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Hora da Verdade

Pedro Nuno Santos: "Este não é um bom momento para o Presidente da República"

07 dez, 2023 - 07:00 • Susana Madureira Martins ( Renascença) e Helena Pereira (Público)

Candidato à liderança do PS pede "mais esclarecimentos" dos intervenientes no caso das gémeas tratadas no Hospital de Santa Maria, mas deseja que a situação "não manche, não crie mais dificuldades à própria Presidência da República".

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Em entrevista ao programa Hora da Verdade, da Renascença e do jornal Público, Pedro Nuno Santos, um dos candidatos à liderança do PS, pede "alguma calma" quando questionado sobre a eventual necessidade de o Parlamento agir no caso das gémeas fazendo espoletar o processo para o Presidente da República ser ouvido judicialmente.

Pedro Nuno Santos pede que não se acrescentem "problemas a uma situação que já não é fácil e não é boa para ninguém", embora admita que "este não é um bom momento" para Marcelo Rebelo de Sousa.

O ex-ministro das Infraestruturas admite que, se for eleito primeiro-ministro, não terá com o Presidente da República uma relação "semelhante" à que teve António Costa com Marcelo, mas promete que será "sempre" de "muito respeito institucional".

Nesta linha, Pedro Nuno Santos recusa que o Presidente da República venha a ser uma força de bloqueio, no caso de os socialistas ganharem as eleições de março. "Não pode ser, não vai ser, isso seria péssimo para o país, era só o que faltava", conclui.

No caso das gémeas que receberam tratamento no Hospital de Santa Maria, acha que o Presidente devia dar mais explicações sobre o que aconteceu ou ficou elucidado com a conferência de imprensa de segunda-feira?

Todos os dias ou todas as semanas vamos tendo novas informações sobre o caso, o que recomenda cautela naquilo que diga. Aquilo que me parece importante é preservar e defender a confiança dos cidadãos nas instituições e, desde logo, neste caso em particular, no Serviço Nacional de Saúde.

Não acha que essa confiança está abalada?

É importante que seja garantida. Ao mesmo tempo, espero que isto tudo se resolva, que seja clarificado e que possamos seguir em frente. O Presidente da República pela função, mas também pela pessoa que é, é muito importante para o país.

Marcelo Rebelo de Sousa foi alguém que conseguiu recuperar uma proximidade com o cidadão muito importante para a confiança nas instituições. Fala-se em Presidente dos afetos como se fosse uma coisa menor, mas Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu construir uma relação com o povo português que é um património importante da nossa democracia. Essa foi uma vitória e é muito relevante.

Julgo que devemos continuar a manter esta confiança no Presidente e tendo uma boa relação com ele. Desejo apenas que este caso não manche, não crie mais dificuldades à própria Presidência da República. Quero manter uma relação de muito respeito e muita consideração com alguém que, não tendo apoiado, respeito muito.

"Desejo apenas que este caso não manche, não crie mais dificuldades à própria Presidência da República"

Somar a crise política em torno do Governo a uma crise também em torno do Presidente da República era entrar num pântano institucional?

Eu vivo, como todos os portugueses, com preocupação com o momento que vivemos. A nossa democracia é recente, mas sólida, há confiança dos portugueses nas instituições políticas, e é muito importante que isso se mantenha.

A relação entre António Costa e o Presidente da República prejudicou o ambiente político?

Não, não acho que tenha prejudicado o ambiente político. Foi uma boa relação e foi muito útil ao país. Nos últimos tempos, não foi tão boa, é verdade. E quando não é boa entre o primeiro-ministro e o Presidente, não é bom para o país. Temos de ir aprendendo com a história, com aquilo que vai acontecendo e percebendo bem a importância de uma boa relação entre as duas partes, sendo que a responsabilidade de a relação ser boa é sempre das duas partes, nunca é só de uma. Sabemos que, em todas as dimensões da vida, quando há problemas numa relação, é sempre responsabilidade dos dois.

Qual será a sua relação com o Presidente da República se for eleito secretário-geral do PS e ganhar as eleições de março? Será semelhante à de António Costa?

Semelhante não será, porque as personalidades são diferentes. As relações dependem das personalidades das duas partes. As pessoas são diferentes, as relações também terão um caráter diferente, naturalmente. Mas será sempre uma relação de muito respeito institucional pelo Presidente da República e pelos diferentes poderes que tem o Governo e pelos poderes que tem o Presidente da República.

