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Entrevista a Paulo Alves

"Na II Liga o trabalho acaba por bater o talento quando o talento não quer trabalhar"

30 jun, 2022 - 12:10 • Sílvio Vieira

Em entrevista à Renascença, nas primeiras declarações como treinador do Moreirense, Paulo Alves deixa alerta ao plantel para as dificuldades de um campeonato muito competitivo, como é a II Liga. O clube, sublinha, tem condições ao nível dos grandes e espera um retorno da equipa que vai procurar devolver o Moreirense à liga principal.

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Paulo Alves é o novo treinador Moreirense, após a despromoção do clube à II Liga, e, em entrevista à Renascença, fala de "um desafio aliciante", mas que vai exigir de todos dedicação absoluta.

O Moreirense é apontado como candidato à subida, mas determinante, sublinha Paulo Alves, é que jogadores, adeptos, dirigentes encarem a missão que têm pela frente com a noção das dificuldades.

"Na II Liga o trabalho acaba por bater o talento quando o talento não quer trabalhar", alerta, explicando que o plantel, ainda em construção, terá de ser solidário, ter capacidade de sofrimento e competitivo.

Nas primeiras declarações públicas como técnico do Moreirense, Paulo Alves destaca as condições que encontrou no clube, que "estão ao nível dos grandes".

Com 270 jogos na II Liga, um título conquistado em 2011, pelo Gil Vicente, Paulo Alves está de volta ao ativo, depois de ter deixado o Varzim em 2020/21. Assume um clube que teve três treinadores na época passada, com uma convicção firme: "Vou ficar até ao fim".

Como encara este novo desafio, no Moreirense?

Esta é uma oportunidade boa. É, de facto, algo de muito aliciante, um clube importante no panorama do futebol nacional. É um clube que tem um passado de recente de I Liga.

Teve este contratempo de cair de divisão e é fundamental que toda a gente direcione todos os esforços, tudo aquilo que são as dificuldades da II Liga, toda a gente deve ter noção delas e estar preparado elas.

O Moreirense desceu e, à partida, é apontado como candidato à subida. Que responsabilidade tem a equipa e que mensagem tem de passar ao plantel sobre esta pressão?

Antes de mais, devo dizer que o presidente não me pediu, nem me pressionou com a subida de divisão. Agora, é evidente que a minha forma de estar e ser é ambiciosa. E obviamente que tudo farei para que o Moreirense tenha uma equipa séria, responsável, solidária e que tenha a noção daquilo que se vai encontrar na II Liga.

Não é melhor, nem pior, do que a Primeira. Tem algumas características e pressupostos que a tornam muito competitiva, muito difícil. Vamos exigir seriedade e responsabilidade a todos, na forma como a encaram.

Não estando pressionados com nada, também não vamos fugir àquilo que é a responsabilidade de um clube que tem a implementação que tem no futebol nacional.

Todos os que fizerem parte do grupo vão ter de ter essa noção. Terão de estar preparados para dificuldades, no sentido de formarmos uma equipa extremamente competitiva e solidária, a lutar em cada jogo pela vitória. Não podemos fugir a isso.

No fim do mercado, quando fecharmos o grupo, a equipa terá de ter essa ideia de solidez, consistência e, sobretudo, que possa ser regular.

A última vez que assumiu uma equipa que desceu à II Liga, e que tinha o objetivo de regressar ao escalão principal, foi o União da Madeira, em 2017/18. São situações comparáveis?

Nós formámos um bom grupo no União da Madeira. Começámos o campeonato muito bem, passámos a fase de grupos da Taça da Liga, iniciámos a Liga a ganhar, mas não havia estabilidade a nível financeiro e os jogadores começaram a desviar-se, inclusivamente a rescindir contratos.

Portanto, não há aqui qualquer possibilidade de comparação. O Moreirense é um clube estável, de gente séria. É um clube com condições extraordinárias. Diria que está ao nível dos clubes grandes, no que diz respeito a infraestruturas de apoio.

Tem uma academia com campos relvados de alto gabarito, é impressionante. Tem um posto médico topo de gama, um ginásio com todas as valências possíveis e imaginárias, tem departamentos de scouting, análise e estatística ao melhor nível.

Tudo isto exige de nós também uma responsabilidade muito grande, porque todos aqueles que compuserem o grupo vão ter de dar retorno a todas essas condições que nos são oferecidas.

O Moreirense tem uma grande estabilidade. E na II Liga é algo fundamental: sem estabilidade as coisas tornam-se difícil. E como sabemos que a estabilidade será uma realidade teremos de estar a altura.

Há exigência sobre si e sobre a sua equipa técnica, há estabilidade, mas terá de ter jogadores. Qual é neste momento a ideia? Manter o grosso do plantel da I Liga - como fez, por exemplo, o Rio Ave, campeão na temporada passada -, ou isso não será possível?

Neste momento não podemos ainda fazer um retrato muito concreto do plantel que teremos. Evidente é que queremos uma equipa muito compacta, muito sólida, com o máximo de talento possível.

Agora, temos de ter noção que na II Liga a maior parte das vezes o trabalho acaba por bater o talento quando o talento não quer trabalhar.

Vamos tentar o máximo de talento possível, manter os melhores jogadores, em consonância com as diretrizes da direção, tentar também reforçar com gente que traga talento, mas também trabalho, atitude e raça. Isto são questões fundamentais na II Liga.

