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Entrevista Renascença

Nobel defende manipulação genética, mas traça linha vermelha com humanos

11 set, 2023 - 07:33 • Sandra Afonso

Richard J. Roberts defende que não vale tudo na manipulação genética, o trabalho sobre humanos é o limite. Mas na alimentação pode tirar milhares da fome e avançar com o combate às alterações climáticas.

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De passagem por Lisboa, o Nobel da Medicina sir Richard J. Roberts falou com a Renascença sobre organismos geneticamente modificados (OGM) e o papel que podem ter no combate à fome e às alterações climáticas, uma posição apoiada por 155 Prémios Nobel.

O investigador fala ainda da forte oposição dos ambientalistas da Greenpeace aos OGM, que acusa de “crime contra a humanidade”, da influência do dinheiro nesta campanha e da posição do Vaticano.

O prémio Nobel da Fisiologia e Medicina em 1993, juntamente com Phillip Sharp, pela divisão dos genes nas cadeias de ADN, fala ainda de linhas vermelhas. À margem das Conferências do Estoril, explicou à Renascença que não vale tudo na manipulação genética, o trabalho sobre humanos é o limite.

Este verão acusou aqueles que protestam contra o arroz dourado, geneticamente modificado, de cometerem crimes contra a humanidade. Porquê?

Porque o arroz dourado pode salvar vidas. Pode salvar a vida de crianças. Atualmente, estima-se que entre 250 mil a meio milhão de crianças morram todos os anos por deficiência de vitamina A. O arroz dourado pode ajudar a prevenir isso. Há evidências muito boas de que funciona.

Foi realizado um grande estudo na China e o Greenpeace fez de tudo para tentar desacreditar esse trabalho. A Universidade de Tufts (Massachusetts) cedeu à pressão e retirou o estudo. Está agora a ser feito um grande esforço para que seja republicado, porque estava correto e era bom.

A Greenpeace desviou-se do próprio caminho para atacar o arroz dourado da pior maneira possível. Teria sido muito fácil para eles não fazerem isso. Fizeram-no porque temiam que, se fosse aprovado, muitas outras culturas geneticamente modificadas podiam receber também aprovação para ajudar a saúde humana. Se isso não é um crime contra a humanidade, não sei o que é.

"Campanha contra arroz dourado? Se isso não é um crime contra a humanidade, não sei o que é"

Acha que isto é tudo uma questão de dinheiro?

Acho que é sobre dinheiro, é sobre política.

O que acontece com a Greenpeace é que os rendimentos deles, as doações, triplicaram desde que começaram a campanha anti-organismos geneticamente modificados.

Eles têm muito dinheiro para fazer o que deveriam fazer. Costumavam ser uma organização muito boa, eu era um dos apoiantes. Mas o que eles fizeram comigo em relação aos OGM é simplesmente terrível, é horrível. Não posso continuar a apoiá-los. Tentei falar com os líderes, eles não falam comigo.

Esta tem sido uma longa disputa. Vê algum desenvolvimento?

Sim. O que está a acontecer agora é que na Europa começamos a ver os efeitos das alterações climáticas nas culturas que cultivamos. Houve muito mais secas, as uvas da região de Champanhe [França] estão a ser cultivadas em Inglaterra. As coisas estão a mover-se para o Norte para sobreviver às alterações climáticas.

As plantas geneticamente modificadas podem fazer uma enorme diferença para ajudar a atenuar os efeitos das alterações climáticas.

As plantas normalmente usam CO2, elas sugam o ar, precisam disso. Podemos modificar as plantas, torná-las ainda mais eficientes do que são neste momento, na sucção de CO2 da atmosfera.

Porque é que acha que a Europa não apoia os OGM?

Porque o Greenpeace conseguiu muito poder político e assustou o mundo. É como quando vemos um filme de terror e ficamos com medo, mas sabemos que é apenas um filme. O Greenpeace conseguiu que os mesmos produtores contassem como os OGM eram perigosos, eles criaram o termo "comida Frankenstein". Pensaram que assustaria as pessoas e fizeram-no deliberadamente.

