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Hora da Verdade

Santos Silva não afasta Belém, mas pede "às senhoras expectativas" que deixem de aparecer

09 nov, 2023 - 07:00 • Susana Madureira Martins

O presidente da Assembleia da República garante que está "100% de acordo" com Ferro Rodrigues, que defendeu que não faz muito sentido deixar passar a imagem de que se é candidato a Belém.

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Santos Silva não afasta Belém, mas pede "às expectativas" que deixem de aparecer
Santos Silva não afasta Belém, mas pede "às expectativas" que deixem de aparecer

Augusto Santos Silva não afasta uma candidatura à Presidência da República, mas diz que é o "primeiro interessado" em afastar as expetativas que têm sido criadas.

Em entrevista ao programa Hora da Verdade da Renascença e do jornal Público, gravada na manhã de terça-feira, antes da demissão do primeiro-ministro, Augusto Santos Silva fala da popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa: “Para se ser estadista e para que as pessoas reconheçam o que fazemos, a última coisa em que devemos pensar é mesmo na popularidade”.

Questionado sobre as eleições europeias de junho, o presidente do Parlamento assume que são de risco e “sérias” para a Europa, que considera estar a passar por um “momento difícil”. Santos Silva assume que tem “medo” e acusa o Partido Popular Europeu de estar “disponível para alianças com a extrema-direita”.

Há um mês que estamos a ver em direto o conflito israelo-palestiniano, o tema não é consensual no panorama político. No nosso Parlamento, foi de resto difícil encontrar um texto comum. Qual é a posição do Presidente da Assembleia da República?

Revejo-me no voto que foi aprovado por amplíssima maioria no Parlamento e que tem cinco pontos essenciais: condenação inequívoca do ataque perpetrado pelo Hamas, que é a raiz de todos estes desenvolvimentos recentes e, portanto, o Hamas é responsável não só por todas as crianças e adultos mortos em Israel, como também por todas as crianças e adultos que agora estão a ser mortos em Gaza.

Segundo, o reconhecimento da defesa do direito de defesa de Israel dentro do direito internacional, respeitando, portanto, o direito internacional humanitário, coisa que não tem sucedido. Três, apelo à libertação incondicional dos reféns. Como todos sabemos, se os reféns fossem libertados pelo Hamas, as condições para um cessar-fogo seriam criadas praticamente de imediato. Quatro, apelo à ajuda humanitária à população de Gaza e às condições necessárias para que essa ajuda se faça. Quinto, recordar sempre que a solução deste conflito passa por uma solução política e que a melhor solução disponível é a solução de dois Estados.

É uma ilusão pensar-se que o Hamas, o Hezbollah ou outros movimentos deste quilate podem ser derrotados militarmente apenas. Eles serão derrotados pela política, por uma solução justa para o conflito israelo-palestiniano e por um diálogo político que deve fazer-se entre o Estado de Israel e a Autoridade Palestiniana.

Compreendeu a polémica em torno das declarações do secretário-geral da ONU? Ou acha que Guterres teve pouca diplomacia ou alguma falta de cuidado?
Acho que esteve muito bem. Disse toda a verdade. Um dos problemas deste conflito é que, por vezes, as partes não querem saber toda a verdade, mas só a parte da verdade que lhes convém. E é muito importante que alguém possa dizer toda a verdade, aquela conveniente e aquela inconveniente.

O senhor diria que o ataque do Hamas não veio do nada?
O ataque do Hamas não se faz no vácuo, isto é, é preciso compreender o contexto. Mas como o secretário-geral das Nações Unidas começou por dizer, nenhum contexto justifica a barbaridade do ataque. Na minha opinião, o Hamas é responsável por tudo o que está a acontecer em Israel e em Gaza. Foi o Hamas que desencadeou esta fase do conflito com um ataque que faz lembrar os ataques nazis aos judeus, um ataque deliberadamente conduzido para atacar civis, para chacinar pessoas, para chacinar bebés, para matar bebés à frente dos respetivos pais e pais à frente dos respetivos filhos.

O Hamas é responsável porque usa a população civil de Gaza, usa os equipamentos sociais e educativos de Gaza como seus escudos, usa as pessoas como escudos humanos porque faz gala de ter o maior número possível de baixas entre a sua população. É responsável porque não protege a população civil de Gaza, porque os túneis em Gaza servem para armas e para militares, mas não servem para abrigos antiaéreos, por exemplo. É responsável porque tem 240 pessoas sequestradas e grande parte delas são civis. É responsável porque se recusa a aceitar a existência do Estado de Israel e se recusa a aceitar a autoridade da Autoridade Palestiniana e faz do terror a sua arma. Essa responsabilidade não pode ser omitida em nenhum momento.

