Tempo
|

José Pedro Teixeira Fernandes

​"Hamas e Irão já são ganhadores numa guerra que não traz nada de bom para a Europa"

09 out, 2023 - 23:18 • José Pedro Frazão

A guerra entre Israel e o Hamas abre diversas linhas de análise, desde o papel da União Europeia aos dos Estados Unidos, passando pelo impacto nos mercados energéticos e nos equilíbrios regionais. Para analisar algumas destas questões, a Renascença escutou a leitura de José Pedro Teixeira Fernandes, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI).

A+ / A-
José Pedro Teixeira Fernandes, investigador do IPRI, sobre conflito entre Israel e Hamas
Ouça a entrevista a José Pedro Teixeira Fernandes, investigador do IPRI

O ataque do Hamas pode ter tido como objetivo estratégico a perda de protagonismo da Autoridade Palestiniana como interlocutor dos palestinianos. A opinião é do analista de política internacional José Pedro Teixeira Fernandes, na véspera de uma reunião de emergência dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia.

O investigador alerta para os impactos negativos na economia europeia e acredita que o Hamas e o Irão já são politicamente ganhadores desta guerra, mesmo que sejam agora militarmente esmagados, porque impedem o caminho da normalização das relações entre Israel e países como a Arábia Saudita.

Em entrevista à Renascença, o especialista do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) anota que o ataque do Hamas foi precedido de uma "descida estranha" dos preços do petróleo e de sinais de que a Arábia Saudita estava a alinhar por posições próximas dos EUA.

Esta ofensiva do Hamas, aparentemente apanhando Israel de surpresa, trouxe à memória a guerra do Yom Kippur que, em 1973, também revelou uma fragilidade de segurança de Israel. São apenas coincidências?

Há coincidências que certamente não são um acaso. 50 anos depois da guerra de outubro de 1973, esta incursão militar do Hamas explora essa memória e até, também, um certo sentimento de sucesso, apesar de o resultado final não ser assim tão bem sucedido para os exércitos árabes. Ficou a memória de, pela primeira vez, os exércitos árabes terem conseguido fazer vacilar o Estado de Israel, sobretudo depois do trauma da derrota de 1967.

Mas aqui há uma diferença também muito significativa. Há a transformação do conflito onde, até ao passado relativamente recente, os principais intervenientes no apoio à causa palestiniana eram os Estados árabes vizinhos (Egipto, Síria, Jordânia, Líbano, por exemplo) e, agora, fundamentalmente está nas mãos de grupos não governamentais islamistas jihadistas. É o caso aqui do Hamas, quando, nos anos 70, tínhamos a Organização para a Libertação da Palestina, que está na origem da atual Autoridade Palestiniana com o seu líder carismático Yasser Arafat. Hoje temos outro perfil e, claramente, o Hamas afirma-se como o rosto visível dessa reivindicação.

Portugueses aguardam avião da Força Aérea para sair de Telavive
Portugueses aguardam avião da Força Aérea para sair de Telavive

Essa é uma questão antiga dentro do universo palestiniano. Esta incursão tem o efeito de deteriorar de forma radical a posição de Autoridade Palestiniana ( AP) face ao Hamas dentro do mundo palestiniano ? Fica a AP ferida de morte na sua legitimidade como representante da causa palestiniana ?

Não sei se sairá ferida de morte, porque isto pode ter muitos desenvolvimentos, mas perdeu mais uma vez o protagonismo e não vai ser, tudo indica, um interlocutor com peso nesta questão. Ou seja, todas aquelas tendências que já estavam aqui em marcha serão acentuadas. Aliás, penso que esse é mesmo um dos objetivos estratégicos do Hamas. Há aqui uma questão crítica: porque é que isto acontece exatamente nesta altura ? Podemos dizer com razão que no conflito israelo-palestiniano, a violência e a possibilidade de um conflito de maior dimensão estão sempre latentes. Mas este ano também houve vários episódios -ligados até à Mesquita de Al Aqsa - são invocados até pela justificação dada pelo Hamas para esta ação feita de surpresa contra o Estado Israelita. Uma questão fundamental deste momento é o acentuar ainda mais da sua preponderância como organização dominante da causa. Uma outra é seguramente também aqui uma vingança, até por razões porventura pessoais dos seus comandantes, porque muitos deles sofreram diretamente represálias nas famílias com todos estes confrontos com o Estado de Israel. O terceiro objetivo - talvez o mais problemático a nível Internacional e para toda a estabilidade do Médio Oriente – é alterar completamente as dinâmicas políticas que estavam em marcha, que se tinha percebido que lentamente estavam a favorecer Israel e a possibilidade de gradualmente ser reconhecido como Estado.