Eles têm dinheiro para fazer isso. Nós, como cientistas, não. Quando eu solicito uma bolsa para uma pesquisa, não posso colocar um item e dizer que preciso de um milhão de dólares para desenvolver um filme, uma publicidade, que mostre que o Greenpeace está errado.

Acredita que as pessoas comuns têm a mensagem errada sobre os OGM?

Sim, porque o Greenpeace tem sido muito eficaz. Sabe tão bem quanto eu, assim como qualquer político, que quando se assustam as pessoas e se promete salvá-las, eles são eleitos e ganham poder político. Depois é muito difícil dizer às mesmas pessoas que estão com medo que, bem, não precisavam ficar assustadas com isso.

Como reagem as pessoas quando explica o efeito dos OGM?

Fui recentemente a uma escola conversar com um grupo de crianças de 11 e 12 anos sobre OGM. Todos foram informados pelo professor que deveriam escrever-me depois sobre o que achavam de tudo isto.

Houve duas respostas interessantes. Primeiro, muitos disseram que esta foi a primeira vez que sentiram que estavam a falar com eles como se fossem adultos. Os professores obviamente não tratam essas crianças como outros adultos. Mas o melhor veio de uma menina, que disse que depois de me ouvir conversou com os pais, que eram anti-OGM, e eles mudaram de opinião.

Pode explicar também a quem nos ouve e lê, em um minuto, o que são OGM?

Se tem um carro com sistema GPS, que é apenas um pequeno dispositivo, e se deseja colocar esse sistema GPS no carro novo que acabou de comprar, basicamente desconecta e conecta novamente. Esse é o método OGM.

Extraímos um gene que queremos porque é bom, faz algo útil. Podemos retirá-lo de uma planta e conectá-lo a outra. Esse é o método OGM.

"Não devemos fazer experiências com material genético fazer até que haja metodologia apropriada e seja seguro"

Admite linhas vermelhas na manipulação genética? Qual é o limite?

Penso que as questões éticas surgem assim que se começa a falar sobre humanos. Há um homem chinês que teve problemas por tentar colocar genes em embriões, onde não tinha nada que se meter.

Mas quando o objetivo é curar doenças e sabemos o que estamos a fazer e conhecemos os efeitos, sinto-me bem com isso. Mas é preciso fazer todos os controlos apropriados. Nós cientistas fazemos controlos, experiências, descobrimos se as coisas são perigosas ou não.

Agora existe uma boa maneira de tratar a hemofilia, mas isso envolve apenas os glóbulos vermelhos e não envolve nenhum material genético. Sinceramente, não sabemos neste momento como fazer experiências com material genético, não há metodologia, não creio que o devemos fazer até que haja metodologia apropriada e seja seguro.

Já disse que os políticos não estão a ouvir os cientistas. E o Papa?

O Papa, aparentemente, pelo que o seu conselheiro me disse e falei com o Papa sobre isso, ele acredita que o método de modificação genética é aceitável. A sua preocupação é com a pobreza. Como sabe, ele vem de um ramo da Igreja Católica que se preocupa com a pobreza.

Um economista argentino disse-lhe que as grandes empresas estão a usar OGM para roubar terras dos pequenos agricultores. Não é verdade. Eu tentei falar com esse economista. Ele não fala comigo.

A terminar, qual é a maior conquista da sua carreira, até ao momento?

Alguns podem dizer que foi a descoberta que me deu o Prémio Nobel mas, na verdade, não acho que tenha sido esta a maior.

Na década de 1970 comecei a isolar enzimas de bactérias que chamamos de enzimas de restrição. Aquelas enzimas permitiram a revolução biotecnológica. Para mim, essa é a minha maior contribuição.

O que resta fazer?

Eu digo sempre aos alunos que devem estudar Biologia, porque sabemos muito pouco. Saltem a Física, porque eles sabem quase tudo. O grande problema que os físicos têm para resolver, e que ainda não resolveram, é como abrandar o tempo para termos mais.

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