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“Viste? O que foi isto?” Foi assim que Cristiano convenceu Aurélio Pereira com apenas 12 anos

05 fev, 2024 - 11:55 • Hugo Tavares da Silva

Em dia de 39.º aniversário de Cristiano Ronaldo, a Bola Branca agarra-se ao livro "Ver para crer" de Aurélio Pereira com Rui Miguel Tovar e conta a história da transferência do madeirense para Alvalade

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Era um diabrete com a bola e apenas ruas e ruelas, esquinas e carcaças que escondiam privacidades alheias sabiam-no. E os outros miúdos, os alvos das travessuras místicas. De vez em quando, Cristiano lá se enfiava numa farda do Nacional da Madeira e deliciava a canalha e os pais da canalha. Era só um miúdo com jeito para a bola. Mas Marques Freitas, o presidente do núcleo sportinguista da Madeira e ex-dirigente e sócio do clube madeirense, viu ali uma oportunidade para todos.

O conto de fadas que hoje conhecemos começou com uma dívida de 4500 contos do Nacional ao Sporting (e ao Odivelas, por direitos de formação de um jovem jogador chamado Franco). Estávamos em 1997 e o Benfica já tinha levado uma nega de Dolores, a mãe sportinguista da futura lenda. Marques Freitas ligou a Aurélio Pereira, o mago dos magos quanto a questões dos olhares e do jogo, porque havia por lá um “miúdo muito bom”. A ideia era acertar as contas. Aurélio não viu aquela história com um desfecho interessante, mas, por respeito ao homem que lhe ligou, lá deu o OK. A história está contada no livro “Ver para crer” de Aurélio Pereira com Rui Miguel Tovar, onde estão eternizadas inúmeras e maravilhosas histórias sobre os craques encontrados pelo descobridor de talentos.

“O doutor manda-me o miúdo e paga as viagens”, decretou Aurélio, que até faltou ao primeiro treino do jovem madeirense, orientado por Paulo Cardoso e Osvaldo Silva. “Viste? O que foi isto”?, disse Cardoso para Silva a certa altura. Cristiano fintou uns quantos adversários, alguns mais velhos. A nota para Aurélio Pereira destacava a “velocidade”, os “dribles” e a “coordenação”.

No segundo treino de Cristiano o responsável pelo departamento do futebol juvenil leonino esteve presente. “Confirmei tudo o que me tinham dito: desenvoltura fantástica, velocidade de execução, jogo aéreo, pé direito, pé esquerdo. Tive a sensação de que estavam todos rendidos ao miúdo”, pode ler-se no livro acima mencionado.Aurélio disse que Cristiano chegou ao Sporting “como um óvvi”. Era, no fundo, um “fenómeno”, porque na altura chegavam ali com 14 ou 15 anos e o miúdo do Funchal tinha apenas 12. Esta segunda-feira, dia 5 de fevereiro, celebra 39 anos (veja aqui os recordes que Cristiano pode atingir em ano de Euro 2024).


Ainda no treino de testes, no segundo de Cristiano e primeiro para Aurélio, quando um jogador mais velho apertou a malha e a marcação, o atrevido madeirense reagiu: “Ó miúdo, tem lá calma”. Aurélio, nas páginas do livro, celebra esse atrevimento. “Chamava-se Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro e tinha, todo ele, o futebol de rua nos seus movimentos. O à-vontade e o não ter medo de nada, características imprescindíveis para ir longe, muito longe.”

"Joga umas coisas, joga umas coisas..."

Os faxes entre Sporting e Nacional começaram a ser trocados dia 3 de julho de 1997. Nos entretantos, a administração e os cartolas responsáveis pelo dinheiro questionaram Aurélio por uma verba tão avultada por um garoto. O vaivém de papelada desaguou em bom porto e o pequenote lá se mudou para Lisboa, sem a família que te tanta falta acabou por lhe fazer, para a época 1997-98.

Na bíblia das memórias de Aurélio Pereira o protagonista conta ainda que Cristiano “era tão bom” que, quando se metia a dar toques debaixo de uma bancada do pavilhão, os seniores iam vê-lo. A assinatura do contrato deu-se apenas a 7 de junho de 1997. Escreve Rui Miguel Tovar que, depois do ansioso menino dos olhos que brilhavam assinar pelo Sporting, Aurélio e os pais de Cristiano beberam uma poncha.

Hoje é fácil e parece óbvia a decisão de Aurélio Pereira, com o trajeto mítico pela seleção, Real Madrid e Manchester United, mas pagar 25 mil euros, mesmo que por um rapazinho com alma de futebolista de outros tempos, era sempre um risco e difícil de explicar.

Em 2003, Aurélio tropeçou no tal senhor das finanças do clube que o questionou pela operação. Foi no dia do Sporting-Manchester United, para a inauguração do novo estádio dos leões. Cristiano, já se sabe, torceu os rins de uns quantos red devils, não fosse ele o maior dos diabretes em campo, e encantou Alex Ferguson e companhia, a ponto de o levarem pouco depois para o Old Trafford.

“Então, o miúdo?”, perguntou Aurélio Pereira a Simões de Almeida. O visado riu-se. “Joga umas coisas, joga umas coisas…”


Oiça aqui o "Jogo de Palavra", o programa de entrevistas de Rui Miguel Tovar na Renascença, com Aurélio Pereira

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