O que estava em curso eram vários movimentos. Havia uma aproximação entre o Irão e a Arábia Saudita, mas também uma ligação crescente entre Arábia Saudita e Israel, para uma certa normalização de relações. Isto num pano de fundo de influências externas sobre esta matéria. Sabemos que a China estava muito interessada no acordo entre o iranianos e sauditas. E havia a perceção de que esta acalmia nas relações entre sauditas e israelitas seria importante também para os EUA, num contexto ainda de guerra na Europa. Pensa que o ataque do Hamas está em linha com a estratégia de degradação da presença dos EUA e do Ocidente na região, com o Irão a ganhar preponderância tendo também como pano de fundo uma outra ordem internacional fora do espectro ocidental ?

Esses fatores são centrais e levantam interrogações realmente muito importantes. Mesmo com algumas reservas sobre o que os acontecimentos forem mostrando, isto objetivamente favorece largamente o Irão e todos os países e movimentos que se opõem a uma solução que estava a funcionar e que na realidade favorecia Israel em detrimento dos palestinianos e também, reflexamente, os Estados Unidos e talvez o Ocidente mais em geral. Não há dúvida que isto inverteu politicamente essa situação politicamente. Aqui o Hamas e o Irão já são ganhadores políticos, de um ganho que , pelo menos no imediato, não é reversível. Pode até ser militarmente esmagado, mas politicamente este ganho já vai aqui ficar, porque, na realidade, torna extraordinariamente difícil para os países árabes – como é o caso da Arábia Saudita - avançar diplomaticamente num caminho de normalização com Israel.

O que se perspetiva nesta altura é uma retaliação em força, provavelmente até numa dimensão superior a outras anteriores a este conflito, que naturalmente vai provocar imenso sofrimento e vítimas do lado dos palestinianos. Face à pressão da opinião pública Internacional e do mundo árabe, será impossível ir por aí nos próximos tempos e, neste sentido, essa linha política já ganhou. Claro que isto coloca também um problema também ao governo norte americano, porque apostou bastante – e estava a ter aparentemente até algum sucesso - neste entendimento e nas negociações nos bastidores. Esta última linha política maior era uma aproximação, nomeadamente com a Arábia Saudita, com uma inversão grande também dos Estados Unidos e de Joe Biden, depois de tudo o que tinha dito também da Arábia Saudita e dos seus governantes. Havia aqui alguns resultados do ponto de vista diplomático, com a Arábia Saudita poder estar a preparar um futuro reconhecimento de Israel, restando sempre a incógnita de quando faria isso efetivamente.

Estes acontecimentos param efetivamente esses processos ?

No imediato, não vejo outra forma. Obviamente, mais à frente poderão ser retomados ou não. Mas no imediato não vejo como é possível que os governantes da Arábia Saudita - e certamente perceberam que isto foi a movimentação de um eixo rival no Médio Oriente e à sua ambição de liderar o mundo árabe islâmico que lhes procurou aqui causar um problema - vão anunciar uma normalização de relações com Israel neste contexto, em que vamos ver mais sofrimento nos próximos dias em ambos os lados, mas seguramente muito nos palestinianos .

E há ainda a questão do petróleo, no campo da energia.

Sim, penso que é outro aspeto importante. Estes acontecimentos levantam múltiplas ramificações, que vão dos impactos indiretos na guerra da Ucrânia até aos ganhos que provavelmente a Rússia vai ter de uma maneira óbvia, pelo menos na subida dos preços da energia constante.

Há aqui um dado curioso. Há cerca de 15 dias - e isto não são acasos - toda a imprensa económica e mais especializada nas questões energéticas apontava que, provavelmente, o preço do petróleo poderia chegar aos 100 dólares nas próximas semanas. Ocorre que na semana imediatamente anterior a este desencadear do conflito há uma inversão, com uma descida de 5, 6 ou 7 dólares do preço do petróleo. Portanto, aconteceu aqui qualquer coisa estranha nos mercados.

