Tempo
|
José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
A+ / A-

​Abraão perdido

31 out, 2023 • Opinião de José Miguel Sardica


Não é a religião que os divide, é a política; e talvez nem seja a política, mas os que a fazem, presos por agendas e ódios que o tribalismo demencial das sociedades atuais enquista em posições absolutamente excludentes do outro e cegas em relação a qualquer chão comum onde se possa construir algo.

Em setembro de 2021, no primeiro aniversário da assinatura dos Acordos de Abraão, que normalizaram as relações diplomáticas entre Israel, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein (depois estendidos por Telavive a Marrocos e ao Sudão), estreou nas Nações Unidas um documentário intitulado "Finding Abraham", do argumentista e realizador Malcolm Green, entretanto galardoado com diversos prémios. O documentário tem 30 minutos, está disponível no YouTube e vale (muito) a pena ser visto.

"Finding Abraham" começa com um enunciado motivacional, explicando como, na sequência da assinatura dos Acordos, “um pequeno grupo de jovens de Israel e do golfo Árabe se juntou numa viagem para encontrar a substância por detrás da cerimónia”. Esses jovens ativistas (que partilham o ecrã com vultos como Chemi Peres, o filho de Shimon Peres, o conselheiro para a Paz Dennis Ross, ou o jornalista português Henrique Cymerman), autointitulam-se “Líderes do Amanhã”.

O filme documentário é magnífico na forma e exemplar no conteúdo. Sobre a banda sonora "I just want a little bit of peace and love", jovens israelitas e muçulmanos - trabalhadores, voluntários, empreendedores, cientistas, imigrantes, representantes de minorias - encontram-se, dialogam e trocam experiências, visões e opiniões. Na deslumbrante paisagem do deserto israelita, uma judia e uma árabe entrelaçam-se num abraço sem palavras. E as palavras que outros, noutras cenas, pronunciam, fazem as mensagens do filme – que é preciso falar(em), israelitas e árabes, judeus e muçulmanos; que o mais importante, naquele martirizado Médio Oriente (que um dos entrevistados lembra ser bem mais problemático do que a neutral Suíça, a pacata Suécia ou o calmo deserto do Texas…), é salvar vidas, construir encontros e superar barreiras (sobretudo mentais); que há uma humanidade comum, que a todos une em torno da pergunta o que sou/somos (e para quem), e não quem sou/somos; e entre todos lembrar que, lá onde está e olhando para baixo, Abraão (o patriarca das três religiões do Livro) contempla como semelhantes os filhos da Torá e os filhos do Corão.

"Finding Abraham" queria que o espírito abraâmico não fosse apenas uma nota de história ou teologia no cabeçalho de um tratado diplomático; que descesse dos papéis e dos discursos dos líderes sentados no relvado da Casa Branca, em setembro de 2020, para o terreno, para a contemplação do outro, diferente no credo, afinal igual na condição humana. Judeus e árabes não se podem entender? Israelitas e palestinianos juram agora morte recíproca? Abraão lembrar-lhes-ia talvez que no recolhimento de uma Sinagoga, de uma Mesquita ou de uma Igreja cristã, o crente de cada um dos credos faz a mesmíssima coisa: rezar, agradecer, pedir, dialogar, reconfortar-se. Não é a religião que os divide, é a política; e talvez nem seja a política, mas os que a fazem, presos por agendas e ódios que o tribalismo demencial das sociedades atuais enquista em posições absolutamente excludentes do outro e cegas em relação a qualquer chão comum onde se possa construir algo. É isso que vemos, no ruído mediático que nos rodeia, envenenado pelo antissemitismo de antanho e pela islamofobia de hoje.

Este texto vem a propósito da guerra Israel-Hamas, mas é sobre o que tem de aproximar judeus e árabes para quando, um dia, ela (mais uma nos 75 anos desde 1948) acabar. Até lá, citando o evangelista São Lucas, “haverá choro e ranger de dentes” - em ambas as partes do conflito, pelas (des)razões que assistem a uma e a outra. E todavia, ou no entanto, “a paz esteja convosco” diz-se "Shalom Alechem"» em hebraico e "Salaam Aleikum" em árabe. Será a similitude uma pura coincidência?

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.