Isso quer dizer que Israel pode ignorar as regras e as condicionantes do direito internacional humanitário? Não, não pode. As regras da guerra são feitas para proteger os civis e não para facilitar a vida aos militares.

Augusto Santos Silva. Buscas em São Bento "não parecem ter dimensão de um casinho"
Augusto Santos Silva. Buscas em São Bento "não parecem ter dimensão de um casinho"

Revê-se nas recentes declarações do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no diálogo que manteve com o chefe da missão diplomática da Palestina em Portugal? Diria "não deviam ter começado"?

Cada um tem o seu estilo. Eu sou institucionalista, para o bem e para o mal. Muitos dizem que sou demasiado institucionalista e, portanto, não me compete a mim comentar as palavras do Presidente da República. O Presidente da República, se quiser, pode comentar as minhas palavras.

O Presidente que está a ser contestado por causa da polémica da Palestina e agora no tratamento de dois a duas crianças brasileiras. Todos têm o limite da sua popularidade e o presidente atingiu o seu limite de popularidade ou a instituição Presidente está em crise?
Chamo-me Augusto Santos Silva, não Luís Paixão Martins. Não sou consultor de comunicação, sou o objeto. Para se ser estadista e para que as pessoas reconheçam o que fazemos, a última coisa em que devemos pensar é mesmo na popularidade.

Em junho teremos eleições europeias. Gostava de saber se, na sua perspetiva, o equilíbrio tradicional entre socialistas europeus, Partido Popular Europeu, Verdes e liberais poderá ser quebrado por partidos identitários e nacionalistas que estão a emergir?
Espero que não, mas isso depende justamente das forças políticas europeias. E eu falo pela minha família. Se os socialistas mobilizarem as pessoas, apresentarem propostas e impedirem que haja uma maioria no Parlamento Europeu que necessite de incluir a extrema-direita europeia e as fações anti-europeias. Porque o meu medo é este, como mostra a Suécia, como mostra a Itália, o Partido Popular Europeu está hoje disponível para alianças com a extrema-direita. Não está disponível na Alemanha, mas já está disponível na Itália, já está disponível na Suécia, já está disponível na Finlândia e, portanto, acho mesmo indispensável que não haja uma maioria no Parlamento Europeu que inclua apenas o Partido Popular Europeu e os vários grupos a que chamou identitários.

São umas eleições de risco?
Para a Europa, sim, são umas eleições sérias. A Europa passa um momento difícil. Não pode estar dependente do gás russo, do sr. Putin, dos seus amigos, que são muitos, alguns deles hoje disfarçados por essa Europa fora, designadamente na direita. E Europa não pode estar dependente daqueles que não querem a Europa.

Eduardo Ferro Rodrigues disse recentemente que, quando se está em função do Presidente da Assembleia da República, não faz muito sentido deixar passar a imagem de que se é candidato a Presidente da República e que depende de si próprio cortar com essa projeção. Augusto Santos Silva vai continuar a manter aberta essa porta de candidatura presidencial?
Estou 100% de acordo com o meu amigo Eduardo Ferro Rodrigues. Só peço um favor: digam-me onde é que essa imagem está a passar para eu ir lá caçá-la, para ir lá cortá-la. Eu sou o primeiro interessado nisso.

Isso quer dizer que está fora de qualquer corrida presidencial?
Não, não foi isso que eu disse. Já muita gente usou esse artifício de dizer: "Aqui declaro solenemente que nunca farei A, B, C ou D na minha vida". Normalmente, isso significa depois a necessidade de dar umas cambalhotas porque a realidade não está às nossas ordens. Espero que nas próximas eleições presidenciais a minha área política esteja representada com uma candidatura forte e unida. E darei o meu contributo para isso.

A pergunta é se nesse contributo está a pensar na Presidência da República?
Não, é mesmo presidência da Assembleia da República.

O conselho deixado por Ferro Rodrigues é que devia ter cuidado com as expectativas que estão a ser criadas à sua volta.

Digam-me onde estão essas expectativas que eu vou lá e digo: "Senhoras expectativas, por favor, deixem de aparecer porque estão a induzir em erro as pessoas".

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