Transpirou também publicamente que a Arábia Saudita tinha dado a entender aos Estados Unidos que poderia voltar a ter uma outra atitude muito mais próxima do que é o entendimento ou a vantagem ocidental, ou seja, quando os preços sobem, colocaria mais produção no mercado e fazia descer os preços. Isso, aparentemente, estava a ser sinalizado, os mercados perceberam o sinal e tinham reduzido o preço. Agora, um ou dois dias depois, acontece isto. Isto não é um acaso.

Com estes acontecimentos, o eixo de atenção internacional, que estava bastante centrado na guerra na Ucrânia, pode de novo virar-se para o Médio Oriente?

Acho muito provável, obviamente, sempre com alguma reserva também da evolução dos acontecimentos. Mas o mais antecipável nas próximas semanas ou meses, é esse eixo passar a estar centrado no Médio Oriente e no conflito israelo-palestiniano Para já, “apagou” completamente a guerra da Ucrânia e basta ver aqui os média e a atenção que é dada.

Mesmo com algum tempo mais à frente, admito que isto acabe por ter mais preponderância. Isto também favorece obviamente a Rússia, não há qualquer dúvida. Objetivamente, há ganhadores nisto, já pela própria dinâmica dos acontecimentos. É o caso do Irão, da Rússia, do Hezbollah, de todos os que no Médio Oriente se opõem também a este eixo de normalização, incluindo setores da população e governos.

Há um impacto nos EUA em ano pré-eleitoral? Os EUA vinham desinvestindo na presença militar nesta zona.

O Governo norte-americano fica aqui numa situação delicada, porque vai ter de dividir esforços de apoio e está a entrar gradualmente num ano eleitoral. Joe Biden estava a apostar muito nas vantagens que esse reconhecimento diplomático lhe traria. Seria realmente um ponto de viragem no conflito, também ao colocar a Arábia Saudita mais do seu lado na regulação dos mercados petrolíferos, o que dá muito jeito em ano de eleições, para evitar a subida novamente dos combustíveis, o que é altamente impopular nos Estados Unidos e em qualquer ponto do mundo.

Há um impacto nos EUA que vai alimentar e intensificar ainda mais a luta política interna, havia já críticas muito fortes dos republicanos, independentemente de elas serem injustas, pelo facto do Governo norte-americano ter feito um acordo limitado com o Irão ao desbloquear vários milhões em fundos que estavam em contas bancárias congeladas, num processo de troca de prisioneiros. Seja por isto, por calculismo político ou por razões mais substantivas, o Partido Republicano atacou fortemente o Partido Democrático e o governo norte-americano. Agora, ocorrendo isto, já estão a surgir as críticas de que os Estados Unidos deram um sinal errado, que o dinheiro estava a ser usado contra os interesses dos Estados Unidos. Estas críticas até são injustas, mas vão alimentar ainda mais a difícil gestão norte-americana, como já estamos a ver com os problemas no Congresso e com as questões orçamentais e de financiamento. Portanto, isto vai tornar o puzzle internacional muito mais complexo.

A União Europeia é um parceiro que vai ficar, eventualmente, mais fragilizado nesse cenário, do ponto de vista do paradigma energético, tendo em conta a inflação elevada com que está confrontada. Como é que vê a Europa neste xadrez?

Na realidade, mais uma vez também aqui esta é a realidade da Europa e o drama também de nós, europeus. Recuando um pouco, há um ano, tivemos um choque energético diretamente sobre nós - que, aliás, ainda não se dissipou – provocado deliberadamente pela Rússia, com a guerra na Ucrânia. A alternativa era ir aos mercados e procurar fornecedores que compensassem isso, para além de se tentar acelerar o processo de transição energética.

