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Hora da Verdade

Jorge Moreira da Silva. ​“Com a solução de Luís Montenegro o PSD fica mais pequeno”

26 mai, 2022 - 07:01 • Manuela Pires (Renascença) , Sofia Rodrigues (Público)

Jorge Moreira da Silva, candidato à liderança do PSD, diz que o partido “não está a eleger um diretor de marketing” e que não aceita uma campanha de um “certo feudalismo”. Em entrevista ao programa Hora da Verdade, o ex-ministro classifica como “excelente” o trabalho de Paulo Mota Pinto na liderança da bancada parlamentar.

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Jorge Moreira da Silva. “Com a solução de Luís Montenegro o PSD fica mais pequeno”
Imagem: Maria Lopes/RR; Foto: Daniel Rocha/Público

Foi líder da JSD, eurodeputado, secretário de Estado e, mais tarde, ministro do Ambiente do Governo de Passos Coelho. Foi consultor de Cavaco Silva para a área da Ciência e do Ambiente. Deixou de ser diretor para a Cooperação e Desenvolvimento da OCDE para ser candidato à liderança do PSD. Jorge Moreira da Silva diz que está na política há 33 anos e faz questão de sublinhar a natureza mais executiva do seu currículo. Já Luís Montenegro, o seu adversário nas diretas do próximo sábado, tem um “perfil mais parlamentar, de comunicação”.

Esteve seis anos em Paris na OCDE, anunciou a candidatura há apenas um mês. Estava à espera de encontrar um partido tão desmobilizado?

Estava à espera de encontrar um partido à espera de uma refundação. Não foi surpresa aquilo que tenho verificado. Esta é uma oportunidade que pode ser a última para que o partido se refunde.

Como é que vai cativar os mais jovens?

Os partidos só servem para alguma coisa se tiverem as propostas certas para as pessoas. O futuro do PSD e a resposta a esse desafio de trazer mais gente e dinamizar mais o PSD passa por lançar propostas que possam corresponder aos grandes problemas que o país enfrenta.

Nesta altura considera que o PSD se tornou irrelevante?

Não, o PSD não se tornou irrelevante, continua a ser um partido fundamental. Não é por acaso que estamos há tanto tempo na oposição e que nos últimos 20 anos fomos chamados a governar em momentos de crise profunda. E eu não me conformo nem resigno com um PSD que aparece apenas em fases de socorro e de emergência.

Acusa o seu adversário de estar há três anos no terreno, enquanto o senhor está a apenas 3 três semanas. Reconhece que chegou tarde demais?

Eu admito que não tirei a ficha primeiro e que não andei a almoçar nem a jantar nem a fazer um conjunto de contactos no terreno que lhe possam ter conferido, e conferiram, a lógica da precedência. Essas lógicas não só estão ultrapassadas como são mesmo a base do problema em que o PSD está. O PSD há muito tempo que não pensa nem interpreta os sinais da sociedade.

Rui Rio não fez isso?

Eu não estou a falar de Rui Rio, estou a falar do partido no seu todo, estou a falar de mim, de todos nós, de um partido que se foi habituando a saltar de líder em líder e, em termos práticos, a oferecer um projeto de poder que resultasse em grande parte da erosão de quem estava a governar à época. Considero que isso hoje não é suficiente. Não penso que o PSD possa voltar a ter uma maioria absoluta em Portugal se se voltar a desgastar e a criticar o PS. Serei líder da oposição e exercê-la-ei de uma forma firme e enérgica, mas isso não gera o capital de esperança necessário. Estou no terreno há apenas um mês, mas estou na vida política há 33 anos. Não precisei de muito para que as pessoas se recordassem das reformas que fiz.

O seu adversário não fez essas reformas?

Não, isso é evidente. O dr. Montenegro tem um perfil mais tribunício, parlamentar, de comunicação. O meu é mais associado à reflexão estratégica e depois à gestão de pessoas, de projetos, de envelopes financeiros de grande dimensão, à liderança de reformas e entrega de resultados. O PSD vai ter agora oportunidade de escolher se quer um líder tribunício, que em termos práticos aposta tudo na comunicação e num registo de escrutínio ao governo, ou um líder que seja capaz de fazer isso – e convenhamos já o fiz no passado –, mas que também seja capaz de conferir credibilidade que resulte de uma experiência de quem fez. Eu valho pelo projeto que tenho para o país. Eu preparei-me para esta função. Eu escrevi a minha moção, acho que as ideias são tão importantes que não se devem subcontratar.

