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Entrevista a Filipe Martins

​“O Casa Pia não vai estacionar o autocarro nos jogos com os grandes”

23 jun, 2022 - 12:45 • Carlos Dias

Filipe Martins devolveu o Casa Pia à I Liga, depois de 83 anos de ausência. O treinador espera realizar uma época tranquila.

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Com os trabalhos da nova época a iniciarem-se, Filipe Martins olha para o que pode ser a temporada na I Liga do Casa Pia, um clube histórico que há 83 anos que não jogava no principal escalão do futebol português.

O treinador promete uma equipa a manter a identidade em campo, mas muito cuidadoso na formação do plantel. A necessidade de jogar no Estádio Nacional nos primeiros meses da temporada, devido a obras de beneficiação do Estádio Pina Manique, não assusta para uma temporada onde o objetivo passa por honrar o clube, garantindo a permanência.

Em entrevista Bola Branca, Filipe Martins admite que em alguns momentos ainda se interroga sobre o sucesso da subida, recorda a sua primeira passagem pela I Liga, ao serviço do Feirense, e antecipa os duelos com o amigo Rúben Amorim.

Como está a correr a formação do plantel?

Temos sido muito criteriosos naquilo que tem sido a nova época, ao nível das contratações não temos entrado em euforias, não temos entrado em precipitações.

Sabemos muito bem o que queremos e até ao fecho do mercado vamos ter uma equipa competitiva sem pressa de fechar jogadores só por fechar. Temos confiança também naqueles que ficaram da época passada e de certeza absoluta que vamos construir uma equipa muito competitiva.

Quais são os objetivos para esta temporada?

Claramente o mais rapidamente possível atingir a manutenção, ter uma época o mais tranquila possível, mas acima de tudo aquilo que também nos serve de gasolina é a história do Casa Pia e honrar um clube que tem uma história ímpar. Tenho a convicção de que vamos contruir uma equipa que pode competir em todos os jogos pelos três pontos.

Tenho a certeza de que vamos construir uma equipa que vai orgulhar todos aqueles que acreditaram que o Casa Pia podia chegar a este patamar. Com trabalho, humildade e principalmente com as condições que nos dão todos os dias naquele clube, temos tudo para atingir o sucesso.

O Estádio Pina Manique vai sofrer obras de remodelação e nos primeiros meses da nova época a sua equipa vai treinar e jogar no Estádio Nacional. Esta será uma contrariedade de peso?

Vai ter de ser um sacrifício que vamos fazer para colher os frutos mais à frente. Os próprios adeptos do Casa Pia percebem que o estádio tem de ser modernizado porque temos de corresponder às exigências da Liga Portugal.

Como treinador não vejo um grande problema porque hoje em dia é uma utopia. Quase todos os clubes trabalhar no Centro de Estágio e depois vão jogar ao seu estádio onde treinam, no máximo, uma vez. Não vamos arranjar desculpas fáceis. Vamos ter de ultrapassar as dificuldades e essa será uma delas. Vamos encarar esta situação com otimismo e não como uma forma de desculpar alguma coisa.

Já fez a “digestão” da época passada, do que se passou e da conquista da subida de divisão?

Confesso que muitas vezes ainda vou no carro a caminho do Casa Pia e caio em mim e digo “para o ano vamos jogar contra Benfica, Sporting, Porto e essas equipas todas, afinal conseguimos mesmo”, porque há dois anos quando me propuseram este projeto para subir o Casa Pia à I Liga em três anos tudo foi um pouco estranho para mim, porque tínhamos de transformar um clube que tinha feito apenas 11 pontos na II Liga, num campeonato que foi interrompido devido à Covid, ainda por cima partindo praticamente do zero.

Esta será a sua segunda presença na I Liga, depois da experiência de 14 jogos, em 2018, no Feirense. Um momento da sua carreira que não correu bem. Que ensinamentos conseguiu retirar?

Fui mais pelo desafio, eu gosto de desafios, gosto de me pôr à prova, cresci bastante como treinador até porque foi a primeira vez que passei por uma situação adversa na minha carreira.

Não posso dissociar-me da descida, seria muito fácil dizer que quando cheguei o Feirense já estava muito abaixo da linha de água, uma equipa que não ganhava há muitos jogos, não quero arranjar essa desculpa.

Quero sim olhar para trás e dizer que aquela experiência, apesar de ter manchado o meu currículo, ajudou-me a viver este momento de subida à I Liga. Muitas das coisas que vivenciei na altura não as quero vivenciar agora no Casa Pia.

Na sua segunda experiência na I Liga como quer colocar a sua equipa a jogar?

A nossa mentalidade contra os grandes, mesmo sabendo que temos menos possibilidades, vai ser a de lutar pelos três pontos. Podemos ser naturalmente forçados a estar à defesa mais tempo do que aquele que gostamos, mas como treinador garanto que não vamos mudar minimamente a identidade.

Não vão ver um Casa Pia de autocarro à frente da sua baliza, vamos tentar jogar um futebol positivo como fizemos na temporada da subida, até porque só assim poderemos potenciar alguns jogadores para que o nome do Casa Pia possa continuar a ser bem falado.

Chegou ao Casa Pia no verão de 2020. Ainda sentiu sinais da passagem de Rúben Amorim pelo clube?

A única coisa que ficou dele, e o Rúben teve muito mérito por isso, foi ter tido a visão e a ousadia de mudar o paradigma do clube, ao passar a treinar de manhã. O Casa Pia só treinava à noite, ou seja, vivia de jogadores que trabalhavam o dia inteiro e depois iam treinar. Essa sim foi a grande mudança de que o Casa Pia precisava.

Sei que mantém contacto com Rúben Amorim. Já pensou nos dois jogos que vai ter com o Sporting para o campeonato?

Temos uma relação engraçada. Não me recordo bem, mas na manhã ou na véspera do nosso jogo com o Leixões, que nos deu a subida, ele enviou-me uma mensagem onde dizia: “Já estou aqui a pensar como é que tu vais querer-me enganar com esse teu 3-4-3”.

Vão chegar a acordo para não trocarem mensagens nas semanas dos vossos jogos para o campeonato?

Não vamos trocar até porque nesta temporada tivemos um jogo para a Taça de Portugal e até foi bem “rasgadinho”. Cada um vai tentar fazer o melhor pelo seu clube e no final vamos dar um abraço como é habitual.

Ele vai fazer tudo para que o Sporting consiga ganhar e eu a fazer tudo para que o Casa Pia os possa enganar.

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