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José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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A Terra Santa entre o Hamas e Netanyahu

18 out, 2023 • Opinião de José Miguel Sardica


Primeiro, os factos. O ataque perpetrado pelo Hamas sobre populações civis israelitas foi o pior crime antissemita cometido desde o Holocausto, há três quartos de século.

Os números permitem a comparação com o 11 de setembro, para pior: na demografia, 1300 israelitas mortos equivalem a quase 40 mil cidadãos americanos! E mais do que os números, fala a barbaridade: o Hamas não visou alvos militares israelitas, antes operando, com ódio cego e violência extrema, sobre inocentes – homens e mulheres, idosos, adultos e bebés.

O Hamas não é a Palestina, e muitos palestinianos (não religiosos, cristãos, pacifistas, opositores políticos, mulheres, homossexuais, etc.) são, também eles, vítimas desse «Movimento de Resistência Islâmica» (o seu nome oficial). Mas os palestinianos de Gaza elegeram o Hamas como seu governo, em 2006, abrindo a porta à eliminação da mais moderada Fatah e a uma ditadura que, com patrocínios vários, tem um só e inalterado programa há mais de trinta anos: destruir Israel.

Não se trata de viver ao lado de Israel, na solução dos dois Estados; trata-se de levar a morte a todos os judeus e exterminar da face da terra a “entidade sionista”, em prol de uma Palestina exclusivamente árabe, desde o Mediterrâneo até ao Rio Jordão. “Vem, servo de Alá, e mata-o” (ao judeu) – assim proclama o Hamas. Entre isto (e o que vimos há dias), e as câmaras de gás ou fornos crematórios da Alemanha nazi, a diferença é só de grau, não de substância. E estes factos deveriam iluminar a moralidade, a ética, a humanidade das muitas cabeças pensantes da nossa (e outras) extrema-esquerda, eternamente parcial, eternamente apaixonada por Gaza e pela Cisjordânia, como outrora pelo estalinismo, o maoísmo ou os terroristas sortidos que pululavam na Europa contra a execrada ordem burguesa, e eternamente odiosa em relação a Israel (que é a única democracia do Médio Oriente), pela ligação de Telavive a Washington.

Depois, o problema – porque há um problema, tanto na Palestina, como em Israel: o da radicalização de parte a parte e o da rarefação de moderados. Sob patrocínio iraniano e aplauso russo, o Hamas usa a população de Gaza como escudo humano para o seu ódio e pretende ultrapassar a moderada Fatah cisjordana, para se juntar ao Hezbollah no morticínio dos judeus. Do outro lado, a direita ortodoxa israelita que rodeia Benjamin Netanyahu vê na guerra a um inimigo externo um veículo de unidade nacional que, para já, arregimenta toda a nação, mesmo a opinião pública que vinha criticando os rumos da política interna.

O drama pode estar precisamente aqui: o Hamas lucrará com a guerra que Israel levará a Gaza e o governo de Israel também se reforçará nas ações contra o terrorismo islâmico e na guerra que o Hamas leve aos Kibutz judeus. O confronto justifica-os, a ambos, e cimenta o seu poder, independentemente de ‘Bibi’ Netanyahu, por ser primeiro-ministro de uma democracia agredida, ter direito à retaliação, ainda que ela deva respeitar as leis internacionais, mostrando, assim, a superioridade moral israelita face ao barbarismo do seu inimigo.

O drama da inexistência de moderados de parte a parte é cíclico. Foi um radical islâmico que assassinou Anwar al-Sadat, por o presidente egípcio ter negociado, com Israel, a frustrada paz de Camp David. E foi um radical judeu que assassinou Yitzhak Rabin, por o PM israelita ter assinado com Arafat (o já moderado líder da OLP) a também frustrada paz de Oslo. Netanyahu vai usar esta guerra para reforço político interno; e essa será, no futuro, uma questão política israelita. Já o Hamas usará de todos os meios, sacrificando palestinianos e israelitas, para exponenciar o antissemitismo patológico que o move; e esse é, agora, um problema de todo o mundo.

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