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Estrela da Amadora

O engenheiro Paulinho é doutorado na ciência do golo

01 nov, 2021 - 10:50 • Sílvio Vieira

O ponta de lança do Estrela da Amadora esteve sete jogos consecutivos a marcar. Tem nove golos e é um dos melhores portugueses a decidir em frente à baliza. À quarta época já chegou aos 50 golos de uma carreira sempre a subir: distrital, Campeonato de Portugal e II Liga. A história ainda está no início, mas o engenheiro biológico de Braga já tem muito para contar.

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Apresenta-se como goleador, mas Paulinho teria saída, caso a bola não entrasse. O ponta de lança do Estrela da Amadora, que esteve sete jogos consecutivos a marcar, apresenta-se na Renascença e traz canudo.

Formado em Engenharia Biológica, não fosse ele rasteirado pelo futebol, Paulinho sempre sonhou em ter o nome de guerra inscrito nas costas de uma camisola de jogo. Paulo Rafael Pereira Araújo é de Braga, onde começam a florescer pontas de lança, mas mostra-se na Amadora.

De dispensado do Merelinense a goleador na II Liga contam-se quatro épocas - uma ainda em curso - e 50 golos. "Foi uma subida a pulso", diz o jogador, de 22 anos, ainda longe de atingir o ponto mais alto.

No distrital com o São Paio D'Arcos, no Campeonato com o Fafe e, agora, na II Liga com o Estrela. É este o percurso em escalada feito pelo ponta de lança que quer "marcar em todos os jogos". Para já tem nove golos e está na luta pelo troféu de melhor marcar da II Liga, mas sem pressão.

O seu desempenho já desperta interesse, mas Paulinho só vê Estrela, neste momento: "É um projeto aliciante. As pessoas prometeram e cumpriram".

A equipa está a ajudar, vai na carruagem da frente da II Liga, mas com travão na euforia. A ideia é ir picando o ponto, em casa e fora. No final fazem-se as contas.

Nove golos, em 14 jogos, na sua primeira experiência no futebol profissional. Está na discussão pela liderança da tabela de goleadores da II Liga, com o Estrela da Amadora em boa forma. Previa um arranque assim?

Não contava que fosse assim tão perfeito, mas tinha boas expectativas no início da temporadas. Sabia que se trabalhasse o que consigo, e se desse um pouquinho mais a todos os treinos, os frutos acabariam por sair nos jogos. Agora tenho de aproveitar o momento ao máximo, porque o futebol é feito de momentos e nós temos de saber espremê-los ao máximo.

Em quatro épocas como sénior - duas no São Paio D'Arcos, no distrital, uma no Fafe, no Campeonato de Portugal e esta a começar no Estrela, na II Liga -, o Paulinho tem 96 jogos e chegou ao golo 50 da carreira no jogo com o Feirense. Não contava com sete jogos consecutivos a marcar, mas há aqui sinais de que estamos perante um goleador. Como é que justifica estes números?

Sinceramente, estou a saber que foi o golo 50 da minha carreira, não sabia. Fico feliz com esses dados e sempre trabalhei muito, mesmo quando estava no distrital. Sabia que se queria uma carreira no futebol, vindo do distrital, teria de ser uma carreira construída a pulso. Trabalhei, trabalhei, nunca deixei de acreditar e tentei mostrar o meu valor com os números, porque um ponta de lança também é isto, vive muito dos golos.

Sempre consegui aproveitar bem as oportunidades em todas as equipas e isso levou-me onde estou hoje.

Desde sempre que quis ser futebolista, ou na passagem para sénior ponderou outras saídas?

Não me lembro, desde pequenino, de querer fazer outra coisa, mas também admito que foi difícil, porque quando acabei a formação não tive grandes propostas. A única coisa que me apareceu foi de distrital e aí admito que abalei um bocadinho e até pensei em desistir.

Mas fui sempre conciliando o futebol com a universidade e até consegui fazer uma licenciatura em Engenharia Biológica. Fiquei sempre com esse plano B. Se não desse certo, tinha sempre uma segurança para a minha vida, mas o meu foco sempre foi o futebol. Sempre quis ser futebolista e espero construir uma boa carreira.

Ao conciliar as duas realidades - estudos e futebol - depreendo que tenha tido sempre o apoio da família?

Sem dúvida. Os meus pais são tudo para mim. Tenho a certeza que se não fossem eles, eu não estaria agora onde estou, a fazer o que faço. Eles sempre me deram as ferramentas para que eu pudesse atingir tudo do melhor e do bom. Desde pequenino que o meu pai não falta a um jogo, acompanha-me sempre, a minha mãe também. Disseram-me sempre para fazer os estudos e para ter a base de segurança. Sem eles nada disto era possível.

O Paulinho diz que teve dificuldades em encontrar um clube quando deu o salto da formação. Mas no seu percurso, que terminou nos juniores do Merelinense, passou pelo Sporting de Braga, por Vizela e por outros emblemas. O que é que aconteceu para que não se fixasse, com a qualidade que apresenta, por exemplo, no Braga, de onde é natural?

Eu estive no Sporting de Braga uma época, mas também era muito miúdo e as coisas acabaram por não acontecer e, na altura, fui dispensado. Tive passagens por clubes aqui e ali, e nos meus últimos anos de formação estive no Merelinense, de Braga.

As coisas correram bem, era um ponta de lança com golos. No último ano de juniores tive uma lesão que me atrapalhou um pouco, mas ainda assim foi uma época bem conseguida. Não tenho bem noção dos números, mas lembro-me de marcar uns bons golos.

