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“A tolerância zero não pode ser só um slogan”

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Os Jovens e a Igreja. “A tolerância zero não pode ser só um slogan”

14 abr, 2023 • Ângela Roque


Como é que os jovens olham para a Igreja? A questão dos abusos está a afastar quem tem fé? Como é que se reconquista a confiança na hierarquia? Três jovens analisam o atual momento e falam das expectativas em relação à Jornada Mundial da Juventude.

Teresa Folhadela, 28 anos, natural do Porto, não esconde a “dor” com que tem acompanhado a questão dos abusos sexuais no âmbito da Igreja Católica. Diz que “a tolerância zero não pode ser só um slogan”, e que “tem mesmo de ficar claro para todos o que está a ser feito e o que nos propomos fazer para responder a isto”.

Antiga enfermeira, Teresa trabalha atualmente numa consultora em Lisboa. Habituada a dinamizar jovens (já foi responsável internacional das Equipas de Jovens de Nossa Senhora e esteve na organização dos encontros Faith’s Night Out), considera fundamental a mobilização de todos. “Como é que eu me posso implicar mais numa cultura de cuidado, seja na minha paróquia, num movimento, na comunidade, junto dos mais frágeis? Porque isto não pode voltar a acontecer. Mesmo!”, sublinha.

Miguel Simões Correia, de 22 anos, é de Lisboa. Jurista, com mestrado em direito social, trabalha no Serviço de Proteção e Cuidado da Companhia de Jesus, e é um dos responsáveis da “Candeia”, uma associação que apoia crianças e jovens que vivem em casas de acolhimento. Lembra que os mais vulneráveis “são ainda mais vítimas”, e que “não é por estarem numa instituição que estão protegidos. Pode haver um abusador na instituição, que entra na carreira com esse objetivo”. Daí a importância da formação de todos na Igreja e nas suas organizações.

“Isto não abalou a minha fé, mas deixou-me muito triste e desiludido com uma parte da Igreja”, admite. Mas, até pelo trabalho em que está envolvido, tem esperança e otimismo. “O abuso sexual é a realidade dramática, mas há tanta coisa que se pode fazer numa vertente positiva, que acaba por me dar muita fé naquilo que pode acontecer”, sublinha.

Carlos Almada tem 30 anos, é madeirense. Foi ordenado sacerdote em 2017, e é o atual reitor do seminário do Funchal. Fala do impacto que sentiu ao conhecer os resultados do estudo da Comissão Independente sobre os abusos. Reconhece que “há uma base que é a confiança” que “não se pode perder nunca”. Mas, faz questão de sublinhar que “a Igreja não é isto, não são estes pecados”. Mas, será uma ameaça a novas vocações? “Acho que é, não podemos fingir”, afirma, acrescentando que tudo isto o “entristece”, mas não diminuiu a fé em Deus, pelo contrário. “Fez-me voltar aos alicerces da minha fé”.

Jovem padre, com seminaristas a seu cargo, diz que “é uma preocupação” mostrar que o seminário “é um local seguro”. Não tem dúvidas de que é preciso “trazer de fora pessoas especializadas para que nos ajudem a dar segurança ao seminário hoje e preparar o futuro”. Aguarda para conhecer as decisões dos bispos quanto à formação dos futuros sacerdotes, mas sabe que algumas mudanças já começaram a ser implementadas. “Saí do seminário há pouco tempo e vejo a formação diferente do que era e já desperta para esta realidade dos abusos”.

“O amor à Igreja também se revela em momentos difíceis”

Para Teresa Folhadela “a cultura de cuidado tem de ser transversal, concreta e não ficar nos planos pastorais”, mas o que fôr decidido pela hierarquia “tem de ser claro” e implicar todos, incluindo os jovens. “Não podemos ser meros espetadores, mas executores desta cultura de cuidado”. Lembra, ainda, que o Papa pede aos jovens que “façam barulho”, e que “o amor à Igreja também se revela em momentos difíceis”.

“Acho que há um caminho, de luto, há muitas pessoas comprometidas magoadas, eu própria vivo esta digestão ainda, mas isso não põe em causa o resto”.

Miguel Simões Correia defende que a Igreja “tem de saber falar a uma só voz” e perceber a importância da comunicação, que “não é só um aspeto formal, é como se estão a dirigir a todos: não só às vítimas, não só aos católicos. Todos têm alguma coisa a ver com isto”.

Em sua opinião ”não está em causa a mobilização dos jovens”, que “regra geral têm uma fé menos clericalista”, e acha que a própria Igreja já “caminha para lutar contra o clericalismo, e perceber que o centro é Jesus, e não o padre, por muito que ele nos ajude a chegar a Jesus”.

JMJ Lisboa “não é um iogurte, com prazo de validade”

Numa coisa todos concordam: a Jornada Mundial da Juventude, que Lisboa vai acolher no verão, já está a ser um marco importante na vida da Igreja em Portugal. “A Jornada Mundial da Juventude não é um iogurte” cujo prazo acaba a 7 de agosto, diz Teresa Folhadela, que acredita que o evento é mais do que isso, e irá reforçar o diálogo e a participação dos jovens.

“Podia ser um festival de verão, mas é uma oportunidade para rever a Pastoral da Juventude”, sublinha, defendendo que é preciso que a Igreja os ouça e ponha nos centros de decisão, porque “os jovens são apóstolos de outros jovens” e não o são necessariamente “nos sítios de missa”. O próprio caminho sinodal, que está a ser percorrido, ajudará a Igreja nesse caminho obrigatório.

Miguel concorda, lembrando que “os jovens não são só mão de obra voluntária que às vezes dá jeito”, e que “quando são ouvidos acaba por ser construtivo”.

Responsável pela pastoral universitária e juvenil da diocese madeirense, o padre Carlos destaca, por seu lado, a importância da Missão País para os jovens da região, embora lamente que depois tenham “dificuldade em continuar aquela experiência, porque não há movimentos juvenis” na Madeira.

Com a JMJ Lisboa 2023 como pano de fundo, o que diriam ao Papa, se tivessem oportunidade? “Perguntava-lhe quais é que são os sonhos dele para o seu pontificado”, avança o padre Carlos. Miguel diz que “talvez perguntasse se os padres têm um ónus reforçado de combater o clericalismo, que também é alimentado pelos fiéis, e como é que isso se faz”.

Teresa, que já esteve com o Papa Francisco duas vezes, mas nunca conseguiu dizer “nada muito especial, apesar de pensar em muitas coisas”, desta vez aproveitaria a oportunidade para arriscar um pedido. “Acho que o convidada para jantar com os meus amigos!”.

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