45 anos do 25 de Abril

"Cada geração tem que fazer as suas revoluções"

25 abr, 2019 - 02:42 • Redação

O primeiro-ministro e o Presidente da República estiveram na emissão especial da Renascença e lembraram como o jornalismo lhes esteve presente (direta ou indiretamente) no 25 de Abril. Mas de mais, e com mais convidados, jornalistas, comentadores e humoristas, se fez esta longa conversa sobre os dias de Abril e o que estes nos deixaram de memória e de futuro.
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Falar de Abril, da revolução de Abril, é também falar da rádio, que foi antena para as senhas que colocaram a liberdade em marcha, falar de Abril é falar do jornalismo que nos haveria de informar primeiro de como se marchava (militares, tanques e Portugal) rumo à libertação naquela dia “inicial inteiro e limpo”, citando o verso de Sophia de Mello Breyner, falar de Abril é lembrar que sem ele, sem Abril, não falaríamos como hoje falamos, livres, nem habitaríamos, voltando a Sophia, “a substância do tempo”.

De tudo isto se falou, entre a memória daquele tempo e o tempo que há-de vir e ser memória um dia, na emissão especial, a partir de São Bento, que a Renascença dedicou à revolução. O anfitrião foi quem no palacete vive hoje, o primeiro-ministro António Costa. Ele, António Costa, que era criança aquando da revolução e, portanto, não a viveria como outros viveram nas ruas mas, graceja, “enclausurado”.

“Eu tinha 13 anos. E de 24 para 25 de abril, à noite, estava a dormir. Até que a minha mãe [Maria Antónia Palla], que era jornalista, me acordou. Tinha sido chamada d’O Século. Ela tinha que ir trabalhar, tinha que ir para a rua. E nesse dia em que as pessoas foram libertadas, eu fui ‘enclausurado’, em casa de uma amiga dela, a Olga. Não fui para a rua, não; fui para a Rua… do Jasmim, para casa da Olga. E foi lá que estive todo o dia, a tentar saber notícias, que se iam sabendo pela rádio, a pouco e pouco. Saí no dia 26. Já era impossível manter-nos em casa. Então, fui com o José Rolim, que era um homem que tinha estado preso muitos anos, que tinha sofrido muito na prisão, fui com ele e com os enteados dele para o Chiado”, recorda.

A recordação de António Costa é interrompida pelo telefonema de Marcelo Rebelo de Sousa. E se é verdade que Costa era filho de uma jornalista, o Presidente da República era, ele mesmo, à época, jornalista, no Expresso. Viveu a revolução a trabalhar, portanto.

“No dia 24 interrompi o trabalho para ir ver futebol a casa de um amigo, no Restelo, e voltei para o Expresso, aí pela meia-noite e meia, para continuar a trabalhar. E fiquei a trabalhar até às cinco da manhã. Porque era preciso rever provas, retirar provas, mudar títulos, mudar fotografias, era um horror – o Expresso estava sob perseguição [da censura] naquela altura. Quando saí do Expresso, sei lá, às seis da manhã ou assim, vi um movimento esquisito, que me parecia em direção ao Rádio Clube Português. Eu vivia no Monte do Estoril, fui num instante tomar um duche a casa, e nessa altura comecei a fazer telefonemas...”

Então, Marcelo, o jornalista Marcelo, percebeu que a revolução havia começado para não mais ser travada. Recorda que ligaria ao pai, Baltasar Rebelo de Sousa, à época ministro do Ultramar, “que tinha saído não sei bem para onde, a minha mãe não sabia bem para onde”. “Fiz chegar ao meu pai a ideia de que realmente a revolução tinha triunfado. Ele estava no antigo ministério do Ultramar, no Restelo. E tanto quanto me recordo, ele terá dito ao Marcello Caetano, que estava no Largo do Carmo e não sabia o que se passava, que achava que a revolução tinha triunfado. O Marcello Caetano era muito teimoso. E ainda ficou irritado com o meu pai.”

Costa interrompe-o. E graceja, numa referência a algo que Marcelo lhe havia chamado em tempos. “Oh senhor Presidente, não resisto: é que pelos vistos o Marcello Caetano achava-o irritantemente otimista.” Marcelo devolve o gracejo. “Não, não. Irritantemente pessimista! Pessimista na ótica dele; otimista na minha ótica. É a diferença entre ter 25 anos ou 70. Os irritantemente otimistas vão até aos 57, 58…”, atira a Costa, que tem precisamente 57 anos. E o primeiro-ministro ri-se.

