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Luís Cabral
Opinião de Luís Cabral
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​Não ao AO90

24 fev, 2017 • Opinião de Luís Cabral


Ao longo dos últimos anos tenho verificado o enorme número de situações em que o Acordo Ortográfico em vez de simplificar acaba por complicar as coisas.

Deixem-me começar com uma "declaração de voto": continuo escrevendo português segundo a antiga ortografia, em parte por preguiça, em parte porque me parece que o Acordo Ortográfico (AO) é um péssimo acordo.

O número de opositores ao AO é grande. Em linhas gerais, podemos distinguir três tipos de "teimosos". Primeiro, os que acham que o AO é um grande erro porque a ortografia do português era muito melhor como estava antes. Alguém dizia que, para cada pessoa, a melhor música que alguma vez foi escrita é a música que foi composta quando a pessoa em questão tinha 18 anos. Para a minha geração, é indiscutível que o cume da história da música foram os Pink Floyd, enquanto que para a geração anterior foi o Frank Sinatra ou talvez o Elvis Presley. Pela mesma tabela, para este primeiro grupo do "Não ao AO" a melhor ortografia do português é a que aprenderam na escola simplesmente porque foi a que aprenderam na escola. Muitos deles não admitem que realmente é esse o motivo da sua escolha, assim como as preferências musicais "objectivas" têm muito de subjectivo. (Neste sentido, seria útil estudar a reacção que o País teve perante as anteriores reformas ortográficas que a nossa língua sofreu.)

Um segundo grupo opõe-se aos objectivos do AO: a ideia de que, por exemplo, a uniformização da ortografia entre diferentes países, ou a simplificação da escrita (e.g., a omissão de consoantes mudas), são passos necessários para a afirmação internacional da língua portuguesa, senão mesmo a sua sobrevivência. Esquecem-se de que a língua franca do Século XX é a língua com menos regras entre as línguas ocidentais — e está também muito longe da uniformidade espacial.

Finalmente, temos os que batem o pé à mudança não pela mudança em si mas simplesmente porque o AO é uma aberração: não a ideia de um acordo mas si mas a ideia deste acordo em concreto. Não fiz as contas, mas ao longo dos últimos anos tenho verificado o enorme número de situações em que o AO em vez de simplificar acaba por complicar as coisas, nomeadamente por criar múltiplas situações de confusão.

Esta é a essência, segundo consigo perceber, do recentemente divulgado manifesto dos “Cidadãos contra o 'Acordo Ortográfico' de 1990”

(AO90), assinado por personalidades tão variadas como António Barreto, Carlos Fiolhais e António-Pedro Vasconcelos. Não sendo nem de longe nem de perto um especialista na matéria, os argumentos apontados pelos autores do manifesto parecem-me coerentes e convincentes.

Comentários
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  • Augusto Saraiva
    01 mar, 2017 Genève - Suiça 14:45
    Esse pseudo-acordo realmente brada aos céus! Mas o que é que essa gente defensora ganha em querer impôr à maioria uma coisa que já tanta gente entendida disse que não serve para nada?! Estamos ou não num Estado de Direito Democrático?! ... Por favor, oiçam quem sabe da matéria e honrem, ao menos, o saudoso Dr. Vasco Graça-Moura - lendo o que muito escreveu e esclareceu...
  • Vera
    25 fev, 2017 Palmela 00:38
    Então, deixemos que cada um escreva como muito bem entender! porque não tinham nada que fazer um acordo ortográfico, que pertence a todos, sem fazer um referendo primeiro; cá e também do outro lado do Atlântico, porque eles, também têm as mesmas razões... Eu não escrevo farmácia com 'ph' porque houve uma mudança radical nesta palavra, mas sei que farmácia ou pharmácia é um estabelecimento onde se vendem medicamentos, o que é um facto! e não confundo este facto, com o fato que tenho pendurado no roupeiro! Se o Luís Vaz de Camões visse estes comentários, fartava-se de rir! uma parte dos 'Lusíadas' foi escrito em Moçambique e nem por isso, ele sinonimizou as palavras! Agora se quiserem acabar com a confusão dos mais novos, porque aprenderam com o novo acordo, vão ter que apagar certas palavras do nosso dicionário e vão empobrecer a nossa forma de expressão!
  • MASQUEGRACINHA
    24 fev, 2017 TERRADOMEIO 19:04
    O que falta, no AO e sua aplicação, é equilíbrio. Tentar deter a evolução de uma língua é tão estúpido como tentar impô-la: seria como obrigar uma criança a permanecer ou a ultrapassar o seu natural estádio de desenvolvimento. Como brinca aquele cartunista do DN, que assina com a observação "... escreve segundo o antigo acordo ortographico". Da questão da salvação da língua portuguesa através da sua uniformização, e.g. adaptação às "línguas portuguesas" de outras geografias, tudo já foi dito e exemplificado com a língua inglesa. Quando nos deixaremos de auto-depreciações e provincianismos? Quanto às situações aberrantes (até no sentido de equívocas e mesmo impeditivas da própria comunicação), todos temos, decerto, experiência delas - mesmo quem conhece bem o AO e o usa "conscientemente". Eu, pela primeira vez na minha já longa vida, dou por mim a escrever conscientemente "mal" - para não escrever em estilo cómico, ridículo ou incompreensível, prefiro (ai! o que me custa!) que pensem que dou erros ortográficos... A bem do equilíbrio e do bom senso, alguma coisa terá que voltar para trás.
  • Joao M. Maia Alves
    24 fev, 2017 Cacém 17:15
    Discordo. Conheço bem o AO e uso-o conscientemente. Metam nas vossa cabeças que não voltará para trás.
  • Maria Manuela Nunes
    24 fev, 2017 Queluz 11:46
    De acordo com o que diz o cronista. Este Acordo não serve. Não quero ser espetadora quando vou ao cinema e nego-me a escrever Egito em vez de Egipto. Entre muitas outras coisas.
  • João Lopes
    24 fev, 2017 Viseu 10:23
    A língua é sobretudo o que se fala e como se fala, e por isso vai variando através do seu uso: está ao serviço das pessoas e não o contrário. Os especialistas sabem a origem das palavras, mas o falante normal não tem porque saber. Há mudanças ortográficas na língua portuguesa desde o século XII. A partir de 1904, por exemplo, deixou de escrever-se pharmácia. Fernando Pessoa nunca aderiu ao acor-do ortográfico do seu tempo e escreveu sempre como havia aprendido na escola. E veio daí algum mal ao mundo, ou à língua portuguesa? Há sempre gente agarrada à letra e não ao espírito das coisas, de-fensora do imobilismo doentio e dogmático naquilo que pela sua natureza é volúvel e opinável. Mas há que respeitar a sua opinião…e também a opinião dos outros!