Modalidades

Para onde vai o futebol de praia? Uma casa "começada pelo telhado” em que “campeões do mundo não são ricos"

16 fev, 2024 - 09:30 • João Filipe Cruz

Madjer, Rui Coimbra e Carlos Fernandes explicam como esta variante do futebol poderá voltar a ser um fenómeno popular. Portugal estreia-se esta sexta-feira no Mundial, no Dubai, contra o México (13h).

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Não é difícil perceber de onde vem o interesse pelo futebol de praia num país onde o futebol é rei e a praia rainha. Já passaram os anos desde a era dourada dos Mundialitos e, por esta altura, a modalidade parece querer revitalizar-se.

Com o arranque do Campeonato do Mundo no Dubai, Bola Branca tenta aferir o estado da arte do futebol de praia português com a ajuda de um dos melhores de sempre, alguém que falhou este Mundial por lesão e um guarda-redes que trocou o relvado e as chuteiras pela areia e o pé descalço.

O Mundial e a atenção que atrai pode ajudar a reacender um interesse eventualmente diluído pelo tempo e a ideia de que será decisivo para que isso aconteça não é descabida e, muito menos, exclusiva de um punhado de intervenientes.

O interesse que “caiu” desde os Mundialitos e a modalidade construída “a partir do telhado”

Passam quase 30 anos desde o nascimento de uma das competições mais míticas do futebol de praia. Em 1994, na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, nasceu o Mundialito. Apesar da pureza do berço, não teve continuidade, a prova desapareceu e reapareceu três anos mais tarde na Praia da Claridade, na Figueira da Foz, que abrigou o Mundialito de forma ininterrupta até 2004.

“O que acontecia nos Mundialitos era fantástico. A adesão do público, quer pela televisão, quer pelos estádios, muito dificilmente aconteceria noutro país”. A memória é de Rui Coimbra, internacional português que, devido a uma lesão, ficou impossibilitado de seguir viagem para o Dubai e participar no sétimo Campeonato do Mundo de quinas ao peito.

Em entrevista a Bola Branca, o fixo que por cá representa os nazarenos do Sótão, vice-campeões nacionais, tem a perceção de que “de forma geral, o futebol de praia está a crescer em Portugal”, ainda que reconheça que ainda é visto como “uma modalidade sazonal”.

O saudosismo é também partilhado por Carlos Fernandes, antigo guarda-redes do Boavista e Rio Ave, que vestiu a camisola da seleção de Angola e trocou a relva pela areia. “O interesse caiu um bocadinho desde a época dos Mundialitos. Devíamos voltar a apostar mais no futebol de praia”, assume o guardião que hoje representa o Estoril Praia no Campeonato de Elite.


Apesar de jogar por “diversão” e “só no verão”, o semiprofissional Carlos Fernandes torce, tal como o campeão do mundo Rui Coimbra, pelo desenvolvimento da modalidade, ainda que não pertença ao grupo dos mais otimistas. “Todos os anos temos esperança que a federação faça algo diferente e acaba por não acontecer”, assume em declarações a Bola Branca.

O problema não é de agora e nasce logo à chegada da bola ao areal português. “A modalidade começou a ser construída pelo telhado”, considera Coimbra. “Primeiro, apareceu a seleção e depois os clubes. A atenção do público estava só virada para a seleção e para os Mundialitos que aconteciam em Portugal”, explica o vice-campeão nacional pelo Sótão.

Rui Coimbra conta no currículo com passagens por Sporting e Belenenses, duas equipas que já extinguiram o futebol de praia do portfólio. O fixo sublinha que “não é hipócrita” e assume que seria importante contar com os “ditos grandes” do futebol de relva numa liga em que, das equipas mais mediáticas, já só conta com o Sporting de Braga, atual campeão nacional.

A ajuda que Sporting, Benfica ou FC Porto dariam se jogassem na areia é inegável até para Madjer. Ainda assim, o três vezes campeão do Mundo e considerado o melhor do mundo em duas ocasiões, considera que “mais vale ter projetos de menor dimensão em termos de nome, mas estruturados, que estes, em que todos os anos ouvimos falar que podem acabar”.

O agora coordenador-geral da Federação Portuguesa de Futebol dá até o exemplo do futsal, “que tem o Benfica, Sporting e Sporting de Braga, mas depois tem outros com bases consolidadas na modalidade e não têm sequer vertente de futebol ou futebol de praia”.

A “sazonalidade” e o “campeonatozito” que dura quase seis meses

O futebol de praia, como o nome sugere, só pode ser praticado com o aproximar e vigência da época balnear. Por sorte, ou não, este país tem sol, calor e um céu desprovido de nuvens durante grande parte do ano e, na temporada passada, o campeonato jogou-se de abril a setembro.

E quando o sol desaparece? O que fazem os jogadores de futebol de praia?

Carlos Fernandes e Rui Coimbra estão ambos sem competir nesta altura. Carlos faz “ginásio sozinho, tal como os colegas de equipa” e Rui está ainda concentrado em recuperar totalmente da lesão que o afastou pelo segundo Mundial consecutivo.

Há a hipótese de os jogadores acompanharem o clima para continuarem a competir, uma hipótese reservada apenas para os atletas profissionais, cerca de 10% dos que atualmente militam no campeonato português.

Rui Coimbra e Madjer vestiram camisolas de equipas estrangeiras enquanto a liga doméstica parava e uma das hipóteses era precisamente o local onde decorre o Campeonato do Mundo.