Antes mesmo de desligar, Marcelo lembraria que “não há jornalismo livre se o jornalismo não estiver numa situação económica e financeira estável”. “E é muito difícil num clima de precariedade fazer um jornalismo livre e forte”, conclui.

O primeiro-ministro alinha pelo mesmo diapasão, de que “não há liberdade sem imprensa livre”. “Acho que hoje o jornalismo é mais importante do que nunca. Porque a verdade é que hoje, com estas novas redes sociais, qualquer pessoa pode produzir informação. Mas também pode produzir desinformação. Se me preocupa? Acho que obviamente é um fator de preocupação. Mas é também um fator de enorme valorização do jornalismo enquanto profissão. O risco é se o jornalismo não perceber que tem aqui uma grande oportunidade de se valorizar, fazendo um tratamento profissional, rigoroso e sério daquilo que é informação, se tem a tentação de simplesmente reproduzir as ‘fake news’ que as redes sociais reproduzem. Os jornalistas têm que escolher qual o caminho que pretendem seguir. A minha convicção é que se se limitarem a reproduzir as ‘fake news’ das redes sociais, matarão o jornalismo.”

Filho de Maria António Palla, as redações, particularmente a d’O Século, eram para ele, Costa, lugares que conhecia bem. Tinha um encanto, e confessou-o, pela fotografia e os laboratórios de fotografia. Foi lá que conheceu Alfredo Cunha, fotojornalista e outro dos convidados da emissão da Renascença. “Ele [Alfredo] e o Eduardo Gageiro tinham uma paciência infinita para me aturar lá no laboratório”, lembrou o primeiro-ministro.

Tendo Alfredo Cunha, indispensável era pergunta-lhe, de entre as tantas fotografias que fez da revolução, qual será a que tem por preferida. E a quem tem, o icónio retrato de Salgueiro Maia, tem uma história (hoje conta-a entre risos; então, em 1974, não o terá feito) por detrás. E conta-a assim: “Esta minha fotografia preferida é uma fotografia que foi rejeitada no dia 25 de Abril, um retrato do capitão Salgueiro Maia que fiz juntamente com a mãe do primeiro-ministro, que estava comigo. Eu cheguei atrasado a uma conferência de imprensa que o Salgueiro Maia deu, porque tinha estado a almoçar com a Maria Antónia Palla. E quando lá cheguei, estava o Salgueiro Maia sozinho, a olhar. E a Maria Antónia diz-me: ‘Epá, fotografa o homem!’ Cheguei ao jornal e o Mário Zambujal, furioso, rejeitou a fotografia. Essa fotografia esteve desaparecida durante 20 anos e foi o Vicente Jorge Silva, no Público, que a recuperou”, explica.

Outros dos jornalistas que se juntou à conversa foi Carlos Albino, ele que foi responsável pela emissão da canção, através do programa “Limite”, da Renascença, que esteve na origem das operações militares que derrubariam o regime de Caetano. Mas a canção, essa senha de Abril, não seria, inicialmente, a histórica “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso mas, sim, outra canção de Zeca: “Venham Mais Cinco”. “Só que essa música estava interditada [pela censura]. E o programa 'Limite' tinha censura. Sugeri que podia ser a ‘Grândola’, porque nós várias vezes emitidos a ‘Grândola’ e os censores não lhe tocavam. Foi aceite”, recorda hoje.

E recorda também que aceitar passar a senha foi “o ato mais infantil” da sua vida. Porquê? “Porque, sem pensar nas coisas, disse: ‘Eu garanto que passa’. O problema foi executar. Porque a Renascença estava ao lado do Governo Civil, onde estavam concentradas as tropas de choque – que eram a elite da repressão. Era contígua às instalações da PIDE. E tínhamos um censor – um coronel, ainda para mais. Fui infantil porque podia ter falhado”, explica.

Luís Filipe Costa, o chefe de redação do Rádio Clube Português que então, em 1974, leu os comunicados das Forças Armadas, aproveita a conversa para “fazer uma coisa que ninguém fez”. “Estavam seis ou sete profissionais da rádio metidos nisto, num tempo em que fazer ‘ai’ era uma demonstração de coragem. E estes seis ou sete indivíduos sabiam que naquele dia ia acontecer uma revolução, que seria inevitavelmente defendida pela PIDE, e não falaram. É uma homenagem que nunca foi prestada a estes homens.”

