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Os Jovens e o Ambiente. “Educação é fundamental, mas neste momento precisamos de uma classe política corajosa”

Podcast Somar Ideias

Os Jovens e o Ambiente. “Educação é fundamental, mas neste momento precisamos de uma classe política corajosa”

05 mai, 2023 • Ângela Roque


A mobilização dos jovens contra as alterações climáticas, o radicalismo nos protestos, com as greves pelo clima e a ecologia integral proposta pelo Papa Francisco são temas em debate no episódio 4 do ‘Somar Ideias’, um podcast da Renascença em colaboração com a Jornada Mundial da Juventude. Esta semana juntamos três protagonistas para falarem do que os une na defesa de um mundo mais justo e sustentável, em que ser ambientalista “não é só defender as árvores”, nem basta só reciclar, tem de mudar o paradigma económico.

A preocupação com o meio ambiente e a sustentabilidade mobiliza os jovens no mundo inteiro. Em Portugal voltaram as greves climáticas estudantis. Mas, estarão os jovens devidamente despertos para o que tem de ser feito?

Maria Santos, de 29 anos, é de Lisboa. Já trabalhou na Associação ambientalista Zero, está agora na ONG (Organização Não Governamental) Friends of the Earth Europe, em Bruxelas, onde integra o grupo de trabalho de Energia e Justiça Climática, com vista à adoção de políticas de energia renovável. Diz que apesar de ser engenheira do ambiente, rejeita “abordagens puramente tecnocratas”.

Maria diz que tem dedicado o seu ativismo a “construir pontes entre as questões ambientais e sociais”, porque acredita que “a transição climática não pode ser feita sem respeitar os princípios da justiça social”, ou seja, não se pode abordar este tema desligado do combate às desigualdades. E, apesar de não ser católica, revê-se no conceito de ecologia integral do Papa Francisco.

“Estou familiarizada e bastante alinhada com esse princípio, porque acredito que nós, enquanto seres humanos, temos que deixar de ter esta visão antropocêntrica de que nós é que somos o agente mais importante ou com maior influência, e começar a ver como é que nos integramos com tudo à nossa volta, seja no ambiente construído, seja no ambiente natural, como é que conseguimos conviver harmoniosamente com tudo à nossa volta, seja com os outros seres vivos, seja a cuidarmos da nossa casa”, afirma.

Para si, “ser ambientalista e defender o ambiente e o planeta Terra não é só defender as árvores, defender os oceanos, é defender a nossa casa, cuidar de tudo para que tenhamos um ambiente propício para todos, seja ambiente urbano, semi-urbano ou rural”.

Miguel Serra, de 32 anos, é natural de Nisa, mas dá aulas em Ourém. Com uma tese de mestrado dedicada à ecologia integral, proposta na ‘Laudato Si’, diz que o Papa Francisco “tem o poder de ser ouvido e de colocar na boca de toda a gente” um tema tão importante como este, que interessa a todos, crentes e não crentes.

Ligado ao projeto Eco Escolas e à Rede ‘Cuidar da Casa Comum’, que congrega várias instituições e ONG’S católicas, sublinha que “a questão ecológica não é uma questão católica, nem sequer é uma questão religiosa, é uma questão do ser humano”, e esta encíclica “pode ser lida por toda a gente”.

“Há aqui uma grande concordância de todas as religiões”, no sentido de que “o planeta não se autodestrói. Quanto muito o ser humano pode destruir o planeta, mas ele não se autodestrói, porque as coisas são bem criadas desde o início”, sublinha.

Sara Rodrigues, 25 anos, natural do Porto, é também engenheira do ambiente. Trabalha na associação Médicos do Mundo, e foi até há pouco tempo escuteira do CNE, onde integrou o departamento de desenvolvimento sustentável e participou na CPO 26, que decorreu em Glasgow. Considera fundamental “investir na educação” para “formar cidadãos ativos”.

“O Corpo Nacional de Escutas tem este poder de formar e capacitar crianças e jovens para serem cidadãos do amanhã. Mas, esse trabalho não pode ficar só pela educação não formal. É uma obrigação não só de católicos”, refere.

“Para nós, Deus criou o mundo, e é obrigação nossa conservar essa obra de Deus, que é uma graça para podermos habitar”, mas “é muito importante também mostrarmos às outras gerações o porquê de querermos defender esta causa”, para que todos cuidem “do ecossistema”, adotando um estilo de vida mais sustentável.

Sobre a participação na Cimeira do Clima, reconhece que houve resultados “irrealistas”, mas “se não houver cooperação Internacional e solidariedade, nunca vamos conseguir alcançar um futuro sustentável para todos”. As mudanças, diz, têm de começar pelo sistema económico.

“Os modelos económicos que neste momento temos, utilizados pela maioria dos países, qual é que é o seu objetivo? Aumentar o grau de produtividade, muitas vezes não olhando a meios. E para quê? Para criar cada vez mais lucros e mais rendimento. Portanto, o que tem de haver é uma alteração do paradigma do nosso modelo económico”, da parte dos governos mas também das “grandes corporações”. Tal como defende o Papa.