Sofrimento, entreajuda, entrega são coisas de que não abdico. Nós vamos querer jogar bem e vamos jogar bem muitas vezes, mas há jogos na II Liga em que isso não será possível. Portanto, se não tivermos o outro lado as coisas podem complicar-se.

É essa mescla de fatores que vai tornar a equipa sólida.

Quais são as equipas candidatas à subida?

Poderia apontar algumas equipas, em função do que tem sido algumas contratações e investimentos, mas a experiência diz-me que isso nem sempre acaba por se refletir.

Há sempre surpresas, há sempre equipas que apostam muito, mas depois as coisas não se concretizam, outras em que correm bem. Mas isso não são dados adquiridos. Nesta altura é muito difícil fazer essas previsões, exatamente porque a II Liga é extremamente competitiva.

Ao contrário da I Liga, que está muito estratificada, na II Liga qualquer equipa pode ganhar a qualquer equipa, independentemente da classificação e dos investimentos.

Por isso, não arrisco, nesta altura, falar de nomes, embora haja clubes históricos que têm sempre uma palavra a dizer, e o Moreirense é um deles.

Já falou algumas vezes de estabilidade, uma estabilidade que sente no Moreirense, a nível de condições financeiras, estruturais. Mas o clube nas duas últimas temporadas teve seis treinadores. Recebeu algum tipo de garantia quando assinou contrato?

Eu não posso falar no que está para trás. O que posso dizer é que estou confiante e acredito que vamos fazer uma boa época.

Portanto, penso e acredito que vou ficar até ao fim, não podia ser de outra maneira. Claro que isso depende daquilo que fizermos agora, porque a escolha dos jogadores é fundamental para termos essa estabilidade.

Compete-nos a nós, equipa técnica e jogadores, estar à altura dessa estabilidade.

Tem cláusula de rescisão?

Não temos e não estou preocupado com isso. Queremos fazer a época inteira e ter sucesso no Moreirense.

Desde 2005, ano em que iniciou a carreira, nunca tinha estado tanto tempo sem trabalhar - foi mais de um ano. Consegue identificar as razões que justificaram este período?

Consigo. Primeiro tenho de olhar para mim, para decisões que tomei. Eu podia ter começado a treinar logo que saí do Varzim [em 2020/21]. Não aceitei, porque não me quis envolver em lutas para não descer de divisão. Se calhar, mais tarde arrependi-me, porque, entretanto, não surgiu um projeto aliciante. Portanto, essa é a primeira razão.

O outro motivo é o mercado de treinadores estar sobrelotado e torna-se difícil entrar. Mas, no fim de contas, valeu a pena esperar, porque tenho esta boa oportunidade.

Foi, de facto, muito tempo, é angustiante, por vezes, mas também devo olhar para mim e podia ter arriscado. Aconteceu comigo, como acontece com muita gente.

Numa curva final, na nossa conversa, pela atualidade, como é que assistiu à qualificação europeia do Gil Vicente, um clube que tem uma marca profunda na sua carreira?

O Gil Vicente é, de facto, um clube que é uma referência na minha carreira. Foram 15 anos, entre jogador, treinador e diretor.

Conheço as pessoas, gente de trabalho e séria, e fizeram um trabalho extraordinário, fruto de uma estabilidade que existe no clube, com pessoas que selecionam bem as pessoas que organizam o futebol.

Acabaram por conseguir algo histórico, de que as pessoas se podem orgulhar. E é com satisfação que vejo o clube, e pessoas de que gosto, a ter este sucesso.

E olhando para o que pode ser a I Liga e a luta pelo título. Entre os três grandes há uma diferença: o Benfica muda de treinador, Porto e Sporting mantêm. Poderá ser uma vantagem?

O que a experiência nos diz é que quem mantém os treinadores e a equipa dá seguimento ao trabalho. O Porto e o Sporting vão perder alguns jogadores, mas se forem cirúrgicos na reposição das peças que vão sair, terão mais vantagem do que uma equipa que muda de treinador, muda de sistema, eventual a forma de jogar.

Vai perder algum tempo na adaptação, quer do treinador, quer de elementos que vão entrar. Nesse sentido, poderá ter alguma desvantagem inicial. Mas é no campo que tudo se tem de definir.

O treinador do Benfica tem qualidade e será ele que terá de somar todos estes fatores e fazer com que a equipa, de uma forma rápida, possa desenvolver o seu potencial em campo.

No final de contas, acredito que voltaremos a ter um campeonato competitivo, com indefinição sobre o vencedor. Será mais uma liga aliciante, com incerteza de princípio ao fim.

A questão da adaptação do Roger Schmidt é sobrevalorizada?

A Primeira Liga, como disse antes, é em escada. Tem os clubes grandes, que jogam de uma determinada forma, depois há uma série de clubes que joga de uma forma mais aproximada e há os outros clubes que lutam por cada ponto para sobreviver.

É preciso saber como esses clubes jogam, é preciso definir bem o que é que isso pode trazer de diferente.

O que me parece é que na Holanda, e mesmo na Alemanha, não há essas diferenças. Todos os clubes têm grandes investimentos. Na Alemanha, o Bayern tem uma diferença brutal para todos os outros, mas os outros estão mais ou menos ao mesmo nível de investimento.

Em Portugal isso não acontece, o que influencia a forma de jogar das equipas. O Roger Schmidt terá de ter alguém que o incorpore rapidamente nessa forma de pensar. Caso contrário poderá ter alguma dificuldade, como já aconteceu com outros treinadores estrangeiros.

Agora, o Roger Schdmit é um treinador rigoroso, muito metódico e isso poderá ajudar.

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