Entre a conversa com os três jornalistas e a seguinte, com dois dos comentadores da Renascença, João Taborda da Gama e Jacinto Lucas Pires, tocaria Marta Pereira da Costa, à guitarra portuguesa, a canção “Verdes Anos” de Carlos Paredes, uma “canção emblemática que ninguém poderá nunca tocar como ele”, Paredes.

João é filho de Jaime Gama. Jacinto, de Francisco Lucas Pires. À pergunta como lhe foi contada a revolução, porque só nasceu em 1977 e não a viveu de perto, João Taborda da Gama responde: “Não penso que tenha sido contada uma história. O 25 de Abril era quase um ‘sítio’; ir ao 25 de Abril é das primeiras memórias que eu tenho. O meu pai ia ao 25 de Abril. Fui percebendo a história, que é uma história simples de contar. Mas depois há todas as nuances do antes e do depois. E isso só se vai apreendendo ao longo do tempo. É fácil dizer que havia uns ‘maus’ que prendiam as pessoas, que matavam as pessoas na guerra. Mas é difícil explicar porque é que sempre que há uma revolução, há tanta gente que esteve tanto tempo calada – o medo é o grande inimigo da democracia, o medo e o conformismo. Explicar isso, e explicar porque é que foi nesse dia e não foi cinco anos antes, se já existia a guerra, porque é que os golpes anteriores não resultaram, explicar que mesmo quando uma revolução triunfa há pessoas que ficam indiferentes, à espera de ver o que é que acontece, é difícil.”

Jacinto Lucas Pires nasceu poucos meses depois da revolução, em julho. “Várias histórias me contaram à volta do 25 de Abril. Mas tenha ideia que uma revolução, filosoficamente, é o gesto do filho, não é o gesto do pai. Um filho que se revolta, que quer mudar as coisas. Aqui somos todos irmãos, em democracia somos todos irmãos. Era muito nesse espírito que as histórias lá em minha – do 25 de Abril, de antes e da democracia – eram contadas. O 25 de Abril não é aquele dia. O dia é essencial. Mas o 25 de Abril é agora, este lugar de todos os dias. Há pessoas que como eu não viveram esse dia e continuamos a tentar recuperar esse espanto”, lembra.

A terminar a emissão, a Joana Marques, Nilton e Nuno Markl, todos humoristas, todos humoristas em rádio, perguntou-se se o humor tinha uma carga política. António Costa garantia que sim. “A política tem alimentado secularmente o humor.” Mas, afinal, tem ou não? “Há políticos a vir para o humor – e o Trump é um bom exemplo”, atira Nilton, interrompendo-o Markl: “Não me sinto a fazer política de maneira nenhuma. A coisa mais próxima que estive disso foi ser administrador do condomínio e desisti passado um dia, imediatamente deleguei no vizinho de baixo.”

Nilton devolve: “Acho que é impossível ter tantos ouvintes e, de certa maneira, não os influenciar com a nossa opinião.” Algo com que Joana Marques está de acordo. “Acho que a nossa opinião não deve ser o principal, não estou ali com uma agenda, mas se formos um humorista muito neutro as pessoas perdem o interesse. É normal que a nossa opinião esteja lá. Mas tanto posso numa semana fazer uma análise ao podcast da Assunção Cristas como posso fazer ao ataque de aviões de papel ao primeiro-ministro.” António Costa sorri. “Um avião de papel ainda é coisa para vazar uma vista”, assegura Markl.

A emissão terminaria com Márcia a interpretar “A Presença das Formigas”, de Zeca Afonso, uma canção “não óbvia”, tocada sem guitarra mas com um arranjo de vozes, “porque sou livre para o fazer”, explica a cantora.

Depois, ao primeiro-ministro foi entregue a palavra final. E António Costa lembraria que ainda há revoluções por fazer. Outras revoluções. “Cada geração tem que fazer as suas. Mas espero que as próximas gerações não tenham que viver a revolução que eu vivi. Temas para fazer a revolução não hão-de faltar. Vemos pessoas a morrer no Mediterrâneo porque se recusam a morrer à fome, a viver em ditaduras, anseiam partilhar da prosperidade. Espero as revoluções que não impliquem por tanques na rua e pegar em armas. Espero que democracia seja suficiente para fazer essas revoluções.”

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