Tempo
|
Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
A+ / A-

Nem ateu nem fariseu

Não sinta culpa por jantar à frente da TV com os seus filhos

01 abr, 2022 • Opinião de Henrique Raposo


Na mesa tradicional, a conversa num dia normal pode ser difícil ou desinteressante, porque nem sempre há algo de novo para debater. Com a TV, ao invés, há sempre qualquer coisa para debater.

Vale a pena continuar a revisitação ou reconstrução das ideias feitas sobre família e boa educação. O jantar, como dizia na semana passada, não tem de ser o evento rígido que ainda domina a mente colectiva. Não, às vezes não dá para jantarmos todos juntos depois de um dia cansativo. Ou, então, como sugere Jordan Calhoun na “The Atlantic”, podemos jantar todos juntos mas no sofá frente à televisão.

No meu caso, esta versão não é feita no sofá, mas sim na mesinha de centro da sala que é um velho baú que herdei da minha avó. Ficamos de joelhos ou sentados no chão como os orientais. É divertido, porque é uma variação e porque, como diz Jordan Calhoun, passamos o jantar a falar sobre o que vemos na TV.

Na mesa tradicional, a conversa num dia normal pode ser difícil ou desinteressante, porque nem sempre há algo de novo para debater. Com a TV, ao invés, há sempre qualquer coisa para debater: podemos conversar sobre uma notícia, um concurso, um filme, um desporto, um documentário, um desenho animado. Muitas vezes, dou-me ao trabalho de prestar atenção aos desenhos animados e descubro que há ali histórias e mensagens de interesse. Passar o jantar a discutir ficção com os vossos filhos é uma experiência que recomendo. Esse objeto de ficção até pode ser um filme infantil ou os "Green na Cidade Grande" do Canal Disney. Boa parte dos preconceitos sobre este tipo de jantar resulta da ideia de que a tv corta o diálogo entre os membros da família. Nada está mais errado. A TV, ao contrário do telemóvel, é um ecrã colectivo que vai estimulando a conversa sobre enredos, argumentos e notícias.

As famílias têm muitas formas. Uma família a sério não tem de fazer isto e aquilo para ser uma família a sério. O jantar formal à mesa é uma forma clássica de uma família clássica que já não existe. Para começar, implicava famílias completas, sem divórcios, com horários de trabalho mais dóceis e com um membro do casal (a mãe) a ficar em casa e a tratar do jantar com tempo. Ou então havia uma avó ou tia ou criada interna. Essa domesticidade já não existe ou é raríssima; é apenas um privilégio de pessoas muito ricas e as outras pessoas, a maioria, esgota-se na procura desta perfeição doméstica que não pode ter. Aqui em casa sou eu quem trata da casa no dia-a-dia, mas não é esse o meu trabalho. As coisas não são e não têm de ser perfeitas.

Comer em frente à TV carrega um estigma, porque é um momento que é comparado com essa tal perfeição do passado. Mas será que era mesmo um modelo perfeito? O jantar à mesa formal e obrigatório não era uma manifestação do poder do pater familias? O jantar só começava quando o pai chegava e era quase uma celebração da chegada dessa autoridade. Acorrer à mesa nesse momento era um acto de amor ou de obrigação? E o que dizer das famílias que se massacram com farpas ao longo do tal jantar? Não seria melhor jantarem em separado?

O que interessa é a defesa da família, os modos como fazemos essa defesa variam no tempo.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Joaquim Santos
    05 abr, 2022 Tojal 10:15
    Pelos conteúdos enviesados dos programas, das noticias distorcidas, pela indecência das imagens, incluindo as publicitárias, uma família que visualiza em conjunto, ou não a TV está a imbuir no inconsciente dos filhos a ideologia de extrema esquerda da Ideologia de Género. Ultimo atentado à civilização ocidental e à destruição do cristianismo. A minha leitura, também é aplicável, a quem ouve alguns programas da RADIO RENASCENÇA.
  • maria tiana
    01 abr, 2022 Lisboa 21:30
    A defesa da Família consiste em compreender que numa Família há Horas para tudo. Como em tudo na Vida há momentos certos em horas certas... há horas para estudar; horas para brincar; horas de estar nas aulas; horas de estar a trabalhar; horas para dormir; E há horas paras as refeições e para se sentar à mesa... Ninguém come a dormir, nem come a tomar banho.... Numa audiência com alguém, não se leva um prato de comida para se entreter e ter conversa.... Famílias clássicas ou modernas são mitos que se criaram nas cabeças de homens vazios em busca de sucessos fáceis. Se numa família se sentam diante da televisão para terem assunto de conversa é porque a máxima autoridade da vossa casa é o Televisor... Todos lhe obedecem... O "pai" é a Televisão para todos como burros correm para não chegar tarde... Esta é a parva autoridade do chamado tempo moderno que diz odiar o clássico.... A Família tem a sua excelência no Amor. Ora o Amor no sentido de serviço, de encanto e dedicação ao Outro e aos outros, na Família ou na sociedade, nunca envelhece, nunca se cansa. O Amor não é clássico... É sempre novo e em si renova todas as coisas... O conselho que o Senhor Raposo deixa neste artigo, é errado, superficial e deixa margem para muitas dúvidas em relação ao seu conceito de Família.
  • João
    01 abr, 2022 Porto 16:12
    É sensato o artigo... e faz pensar.
  • Ivo Pestana
    01 abr, 2022 Funchal 16:05
    Sempre aprendi, que uma refeição é um momento sagrado e ainda por ci a, muitos não têm pão para comer. Então, manda o bom senso e respeito, apagar televisão, rádio, computador e não levar telemóvel para a mesa. Um momento sem ruído. Sem notícias, filmes, reality shows, novelas, desporto...o ruído atrapalha a bênção e o diálogo familiar. Não distorcer a verdade cristã, Sr. Henrique.
  • Maria
    01 abr, 2022 Palmela 13:16
    Jantar a ver televisao sao tempos que ja la vao! ninguem sentar a mesa antes do pai , sao tempos que ja la vai!