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Falta de automóveis. Compra de carro novo pode demorar mais de um ano

06 out, 2021 - 06:45 • João Carlos Malta

Escassez de chips e semicondutores levou fábricas a parar produção de muitos modelos. Falta de viaturas novas está a inflacionar o preço dos carros em segunda mão. Há relatos de carros usados a custar mais do que os novos.

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Há clientes em Portugal que estão a esperar mais de um ano para conseguir comprar carro novo. A paragem de várias fábricas de construção de automóveis a nível mundial está já afetar o normal funcionamento do mercado nacional.

Uma outra consequência deste fenómeno é no mercado de usados, onde há também escassez de viaturas pelo aumento da procura. A tendência é explicada com a falta de produto novo e de os grandes compradores empresariais de frotas ou as rent-a-car reterem os carros de serviço por não terem viaturas em primeira mão para comprar.

Por isso, neste momento, quem quer vender um carro usado ganhará mais dinheiro, mas quem comprar também vai gastar mais dinheiro. Há mesmo carros usados a custar mais do que o mesmo modelo novo.

Num caso relatado à Renascença, um Peugeot 107, que novo custaria 11.700 euros, estava a venda usado no site de vendas “Standvirtual” por mais três mil euros.

As peças que faltam

O secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal (ACAP), Hélder Barata Pedro, confirma que há uma falta cada vez maior de carros novos no mercado nacional, que diz ser consequência da crise mundial de produção de chips e de semicondutores que, entre outras, tem levado a paragens de produção também em Portugal, na Autoeuropa.

“Está a ter um impacto muito negativo, em Portugal e nos outros países. Há uma longa lista de espera, e os clientes não percebem a situação que cria grandes constrangimento”, avança Barata Pedro.

O gerente do stand Megastore, na Amadora, Carlos Maciel afirma à Renascença que esta é uma situação que se tem agravado de semana para semana, e que além dos novos, também em relação aos seminovos e aos usados há cada vez menos carros no mercado.

“É nos modelos que se vendem mais [do segmento mais baixo], que houve rotura de stock mais depressa. Os Clio, os C3, por exemplo, não há para entrega”, assegura.

Carlos Maciel diz que está de mãos e pés atados porque não consegue comprar carros novos, uma vez que “as marcas não conseguem fazer descontos, e isso faz com que o negócio não seja interessante para nós”.

Pequeno e médio retalho em luta pela sobrevivência

Já o presidente da Associação Nacional das Empresas do Comércio e da Reparação Automóvel (ANECRA), Alexandre Ferreira, encontra outras explicações para o momento que o mercado está a viver.

“A primeira questão tem a ver com as compra efetuadas pelas rent-a-car e gestoras de frotas que não acumularam stocks durante o período habitual em função da crise”, explica.

A falta de viaturas novas, explica Alexandre Ferreira, levou à aquisição de veículos seminovos ou usados “de uma forma que nos surpreendeu em termos de mercado”.

O mesmo dirigente associativo considera que a falta de stock se tornou previsível há dois meses. “Nos usados isso está a criar sérios problemas para os comerciantes de pequena e até de média dimensão. Os comerciantes de micro e pequena dimensão têm muita dificuldade em aceder ao produto mais apetecível”, avalia.

O presidente da ANECRA considera que este é um fenómeno para o qual não se vê fim à vista, porque a operação logística demorará tempo a ser retomada.

Alexandre Ferreira reconhece que há atrasos nas entregas de novos automóveis, mas diz que o problema não é transversal. Apesar de não querer falar de aumento dos preços nos usados, reconhece que há uma subida.

Carlos Maciel, gerente da Megastore, fala mesmo de uma situação inusitada para aquilo que é a realidade normal de desvalorização dos automóveis após a compra.

“Na semana passada tive uma experiência dessas, uma viatura do ano passado, que está anunciada a mais três mil euros do que ela custa nova. Era um Peugeot 107”, avança.

O mesmo vendedor acrescenta ainda que o mesmo carro usado vale hoje “mais dois mil euros do que em janeiro”.

Brasil igual

Portugal não é caso único. No Brasil, por exemplo, a Exame escreve que passou a ser comum “um carro usado custar mais do que um zero quilómetros”.

A revista sublinha ainda que vender um carro usado com um ano por um preço melhor do que aquele pago na compra “é algo inédito num momento de estabilidade económica”.

“Só vi isso na época da hiperinflação”, afirma Eduardo Jurcevic, presidente da Webmotors, maior plataforma de compra e venda de carros do País.

Os modelos de grande procura naquele país, como Volkswagen T-Cross e Gol, num ano valorizaram 27% e 24%, respetivamente, conforme dados da KBB Brasil, empresa especializada em pesquisa de preços de veículos.

Num outro stand de venda de carros usados da Grande Lisboa, o diretor-financeiro daquela unidade − que pediu para não ser identificado − diz que os usados estão a ter uma valorização entre os “5% e os 10%” em relação ao mesmo período do ano passado.

Este profissional do setor, que vende somente carros usados, afiança que no stand em que trabalha têm surgido “alguns clientes que queriam comprar um carro novo, e que vão às marcas, e têm um ano e meio dois anos de fila de espera. Acabam por comprar um usado porque precisam do carro com alguma urgência”.

Carros começam a não desvalorizar

O mesmo conta que “já tivemos clientes de Range Rover que querem comprar um carro de 100 mil euros e têm um ano e meio ou dois anos de fila de espera, como já o tivemos para um Peugeot ou um Citröen”.

A mesma fonte conta ainda que a subida no mercado de usados por falta de unidades para venda é uma realidade. E dá um exemplo: “A grande maioria dos carros que compramos são importados e mesmo no estrangeiro está mais caro. Já comprámos um carro, um modelo que já tínhamos adquirido há dois ou três anos, e fomos ver lá fora se conseguíamos arranjar e se fossemos comprar ficava ao mesmo preço de há dois ou três anos”, avança.

E segue pormenorizando: “Um carro de 2016, compramo-lo em 2018, e hoje o mesmo modelo de 2016 está ao mesmo preço. É suposto os carros baixarem consoante os anos passam”.

A procura de carros usados podia ser boa para o negócio de um stand que se dedica àquele segmento, mas neste caso este diretor-financeiro diz que há falta de produto a preço competitivo.

O mesmo frisa que que, se a falta de oferta das marcas nos automóveis novos se mantiver, “não me surpreende que um carro usado com poucos quilómetros não possa valer mais do que um carro novo”.

No entanto, afirma, que não é crível que uma viatura com “40 ou 50 mil seja vendida mais caro do que um novo”.

No entanto, evidencia que este movimento faz com que “carros de poucos quilómetros passem a ser vistos mais ou menos como novos”.

“Uma pessoa se vir um carro novo de 30 mil euros, mas que tem dois anos de fila de espera, se calhar prefere pagar 32 ou 33 mil euros por um carro com 5 ou 6 mil quilómetros”, remata.

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