Miguel diz que ”a questão ecológica ainda é acessória para muita gente, porque vem uma pandemia e isso é prioridade, vem uma guerra e isso é prioridade. A questão ecológica ainda não está entranhada nas pessoas”, isto apesar da reciclagem já ser um dever interiorizado. Mas, não chega, acrescenta Maria. “Obviamente que reciclar é absolutamente fundamental, mas temos de dar um passo mais além”, e quem governa tem de perceber que é urgente tomar medidas.

Sara diz que tem “muita esperança” de que todos aprendam a “viver em comunidade, e a querer cuidar do nosso espaço e construir uma sociedade mais justa e sustentável”.

Maria acrescenta que “a educação é fundamental, mas nós neste momento precisamos de uma classe política corajosa”, porque “continuamos a ter de lutar contra lobbies muito grandes das empresas fósseis”.

“Temos sete anos. O tempo está a contar”

“Os nossos decisores políticos têm aqui um momento muito importante para irem contra estes grandes interesses económicos e tentarmos fazer alguma mudança efetiva na parte energética”. Até porque “nunca o tema da pobreza energética esteve tão mediático”.

“Isto para um político também é muito difícil, mas é preciso ter coragem política, decidir perante a incerteza. Porque há aqui uma coisa que nos esquecemos nesta questão das alterações climáticas: é que quem vai sofrer muito com isto, provavelmente não é a geração dos nossos filhos aqui no Norte global, serão os filhos dos filhos dos nossos filhos. Em 2100, vão sofrer com as consequências das decisões que não tomarmos agora, neste momento, em que de acordo com o Painel Intergovernamental para as Ações Climáticas, temos sete anos para reduzir em 43% as nossas emissões, até 2030. Isto pede uma redução sem precedentes e o tempo está a contar!”, sublinha.

“Precisamos de uma classe política corajosa que queira ouvir as pessoas e envolvê-las nos processos de decisão, em questões de centralização do sistema energético, por exemplo, apostar numa economia do bem-estar em que maneira de medir o bem-estar das pessoas vai além do PIB, mede-se também o bem estar psicológico e mental nas condições de trabalho das pessoas”. No fundo, diz, é toda uma “mudança de paradigma, que não sei se vai só com a questão da educação”.

O importante é envolver as pessoas nas soluções. “Quem é que quer uma turbina eólica mesmo à porta de casa? Quem é que quer uma grande central fotovoltaica? Mas, agora lanço a pergunta: e se esta turbina eólica fosse da comunidade, da aldeia , das pessoas? Que beneficiassem diretamente da energia e que essa energia baixasse a fatura da eletricidade?”, pergunta.

Não há “ativistas perfeitos”

A questão da água ou da energia atómica são, também, abordadas no debate, tal como a decisão da Faculdade de Teologia da Universidade de Helsínquia (Finlândia), de raiz protestante, ir atribuir o doutoramento Honoris Causa à ativista sueca Greta Thunberg. Mas, haverá ativistas perfeitos?

A falta de preparação de alguns dos envolvidos nas lutas estudantis em Portugal é criticada por Miguel Serra. “Os jovens mobilizam-se muito por causas, mas muitas vezes, se formos perguntar porque é que estão a aderir a esta causa, não têm justificação, fazem-no por lobbies, por modas”.

Sara também lamenta a impreparação de muitos e diz que é preciso ponderar as opções que se tomam. “Se de repente virássemos todos vegetarianos, o que ia acontecer era que estávamos a provocar uma agricultura super intensiva, a desperdiçar uma série de recursos que temos disponíveis, e poderíamos estar em pôr em causa uma série de ecossistemas. Portanto, a mensagem que tento sempre passar é a de que temos de ter equilíbrio, sermos equilibrados em tudo. E nesta sociedade isto é super difícil” para os jovens, porque “há muita tentação”.

Maria também não concorda que se leve “tudo ao extremo”, e que “a procura do equilíbrio é o que faz sentido”, mas lembra que “somos humanos e não conseguimos ser perfeitos em tudo”. Sobre o bloqueio às escolas, lembra que “sempre se criticou a juventude portuguesa por ser pouco mobilizada, e ainda é muito pouco mobilizada”, mas “haver um grupo de jovens que teve a coragem de fazer isto, é de começar a aplaudir esta mobilização política, não descurando as questões da literacia, obviamente”.

De resto, considera perigoso falar em “ativista perfeito”, como “o que não anda de avião, ou não veste roupas fast fashion. Obviamente que num mundo perfeito isso era o ideal” mas não pode fazer-se depender disso o envolvimento político nas lutas, porque muitas vezes não há capacidade financeira para certas opções. “Andar de combóio é mais caro do que andar de avião, mas eu, por exemplo, não consigo vir de Lisboa para Bruxelas de combóio”.

Nas questões que cada um colocaria ao Papa Francisco, se tivesse oportunidade, Sara gostava de perguntar: “como é que vamos reeducar para uma ecologia integral as nossas crianças, e recentrar no essencial os adultos de hoje?”.

Maria, que considera a ‘Laudato Si’ um marco importante, até para a posição do Vaticano na COP 21 – em eu foi alcançado o célebre Acordo de Paris – perguntaria a Francisco “qual é próximo passo a dar pela Igreja para fazer com que os países do Norte global, ditos desenvolvidos, consigam ser solidários com os países do Sul global e em desenvolvimento?”.

Miguel arriscaria três perguntas: “O que é que se pode dizer à juventude? O que eu digo está certo? Vamos precisar de uma Laudato Si II?”.

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