“Há o exemplo do Dubai, que, durante muitos anos, teve jogadores portugueses a passar lá o inverno. Fazíamos a nossa época desportiva de verão na Europa e em outubro íamos para lá e voltávamos em abril”, partilha Rui Coimbra.

Ainda assim, Madjer assegura que a modalidade é “cada vez menos sazonal” até para os atletas. “Temos de desmistificar um pouco a questão da sazonalidade. Já houve dias de verão que mais parecem de inverno. Lembro-me de uma jornada na época passada que, em Cascais, chovia, estava frio e não foi por isso que deixamos de jogar”, lembra o antigo ala.

Para Carlos Fernandes o problema é mais profundo do que parece. “Falta profissionalização e vontade. Acho que ainda vai chegar a esse patamar. É cíclico. Agora fala-se na profissionalização do futebol feminino, que esteve tão difícil e hoje está onde está. Também vai chegar a altura do futebol de praia”.

Madjer assegura que a FPF tem olhado para a modalidade e dá até o exemplo da vertente feminina que “está a dar cartas e foi criada há três anos”, mas reconhece que a perceção do público pode não estar a acompanhar o trabalho feito.

“Não posso esconder que, às vezes, recebo mensagens de pessoas que demonstram tristeza por ver nomes que fizeram parte da história do futebol de praia, como eu, o Alan, o Hernâni e tantos outros por abandonarem. Mas é a lei da vida. Há ciclos que acabam, outros que começam e espero que surjam muitos mais jogadores que alimentem a nossa seleção”, perspetiva o agora coordenador-geral da federação.

Uma das soluções pode passar por imitar o atual campeão do Mundo. Rússia e futebol de praia parecem não casar, mas a verdade é que aquele país já atingiu o topo do pódio do Mundial em três ocasiões e a origem está nas condições que criou para que acontecesse.

“Pavilhões seriam uma solução interessante para podermos prolongar a prática do futebol de praia, como a Rússia fez. Investiu na modalidade, construiu pavilhões e, a partir daí, criou as bases e foi crescendo”, destaca Rui Coimbra.

“O futebol de praia anda no limiar da sobrevivência”

Na época passada havia 1.597 jogadores de futebol praia federados na FPF (poucos no universo de mais de 217 mil atletas federados na federação). Ainda assim, em dez anos o número triplicou, já que, de acordo com os dados disponibilizados pela federação, em 2014 o número ficava pelos 391, que subiram para 561 no ano seguinte, quando a seleção se sagrou campeã do mundo.

Os números acompanham o interesse dos mais jovens e há, de acordo com Madjer, cada vez mais que procuram exclusivamente o futebol de praia. “Quem me dera que tivéssemos tantos jovens a praticar na altura em que andava lá, a base de recrutamento era muito menor. É um motivo de orgulho para a FPF”.

No campeonato masculino há, no entanto, poucos jogadores profissionais, cerca de 10%, de acordo com a estimativa de Rui Coimbra, e que têm necessidade de ter outro emprego, que sustente o sonho e o gosto pela bola na areia.

“Muitos têm de ter outra profissão e não é fácil conciliar. Muitos dos meus colegas e adversários têm de ter muita ajuda das empresas e patrões, que sabem que eles gostam de futebol de praia e fazem um esforço para que os atletas possam competir e faltar muitos dias ao trabalho”, confessa o bicampeão do mundo.

Em conversa com Bola Branca, Carlos Fernandes faz questão de frisar que entrou na modalidade apenas por gosto, para continuar a jogar futebol e porque “os guarda-redes podem chutar à baliza”, mas confessa que “os ordenados não estão sequer perto dos do futebol” tradicional.

Rui Coimbra vai mais longe e entende que “o futebol de praia anda no limiar da sobrevivência”. Afinal, “é uma das únicas modalidades onde somos campeões do mundo e não ficamos ricos. Temos de procurar algo a curto a prazo para poder ter uma fonte de rendimento”, admite.

Há caminho para trilhar e o Mundial pode ajudar

“Continuo a sentir o público ao lado do futebol de praia e cada vez mais. Temos criado as condições para a prática da modalidade em Portugal”, garante Madjer.

A visão do coordenador-geral da FPF para o futebol de praia é acompanhada por Rui Coimbra, que também entende que a federação “tem feito um trabalho excelente para desenvolver a modalidade”.

A relação entre Portugal, a bola e a areia dificilmente desaparecerá e com ela o futebol de praia, ainda que quem pratica ou praticou admita que há espaço para o crescimento. Carlos Fernandes apela à iniciativa dos clubes, que “não investem na modalidade”. Ou seja, “temos várias equipas sem campo próprio, como o Estrela ou o Estoril, que usa o campo do Madjer”.

Contudo, a confiança no futuro é tão ou mais forte que a confiança que há em torno da participação da seleção portuguesa no Mundial do Dubai. E as duas podem estar intimamente ligadas.

“Cada vez que existe sucesso no desporto, há um empurrão na modalidade. Estamos no Campeonato do Mundo para lutar pelo título e sabemos que pode empurrar, mais uma vez, a modalidade”, projeta Madjer.

Rui Coimbra e Carlos Fernandes também torcem, obviamente, pela seleção, com a esperança que a conquista do quarto título de campeão do mundo possa trazer de volta os tempos dos Mundialitos e que esses perdurem de vez.

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