A meio dessa época tive uma proposta para sair para o Gil Vicente e falei com os dirigentes do Merelinense, que me prometeram que iria ficar nos seniores. E eu pensei que ter um primeiro ano sénior no Campeonato de Portugal não seria mau.

Mas as coisas no futebol não são bem como nós esperamos e há muita mentira. Acabaram por nem sequer falar comigo no final da época. Fui embora do Merelinense e o que me apareceu foi o São Paio D'Arcos, do distrital, e abracei o projeto com muito orgulho.

E marcou muitos golos no São Paio D'Arcos.

Sim, acabou por dar certo. Se calhar, se tenho ficado no Merelinense, as coisas não teriam corrido como têm corrido, mas isso são outras coisas.

O que é que se passa em Braga de tão especial para tantos pontas de lança florescerem?

Modéstia à parte, é a melhor cidade de Portugal [risos]. As coisas acabam por acontecer a quem trabalha muito e Braga é conhecida por ser uma cidade de muito trabalho, não sei se será por isso, mas já é muita coincidência.

Estamos num tempo em que finalmente começa a aparecer uma boa fornada de pontas de lança portugueses. Os do distrito de Braga de que falávamos - os dois Paulinho, o Vitinha -, mas muitos outros. Pontas de lança que não obedecem ao registo de clássico de serem apenas referências na área, mas com habilidade para serem mais do que isso.

Sinal de que há escola, mas, no seu caso, inspira-se em alguém?

Desde miúdo que a minha inspiração é o Cristiano Ronaldo. O homem dispensa apresentações e foi sempre alguém que acompanhei. Nos últimos anos tenho observado muito o Lewandowski. É um ponta de lança que admiro muito, porque é um dos mais completos que já vi jogar. Vejo muitos vídeos dele em casa.

Mas também tive sempre pessoas na minha formação, mesmo sendo clubes da terra, que viam algo em mim, que apostavam em mim e ficavam muitas vezes comigo no final dos treinos.

Ver Lewandowski é trabalho de casa para si?

É trabalho de casa, sim. Antes dos jogos, na noite anterior, gosto muito de ver vídeos do Lewandowski, do Aguero, para depois "copiar" movimentos.

Nove golos, cinco na II Liga. Número interessantes para arranque de campeonato. São uma boa base para lutar pelo título do melhor marcador?

Gostava muito, mas não me sinto focado nisso. Penso muito jogo a jogo e quero muito fazer golo já no próximo jogo. No final faremos as contas, mas o mais importante é ganhar os jogos para fazermos uma boa época, enquanto coletivo. Se a época for de sucesso a nível coletivo, todos nós seremos valorizados enquanto individualidades.

O Estrela funciona como coletivo, mas não deixa de ser curioso que os golos estão concentrados em quatro, cinco jogadores e em dois em particular: Paulinho e Diogo Pinto. Nos treinos olha de lado para o Diogo Pinto?

[risos] Nada disso. Eu e o Diogo Pinto temos uma relação muito boa, dentro e fora de campo. Entendo-me muito bem com ele e acho que fazemos uma boa dupla.

Mais a sério, são dois jogadores em foco na II Liga. O Diogo Pinto é um dos goleadores do campeonato, com sete golos, e o Paulinho está com o registo de que já falámos. Este holofote que incide sobre ambos funciona como fator de pressão ou motivação?

Vejo isso como fator de motivação, porque agora que as expectativas estão lá em cima, nós temos de corresponder. Mas a equipa é que nos traz este holofote para cima de nós, porque se a equipa estiver bem claro que uma, duas, três, quatro individualidades vão sobressair. Se a equipa estiver mal, essas individualidades ofuscam-se.

E até onde o pode levar este momento? Já recebeu telefonemas de números que não conhece?

Sim, é natural haver um contacto ou outro, mas deixo isso para os meus empresários trabalharem. O meu foco é dar o máximo todos os dias pela equipa e construir uma boa caminhada com o Estrela.

Como surgiu o interesse do Estrela?

Estava no Fafe, a época ainda não tinha acabado e já tinha havido contacto do Estrela. É um projeto muito aliciante, porque o Estrela tem uma excelente estrutura, com pessoas de muito trabalho. Prometeram dar tudo o que fosse preciso e estão a cumprir. Era um projeto muito aliciante que tinha de aceitar.

O Estrela regressa muitos anos depois aos campeonatos profissionais, após tempos de grandes dificuldades, mas surge com vitalidade. A equipa está a ser uma das boas surpresas da II Liga e está na luta pelas primeiras posições. Subir com o Estrela é um sonho ou um objetivo?

Não pensamos muito nisso. Pensamos jogo a jogo. Só somos candidatos a vencer cada jogo, ao fim de semana. Não temos projetos de subida na nossa cabeça. Focamo-nos no dia a dia.

É normal que assim seja, até porque se trata de uma equipa que chega de um escalão inferior, mas certo é que há dois exemplos bem recentes que fizeram o caminho de subidas sucessivas: o Vizela e o Arouca. O Estrela, como diz, tem a estrutura e tem resultados, e isso pode acontecer. Não estando focado na subida, este é um momento para aproveitar ao máximo?

Claro que sim, temos de aproveitar esta maré positiva, espremer isto ao máximo. A II Liga é muito competitiva e o importante é ir fazendo pontos, seja empates ou vitórias. Temos de fazer da nossa casa uma fortaleza e ir ganhando uns pontos fora.

Para terminar, a linha da meta. Qual é a meta de golos do Paulinho?

Não tenho uma meta fixa de golos. Quero marcar em todos os jogos. Sei que é muito difícil de acontecer e estou já focado em fazer mais um golo no próximo jogo.

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