O meu adversário dá tanto valor às ideias que até foi buscar para a sua moção quem escreveu [Joaquim Miranda Sarmento] o programa de Rio. Em termos práticos resulta daqui uma de duas coisas: ou tinha uma divergência profunda com Rui Rio no plano programático – e nesse caso não se entende como é que vai buscar para coordenar a sua moção alguém que liderou as ideias de Rio –ou então era apenas uma questão de ambição pessoal. Nós estamos a escolher o CEO do PSD, para ser o CEO do país. Não estamos a escolher o diretor de marketing ou relações públicas.

Não tem o apoio das distritais do partido, os líderes da JSD e os autarcas sociais-democratas estão com Montenegro. Paulo Rangel vai ficar de fora. E Carlos Moedas está em silêncio. Esperava ter mais apoios?

É muito importante notar a diferença, eu não telefonei a ninguém a pedir apoio. Quanto aos presidentes das distritais e das estruturas autónomas, eu preferiria que não tivessem assumido uma posição porque em eleições diretas quem vota são os militantes. Cada militante tem um voto e são os militantes que decidem. Se me perguntam se ‘gosta de ter a título individual o apoio de alguns dirigentes’, claro que sim. Agora, eu não confundo os dirigentes com os militantes. Os dirigentes, que eu respeito, não são donos de votos. É pressupor de uma forma errada que só porque alguém apoia leva atrás dezenas ou centenas ou milhares de votos.

Tenho demasiado respeito pelo partido, pelos dirigentes e por mim próprio para aceitar uma campanha que, em termos práticos, nos faz regressar a um certo feudalismo. O PSD só se refunda, só se reconstrói, só se regenera se der verdadeiro poder aos militantes e se assumir que a liberdade e a responsabilidade dentro do partido são critérios essenciais.

Está arrependido de ter começado esta campanha tarde?

Não, de modo algum. Porque eu quis fazer um teste ao partido, quis que o partido percebesse que eu vim para operar uma mudança profunda. O apoio dos dirigentes das distritais não corresponde, de modo algum, ao resultado que vou ter.

Isso viu-se nas últimas diretas...

Mas viu-se também em 1985. Isto estava tudo feito para uma pessoa. E de repente o partido depara-se com Cavaco Silva, muda, dá-lhe a vitória e depois estivemos dez anos no Governo. É não conhecer a história do partido e insistir na ideia de que 21 pessoas mandam no partido.

O modelo de eleição de líder devia ser alterado?

Julgo que vamos ter de fazer essa reflexão e, na minha moção, lanço algumas bases para o que pode ser a mudança interna, que passa por maior participação daqueles que não são militantes.

Abre a porta a eleições primárias?

Há muitos anos que admiti essa possibilidade. Tenho um artigo publicado no PÚBLICO há muitos anos em que defendia que se desse mais poder aos militantes, mas que se criassem condições para que aqueles que não são militantes participassem na nossa vida interna e nos mecanismos de eleição. As primárias são uma forma, mas existem outros mecanismos. Também temos de operar uma mudança profunda na lógica da militância. Hoje somos militantes de uma secção, de uma concelhia, não podemos ser de uma causa. Julgo que não conseguimos trazer mais gente para o PSD se não abrirmos essa possibilidade. O PSD deve abandonar a ideia do partido-instituição ou incumbente, como classifica Luís Montenegro, e ser um partido-movimento orientado por causas.

Acusa Montenegro de ser um dos responsáveis pela instabilidade nos últimos quatro anos. Mas, em artigos de opinião, pediu um congresso extraordinário a meio do mandato de Rui Rio e um ano antes defendeu que o líder se devia ter demitido após a “humilhação” das europeias. Também contribuiu para essa instabilidade?

Há uma grande diferença e o dr. Rui Rio tem sublinhado isso. Uma coisa é expressar a divergência, e eu fi-lo de forma documentada e escrita em dois momentos. Outra coisa é andar na beligerância, afirmei e fui à minha vida, não andei a falar com ninguém. Coisa diferente é estar permanentemente em operações de desgaste para o derrube da liderança o mais cedo possível e, convenhamos, eu nesse campeonato não andei.

Esta entrevista está a ser gravada terça-feira, daqui a uma hora vai para os Açores, que tem um governo do PSD/CDS/PPM com o apoio do Chega. Que avaliação é que faz agora desse entendimento? Prejudicou o partido?

