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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

A igreja tem de dar mais poder às mulheres

11 nov, 2022 • Opinião de Henrique Raposo


É uma questão de justiça e até de sobrevivência. E um país mariano como Portugal devia estar na vanguarda dessa ideia.

O Papa Francisco disse há dias que as mulheres fazem sempre tudo bem na igreja. A citação direta é esta: “sempre que uma mulher vem fazer uma coisa ao Vaticano, as coisas ficam melhores”. Se me permitem, este é um novo mote para uma velha obsessão aqui de casa: a igreja tem de dar mais poder e destaque às mulheres. É uma questão de justiça e até de sobrevivência.

Comecemos pela justiça.

As mulheres são a coluna da igreja. Sem o exército de mulheres, a igreja não funcionava, não havia catequese, não havia centros de dia para jovens e idosos, não havia missa, não havia voluntariado. O dia-a-dia da igreja é mantido por mulheres e raparigas. As mulheres são o proletariado da igreja que faz o trabalho de sapa para quem está em cima, os homens, o clero, padres e bispos. A injustiça é tão evidente e confrangedora que por vezes é mesmo difícil estarmos na igreja, é mesmo impossível, senão impossível, levar duas raparigas à igreja, isto é, para um espaço onde só os homens têm poder apesar do trabalho permanente de mulheres.

As mulheres têm de ter mais poder na igreja e um país mariano como Portugal devia estar na vanguarda dessa ideia. Maria e Madalena são apóstolos fundamentais, Maria é a luz no início perante Gabriel e, no fim, é ela quem arregimenta os apóstolos amedrontados. E quem é que vê pela primeira vez a Verdade ressuscitada para depois anunciá-la ao mundo? Madalena.

Sim, o clero devia estar aberto a mulheres.

Muitos vão dizer que este meu argumento é uma mera cedência ao ar do tempo. Em relação a isto, há que dizer três coisas. Primeira: às vezes o ar do tempo exterior à igreja está mais certo do que o ar que se respira na igreja. Querem um exemplo? Foi a cristandade não católica que liderou a luta contra o fim da escravatura no século XIX. Segunda, a igreja também cede ao ar do tempo. A ideia de que os padres não podem casar é uma imposição da idade média, não é uma imposição do Evangelho. Aliás, a partir do Evangelho, fica claro que os pastores da igreja devem ser homens com família. Terceira: qual é o salto mais arriscado? Dizer que os padres têm de ser celibatários quando não existe nada na Bíblia inteira que indique isso ou dizer que as mulheres podem aceder ao sacerdócio quando o texto sagrado está marcado pela presença marcante de mulheres, a começar em Maria?

Falta a questão da sobrevivência.

Sem mais poder e destaque feminino, parece-me impossível a sobrevivência da igreja no mundo ocidental deste século. A igreja não poderá ser a igreja de sempre se não mudar neste aspeto. Na idade média, fez sentido impor o celibato dos padres por uma série de razões. No século XXI, faz sentido abrir o sacerdócio às mulheres por uma série de razões que são auto-evidentes para quem vive aqui e agora e, já agora, para quem lê a Bíblia.

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  • Tiana
    11 nov, 2022 Lisboa 23:05
    Sr. Raposo, você lê a Bíblia mas não a reza nem a aprofunda espiritualmente. Fala de coisas sem saber do que fala... Fique sabendo se ainda não sabe, que a Igreja Católica está no tempo mas não é temporal. A Igreja não é uma Instituição Política embora inserida na Sociedade e respondendo em Caridade às carências humanas ela vive voltada para Fé que acredita na existência de Deus Invisível e visível na Criação. Se não sabe fique sabendo, que o Sacerdócio é conferido a todos os Baptizados- Homens e Mulheres. São muitos os textos bíblicos que explicam esta grandeza sacerdotal do Povo que caminha Rumo ao Céu. POVO SACERDOTAL, ASSEMBLEIA SANTA, assim nos designa a Sagrada Escritura. Poderia indicar os muitos textos bíblicos que nos dão a entender o Sacerdócio no seu todo. Fique sabendo que o ser Sacerdote não é uma questão de Poder, mas de serviço; de entrega e de Fé. As Mulheres não precisam de “poder” para exercer o serviço sacerdotal, porque sempre que se colocam ao serviço apostólico da Igreja já estão a cumprir a sua missão. “Nem todos os macacos têm de estar todos no mesmo galho, porque o galho corre o risco de partir e estraga a beleza da árvore.” Não é a ordenação das Mulheres que vai dar outra Vida a Igreja, porque pela Fé quem orienta a Igreja é o Espírito Santo e com Ele e por Ele nos movemos e existimos. Muito mais poderia dizer mas o espaço é limitado. Só termino aconselhando-o a colocar as suas Filhas no Seminário em ordem ao Sacerdócio.
  • João Lopes
    11 nov, 2022 Porto 12:26
    Se os sacerdotes, fossem doutos, piedosos, e em full-time, seriam muito felizes, porque imitariam melhor Jesus Criso, o único Modelo e que viveu o celibato apostólico. Jesus é o verdadeiro Modelo. E a santidade não é apenas para os sacerdotes mas para todos os cristãos: mulheres e homens, solteiros, casados e viúvos, cultos ou incultos, pobres, remediados e ricos…