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José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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O pântano

29 jun, 2022 • Opinião de José Miguel Sardica


António Costa que estreia agora uma nova maioria absoluta não parece trazer nada de novo; dá a imagem de um governo rotineiro, conformado, gasto, em fim de ciclo.

Há 20 anos, depois de uma desprestigiante, mas no fundo inócua, derrota nas eleições autárquicas, o então primeiro-ministro António Guterres resolveu deitar-se abaixo do poder, declarando não querer mais contribuir para o “pântano”. Se não antes, a palavra entrou então para o léxico político nacional – como dali a pouco, em 2003, entraria a “tanga”, vestimenta minimal com que se descreveu o país em contração financeira no tempo de Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite.

O “pântano” – e vamos ver se não também a “tanga” – veio-me à memória assistindo ao frente-a-frente parlamentar da semana passada, o primeiro desta nova legislatura. A bancada do PS brilhou na bajulação ao chefe, bem comandada por Eurico Brilhante Dias. As bancadas da oposição cerraram fileiras, com gradações de intensidade diferente, e destaque (já esperado) para a barragem verbal do Chega. O orador mais importante foi, claro, António Costa, porque o frente-a-frente do estado do país consiste nesse justo e democrático interrogatório ao primeiro-ministro, cujo governo é responsável perante a Assembleia da República. E o que se viu de Costa? Um chefe de governo enfadado, impaciente, repetitivo, cansado, ríspido, que repetiu frases, não deu respostas, passou culpas, que não se preparou para o debate, que não trouxe medidas novas, que pareceu sem visão e falho de energia, desprezando a função que tem e os oradores que enfrentava, destratando antigos amigos (o BE agora é “tremendista”) e irritando-se com demasiada facilidade com as críticas feitas. Tudo espremido, sobrou uma cassete: na saúde, que era o tema dominante, há problemas, mas perdem-se nas brumas da história, são culpa de Passos Coelho e da troika, da pandemia e do derrube do governo, e a ministra Marta Temido fica, porque quem manda sou eu…

Não se espera que não haja “soundbite”, virulência e alguns truques regimentais no ato. O problema é que estamos no início de uma legislatura que irá até ao outono de 2026, se antes Costa não se escapar para um mais ou menos ambicionado cargo europeu. Quando Sócrates iniciou a sua maioria absoluta, houve uma energia reformista; quando Passos Coelho iniciou o seu governo de coligação, havia também um desígnio reformista e uma linha de rumo para a salvação nacional que se impunha; até quando Costa estreou a Geringonça, sentia-se um virar de página e um suscitar de expetativas (não cuido aqui se boas ou más). O António Costa que estreia agora uma nova maioria absoluta não parece trazer nada de novo; dá a imagem de um governo rotineiro, conformado, gasto, em fim de ciclo.

O PM deveria refletir bem por que razão o voto maioritário de janeiro não se transmutou em qualquer estado de graça. É provável que, de então para cá, em meio ano, muitos tenham já (re)descoberto que aos problemas estruturais disfarçados pela festa da Geringonça e pela cortina de fumo que foi a pandemia estão a somar-se outros, bem graves; e que o PS, sabendo governar na abundância dispensadora de reformas, deixa de ser parte da solução, para passar a ser parte do problema, quando a crise espreita se vai e as reformas tardam. Em todo o caso, se não for agora, que há maioria absoluta e dinheiro (do PRR) para as fazer, então quando serão elas feitas?

A questão está, e vai estar, na implacável usura do tempo. Queremos – melhor, o país aguenta – mais quatro anos “disto”? “Isto”, é um governo que interpreta a maioria absoluta como um cheque em branco para bolinar como quiser, uma oposição que tarda em emergir da lassidão e um presidente que (a)parece demasiado colado ao discurso governamental. Tudo acrimonioso ou pastoso. E a isto chama-se “pântano”.

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