ou militar como um estatuto em si próprio. A minha experiência foi muito positiva no trabalho com as forças militares, pela capacidade, pela competência. O papel das Forças Armadas pode ir bastante para além daquilo que são as respostas militares e pode ser bastante importante naquilo que é a organização de uma resposta de outro tipo de emergência.

Se esta pessoa em concreto tem ou não tem as competências para lidar com aquilo que é uma estrutura com 100 mil trabalhadores, que atende 10 milhões de pessoas, que está pulverizada por todo o país, isso agora só o tempo vai mostrar.

Ficou surpreendida com estas decisões da ministra da Saúde? Há aqui um sentido quase de ajuste de contas?

Espero que não. Seria um péssimo prenúncio. Ficámos, de facto, perplexos com alguma tentação de ‘estes não são nossos, vão todos embora’. Acho que é um sinal preocupante.

Espera algumas surpresas do plano de emergência da saúde, ou o Governo deveria esperar por resultados da reforma em curso que não fez ainda um ano?

Eu ainda não percebi muito bem o que é o plano de emergência da saúde, se é sazonal, se é para o SNS. Quando foi preciso escrever o programa eleitoral era preciso escrever sobre a saúde. Não faziam a menor ideia do que é que iam escrever e inscrever, um plano foi a solução de recurso. Vamos ver.

A Operação Influencer não teve qualquer desenvolvimento relativamente ao primeiro-ministro nos últimos meses. António Costa ainda tem condições para esse futuro na Europa este ano?

Sempre achei que sim. Muitos países europeus têm essa expectativa. Vamos aguardar a evolução da situação para perceber se isso se torna uma possibilidade ou não. Faço votos para que sim. Acho que a Europa teria muito a ganhar e Portugal também.

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