Não teme que este Presidente seja uma força de bloqueio ao PS, no caso de o partido ser Governo?

Não, acho que não pode ser, não vai ser, isso seria péssimo para o país. Era só o que faltava, cada um tem de fazer o seu trabalho, deve-se respeitar, conscientes de que o que temos é de fazer o país avançar.

Quando disse que era importante clarificar o caso das gémeas, seria como? No Ministério Público ou com os intervenientes políticos?

Sim, explicarem exatamente o que aconteceu. As explicações têm sido dadas, mas quanto mais depressa tudo for percebido, mais depressa também terminamos este caso.

Ficou com alguma dúvida sobre o que o Presidente da República disse?

Não quero fazer nenhum juízo sobre o caso. Não tenho conhecimento pleno do mesmo e não contribuo em nada dando palpites sobre o caso.

Marcelo Rebelo de Sousa não está com a sua autoridade diminuída por causa deste caso?

Este não é um bom momento para o Presidente da República. Acho que é evidente e que ele próprio reconhece. É importante que [este momento] seja ultrapassado para que o Presidente da República possa estar concentrado naquilo que verdadeiramente interessa ao país e que são as suas funções.

Já dura há mais de um mês.

Já é muito tempo. Provoca desgaste e não é bom, obviamente, para ninguém.

Se houver necessidade de o Parlamento agir fazendo espoletar aquele processo para o Presidente da República ser ouvido judicialmente, não será o PS a carregar nesse gatilho?

Devemos ter todos também alguma calma e não acrescentar problemas a uma situação que já não é fácil, não é boa para ninguém.

António Costa ainda poderá ter uma carreira internacional?

Espero bem que sim. Foi um excelente primeiro-ministro. O reconhecimento internacional que conseguiu ao longo dos anos é evidente para toda a gente, em diferentes famílias políticas. Espero sinceramente que António Costa possa vir a ter um papel importante no futuro, seja em Portugal ou não. É um dos nossos melhores e era importante que não se reformasse da vida política porque perderíamos todos com isso.

Se ganhar as eleições internas, José Luís Carneiro terá lugar na sua direção?

O José Luís Carneiro é um camarada com muita qualidade política e que, obviamente, queremos que participe no projeto do Partido Socialista. A forma e o modo depois veremos em conjunto.

José Luís Carneiro disse ao Hora da Verdade que se fosse eleito líder que contaria consigo para o Secretariado Nacional...

Não faz sentido estar a fazer aqui os órgãos do partido. O que é importante é que fique claro que nós contamos, e que eu conto, com o José Luís Carneiro para o futuro do PS. A forma e o modo, conversaremos os dois na altura certa.

"Espero sinceramente que António Costa possa vir a ter um papel importante no futuro, seja em Portugal ou não"

E Francisco Assis terá lugar num Governo liderado por si?

Francisco Assis é um quadro muito importante do Partido Socialista, muito respeitado na sociedade portuguesa, a quem agradeço muito o apoio. É um quadro que tem e terá o espaço no PS que entender.

É presidenciável?

O Francisco Assis tem características que o habilitam a desempenhar um conjunto diferente de funções, mas que só ele poderá dizer qual é. Acho que tem perfil para muitas funções diferentes. Não quero estar a dizer nada, nem sim nem não a nenhuma função em particular. Isso dependerá também daquela que for a sua vontade. Acho que ele tem características, inteligência, capacidade para desempenhar um conjunto diferente de funções. Mas nós, no momento certo, avaliaremos com ele.

No Governo, por exemplo?

Qualquer função, não excluo. E acho que ele também não, só depende dele. Trabalharemos depois para perceber qual é o espaço que ele quer preencher. Espero bem que queira, porque é muito importante para nós e para o país.

E vai manter Carlos César como presidente do PS? Sabe se ele estará disponível?

Não quero ser chato, mas não posso preencher os cargos do Partido Socialista numa entrevista. Não é assim que se deve fazer. Carlos César é uma das maiores referências políticas para mim e é uma das maiores referências políticas do PS. É presidente do partido e mais uma vez posso dizer, com toda a certeza, o Carlos César também será no partido aquilo que bem entender, tem estatuto para isso.

É dos quadros com maior currículo político, com resultados e, por isso, connosco também será aquilo que bem entender. O meu respeito pelo presidente do partido é imenso. Qualquer tipo de especulação sobre aquele que será o papel de Carlos César no futuro do PS e do país, acho que é extemporâneo.

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