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José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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O PRR ou o novo sebastianismo

22 set, 2021 • Opinião de José Miguel Sardica


As autárquicas são o que na gíria oitocentista se chamava “eleições de campanário”, muito fulanizadas nos putativos eleitos locais, cuja capacidade para fazerem obra e impressionarem é diretamente proporcional aos canais de acesso ao poder central.

As eleições autárquicas de domingo deveriam espelhar a pluralidade de forças políticas partidárias, de movimentos de cidadãos ou de candidaturas de independentes que nelas participam, bem como a diversidade das propostas programáticas a sufrágio, em cada um dos municípios, podendo (e devendo) cada eleitor pesar os prós e os contras, a originalidade, pertinência, exequibilidade, custo e benefício das mesmas. Isto é o que diz a teoria e o que, de quatro em quatro anos, (nos) canta a ladainha da beleza do poder local, como ampla conquista de Abril. Na prática e na realidade, a maioria dos eleitores, sabendo ainda quem é o presidente da República e tendo uma opinião, cada vez mais tribal (e boçal) sobre o primeiro-ministro e quem lhe quer disputar o lugar, pouco ou nada quer saber do município onde vive.

As eleições autárquicas são o que na gíria oitocentista se chamava “eleições de campanário”, muito fulanizadas nos putativos eleitos locais, cuja capacidade para fazerem obra e impressionarem é diretamente proporcional aos canais de acesso ao poder central.

Sempre foi assim. Em 2021, contudo, parece estar pior. Partidos, movimentos cívicos, independentes, programas e debates sumiram-se na espuma das campanhas anedóticas (abundam nas redes sociais imagens de cartazes de propaganda eleitoral inenarráveis). Só se vê, só se ouve e só se fala de António Costa, porque Costa tem, nas suas mãos, a famigerada “bazuca”, o Plano de Recuperação e Resiliência. É o PRR que lhe permitirá, e só a ele, “ir ao banco” de Ursula von der Leyen, e fazer jorrar, como maná para os preferidos, a quantia de 16,6 mil milhões de euros. E, por isso, só António Costa faz a campanha que realmente conta, peregrinando como profeta de milagres por Portugal, apelando despudoradamente ao voto nos autarcas PS, porque só eles verão o maná, ou só eles poderão falar com quem (de)tem o maná. Este efeito de afunilamento – todo o debate autárquico vai dar ao PRR – tem sido notado por vários comentadores. Em contrapartida, não tenho visto discutido o essencial para lá da anedota.

A economia e, portanto, a sociedade e a política portuguesas têm vivido de sucessivas bazucas e espasmos entusiásticos sobre o progresso resultante das ditas desde 1986. Por que é que, 35 anos depois da entrada na CEE, o dinheiro extra, vindo de fora, salvífico, ainda é o alfa e o ómega da subsistência nacional, é fenómeno que mereceria estudo – como estudo mereceria a dependência do bolso e das mentalidades portuguesas desses sebastianismos cíclicos que trazem o país de mão estendida há cinco séculos (desde a pimenta do Oriente aos Euros de Bruxelas, passando pelo Ouro do Brasil ou pelo “Eldorado” africano). Transportamos e recebemos muito; fixamos e produzimos pouco, para recorrer à famosa imagem de António Sérgio.

António Costa, no fundo, surfa uma onda que vem de há muito. Mas fá-lo – e isso é decisão do seu governo e é grave – numa conjuntura que mereceria um outro olhar.

O PRR foi pensado para recuperar as economias e tecidos sociais afetados pela pandemia. Tem uma agenda específica e não abstrata. Por isso, a sua aplicação deveria seguir a máxima de Margaret Thatcher – “put the money back into peoples pockets” – e ser uma ajuda direta às empresas, à sociedade civil, às famílias, às pessoas, que mais diretamente sofreram com a crise pandémica e que mais urgentemente precisam de ajuda. E o que faz o magnânimo Costa? Mais do mesmo, canalizando a “bazuca” para grandes obras públicas, para o reforço do Estado e para o sempiterno império deste (e do poder central) sobre um Portugal cada vez mais dependente…e politicamente dócil.

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