Não mudo de opinião em função das conveniências. Divergi em 2020 sobre uma solução de entendimento com o Chega e expressei a minha preocupação sobre o efeito de contágio no contexto nacional. Nos Açores, temos tido um excelente governo, liderado de forma competentíssima por José Bolieiro, e os únicos problemas que tem tido resultam da chantagem que o deputado do Chega vai provocando, o que prova que para futuro o PSD deve apostar tudo numa maioria absoluta nos Açores.

No contexto nacional, a existência dessa ambiguidade foi a derrota nas eleições legislativas e a maioria absoluta do PS. Ora, considero que para futuro, o PSD não tem qualquer possibilidade de vencer quaisquer eleições legislativas com maioria absoluta se existir o mínimo risco percecionado pelas pessoas de que possa haver qualquer espécie de diálogo ou de entendimento com o Chega. Considero, aliás, grave que o meu concorrente direto não só não tenha dito nada em 2020 como não tenha percebido nada do que aconteceu, entretanto, e agora esteja literalmente a ziguezaguear em todas as entrevistas que dá. Pior do que isso, a sua moção abre deliberadamente as portas a um entendimento com o Chega em todo o tipo de eleições. Eu considero que isso é condenar o PSD a uma pequena minoria.

Não é isso que os militantes querem para chegar ao poder?

Espero que os militantes percebam que, com a solução de Luís Montenegro, vamos ficar mais pequenos. E com a minha solução vamos crescer. É fazer as contas. Não é só uma questão de princípio, mas neste caso é, ainda por cima, uma questão de eficácia eleitoral. Não havendo uma noção clara da parte dos eleitores que de não há qualquer possibilidade de entendimento entre o PSD e o Chega, os eleitores do Chega que expressam voto de protesto não sentirão necessidade de votar no PSD para retirar o PS do Governo porque acharão que não há nenhum problema em votar no Chega porque amanhã nos podemos entender.

Essa estratégia de Montenegro vai impedir o PSD de batalhar por uma maioria absoluta?

Estou perfeitamente convencido disso. Até porque os eleitores de centro, se sentirem que há o risco de um qualquer entendimento com o Chega, não votarão no PSD. Considero que esta linha vermelha que traço é importante do ponto de vista dos princípios, mas é uma linha vermelha fundamental para o PSD ter maioria. O PSD precisa de ter dois milhões e 300 mil votos para ter maioria absoluta. Neste momento temos um milhão e 600 mil votos. Se o PSD for ambíguo na relação com o Chega não cresce nem à direita nem cresce à esquerda. Não tenho nenhuma obsessão com o Chega, tenho é obsessão com princípios e valores e com retirar o PS do Governo para que o PSD possa ter uma maioria absoluta. Esta posição de relativismo face ao Chega afeta os valores e integridade do PSD e condena o PSD a ficar muitos, muitos anos na oposição.

Que avaliação faz até agora do trabalho de Paulo Mota Pinto na liderança da bancada?

Faço uma excelente avaliação. Paulo Mota Pinto é um político experimentado e com uma grande credibilidade externa. Foi eleito por uma larguíssima maioria no Parlamento e tem feito um excelente lugar.

Se for eleito no sábado, ele manter-se-á na liderança da bancada?

Eu não quero entrar numa discussão que, desde logo, depende da vontade de Mota Pinto. Direi que tem toda a legitimidade para continuar e está a fazer um excelente mandato. Ele terá de dizer se tenciona continuar ou não.

Se perder no próximo sábado, está disponível para aceitar alguma responsabilidade na liderança de Montenegro?

Estou confiante na vitória, é nesse cenário que estou focado.

A oposição acusa o Governo de não dar respostas ao aumento do custo de vida no Orçamento do Estado. O seu adversário defende a criação de um programa de emergência social. E o senhor? Defende o aumento de salários?

Defendo uma resposta integrada e abrangente. Desde logo, o Orçamento tem de corresponder à verdade e este é um ato de fingimento porque finge níveis de inflação que sabemos que são irrealistas só para poderem disfarçar vir a receber mais receita do que estão a comunicar para não aumentar a despesa necessária como deveriam. Há desde logo um problema de transparência e de credibilidade na política orçamental. É tanto mais grave quando sabemos que o tempo dos juros baixos acabou.

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