Sempre me pareceu óbvio que todas as alternativas, ou a maior parte delas, que a Europa estava a encontrar – sem contabilizar o facto de os Estados Unidos, um parceiro fiável, fornecerem gás natural, ou a Noruega – já eram um problema. A União Europeia intensificou as suas relações com Azerbaijão por causa da alternativa do gás na Rússia e agora não tem, obviamente, qualquer alavancagem sobre o Azerbaijão no conflito com a Arménia e com a tragédia dos arménios no Nagorno-Karabakh. Por muito que a União Europeia diga que lamenta, não tem instrumentos políticos para fazer nada, porque se colocou ainda mais na dependência do gás do Azerbaijão. E intensificou acordos com vários países árabes como alternativa, o que obviamente e até certo ponto seria a solução inevitável. Criou a ideia de que, no fundo, o problema era só a Rússia e o resto era estável nos mercados internacionais, o que é um erro, porque todo o padrão histórico dos conflitos energéticos está no Médio Oriente. Era uma questão de tempo até acontecer algo parecido com isto.

Por falta de meios que na realidade não tem e por causa de passos que não são os melhores, a União Europeia vai estar numa situação mais uma vez difícil se realmente as coisas evoluírem para isto. O impacto da subida dos preços pode até não ser tão significativo, dependendo da duração e das ramificações do conflito. Depende muito, por exemplo, se isto envolver o Irão e até, por exemplo, eventualmente ataques a petroleiros no Golfo, ou o Hezbollah também a juntar-se e fazer alastrar isto, ou as coisas serem mais contidas entre Israel e os palestinianos. Mas é sempre um ambiente de tensão geopolítica propício à subida dos preços, o que não traz nada de bom para a Europa.

Regressando à primeira questão, terão existido aqui falhas de informação e de segurança. Conhecemos o destino de Golda Meir na guerra do Yom Kippour. Netanyahu é criticado pelas falhas de segurança e, por outro lado, a sua política em relação à Cisjordânia e aos territórios ocupados vinha também a recolher críticas de extremismo no próprio governo. Como é que vê a posição de Nethanyau nestas horas muito difíceis num Estado que desde sempre sublinha que é frágil face aos seus vizinhos, que alega a necessidade de se defender e que aqui é apanhado em contrapé?

Netanyahu, até agora, tem sido um sobrevivente político, já ultrapassou muitas crises e muitas vezes foi vaticinado o seu fim na política interna israelita. Mas agora esta questão tem outro patamar e outra intensidade. Se nos recordarmos do que aconteceu a Golda Meir nos anos 70 e também ao Partido Trabalhista - que classicamente ocupava o Governo em Israel - esse foi provavelmente um golpe também nesse prestígio e que depois fez alterar a relação de forças a favor de outros partidos. No imediato há aqui um sentimento de união face a toda esta tragédia que também Israel está a sofrer, que vai pôr um parêntesis nessas tensões e rivalidades que existiam e que notoriamente eram visíveis, por exemplo, com a reforma judicial e as manifestações de rua. O facto de haver aqui partidos de direita religiosa radicais torna também muito difícil esta gestão com os palestinianos e com os próprios assuntos internos de Israel.

Tudo isto também, provavelmente, terá contribuído para o efeito surpresa e para a falha de antecipação deste ataque. Mas, para além disso, Netanyahu, mesmo agora tendo algum sucesso a repor a credibilidade na unidade de Israel nesta operação que Israel está a desencadear por bastante tempo, terá sempre um momento mais à frente de “acerto de contas” na política interna israelita.

Adivinho que ele tenha dificuldade em manter aquela preponderância que tem tido na política de Israel nos últimos anos. Claro que isso também dependerá em parte dos acontecimentos futuros e da maneira como conseguir no fundo criar novamente alguma confiança em Israel, que ficou profundamente abalada.

Israel estava com muito confiança e se calhar, isso também foi outro ponto que facilitou isto. Devido ao seu sistema de vigilância e de informações que é visto - penso que corretamente - como um dos melhores do mundo, pensou que o colocaria ao abrigo de situações desta dimensão. Isto foi algo que contrariou completamente essa perceção largamente instalada. E aí o governo de Netanyahu dificilmente poderá escapar essa responsabilidade.

Estamos numa cadeia de acontecimentos muito imprevisível, mas antecipo momentos muito difíceis e, provavelmente, depois um afastamento mais à frente de Netanyahu da política israelita. Isso parece ser provável, não no imediato, porque obviamente este é um momento de unidade e certamente haverá aqui uma coesão à volta do governo e do esforço militar. Mas, olhando para a imprensa mais à esquerda, claramente Netanyahu e o seu governo eram já criticados duramente como tendo a responsabilidade maior neste falhanço de segurança.

Saiba Mais
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+