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José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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​A política caseira no altar-palco do mundo

08 fev, 2023 • Opinião de José Miguel Sardica


O Presidente encolheu-se, o governo assobiou para o lado, D. Américo Aguiar confessou-se magoado e Fernando Medina empurrou o ónus para Carlos Moedas.

O recente alarido em torno dos custos da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), em particular por causa do preço do altar-palco para a missa papal de encerramento, a 6 de agosto, revela muito do que é a (baixa) política que hoje reina em Portugal - da amnésia à desresponsabilização, da hipocrisia à guerrilha partidária, do politicamente correto ao temor da opinião pública.

A ideia primordial de Lisboa acolher a JMJ partiu da igreja católica e de uma miríade de vozes de católicos. Esta intenção foi apadrinhada pelos poderes políticos para lá do conteúdo religioso do ato: receber um milhão e meio de jovens de todo o mundo é uma extraordinária oportunidade de promoção de Lisboa e do país e um pretexto mobilizador de sinergias entre o governo e as autarquias da capital e de Loures para a requalificação da zona do Tejo-Trancão (como aconteceu com a Expo’98 sobre a parte oriental de Lisboa). Em 2019, Marcelo Rebelo de Sousa, presidente e católico, exultou com a vitória da candidatura de Lisboa; o governo de António Costa, imagino que republicano, socialista e laico, também se entusiasmou, isto é, garantiu meios; e as câmaras de Lisboa (Fernando Medina) e Loures (Bernardino Soares) prometeram tudo fazer para o êxito da JMJ.

Exultação, apoio e ação implicam dinheiro. Não sei quanto pode, ou deve, custar a organização da JMJ; mas foram decerto feitos estudos e estimativas, e elaborado um caderno de encargos entre o governo, as câmaras municipais e a igreja, com repartição previsível de investimentos de cada entidade e estratégias de angariação de patrocínios e de apoios, tanto financeiros como logísticos, junto da sociedade civil.

Será talvez estranho - e o interregno da pandemia não explica tudo - que se tenha chegado ao início de 2023 sem grandes notícias sobre o andamento da operação JMJ. Mas onde havia, até aqui, grande circunspeção, explodiu de repente o alarido, por causa dos milhões do altar-palco ou dos equipamentos de som e casas-de-banho! Ato contínuo, ninguém era responsável por aquilo em que todos tinham trabalhado! O presidente encolheu-se, o governo assobiou para o lado, D. Américo Aguiar confessou-se magoado com os valores que circularam e Fernando Medina, ex-presidente da Câmara e atual ministro das Finanças, empurrou o ónus para Carlos Moedas.

Ou seja: entrou em cena a hipocrisia e a guerrilha partidária. Em 2019, as “vacas voadoras” de Costa traziam Marcelo embriagado e os portugueses anestesiados no discurso das (supostas) facilidades e prosperidades. Adeus crise, adeus troika, adeus austeridade; o país era campeão na Europa do futebol e na eurovisão, não havia pandemia, nem guerra, nem inflação. Mas em 2023, é o horizonte da crise e da hipersensibilidade social que está sobre a mesa. E os que antes disseram sim, olhando os custos da JMJ como investimento promocional, agora retraem-se, incapazes de uma pedagogia que explique que o custo do altar-palco e do encontro – com os ajustes que a conjuntura económica atual imponha – não pode, demagogicamente, ser colocado no mesmo plano de outros gastos e abusos com que o governo ou as empresas por si tuteladas dia-a-dia se desprestigiam. Por temor da opinião pública mais alertada para os abusos, ou porque é fácil - e cómodo - assestar baterias contra a igreja e os católicos, piscando o olho ao laicismo radical e libertário do politicamente correto, os de 2019 parecem querer fugir em 2023 (Carlos Moedas será a exceção - e ainda bem). É pena e é triste. Os jovens católicos, portugueses e de todo o mundo, e sobretudo o Papa Francisco, merecem outra clarividência e coragem de quem manda.

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  • José J C Cruz Pinto
    11 fev, 2023 ÍLHAVO 13:20
    Começou muito bem, ... mas terminou o artigo na mais completa asneira. Todos falharam - sem qualquer dúvida -, o irrealismo e o delumbramento imperou. O Presidente, como de costume, a dizer que éramos e seríamos "os melhores do mundo", e os outros políticos a esgregarem as mão de contentes com a oportunidade de um brilharete. Mas o habitual ou reclamado realismo (pés-na-terra, e coração no céu) da Igreja não tinha também desaparecido? Quem é que pediu (ou exigiu??) o autêntico "zigurate" (rimando com "disparate") que queriam e ainda vamos ter no Parque Tejo? Foi proposta inicial e "imposição" dos políticos, a que a Igreja Portuguesa anuiu muito contariada? Não foi a dita "mágoa" de Américo Aguiar a confissão pública de que todos - ele humildemente incluído (honra lhe seja) - tinham "pirado"?