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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

Aquilo que Maro pode ensinar aos filhos de Putin

18 mar, 2022 • Opinião de Henrique Raposo


Putin está a fazer uma guerra contra a Ucrânia para impedir a ‘contaminação’ dos povos russos pelo inglês e pela cultura ocidental. É disso que se trata.

Maro, a jovem representante de Portugal na Eurovisão, representa uma geração que é a perfeita negação de Putin e dos filhos de Putin espalhados pela Europa. Esta jovem cantora não tem mais do que 25 anos, portanto, ela só conhece a abertura da globalização. Não se lembra dos blocos da Guerra Fria, nem sequer se lembra dos velhos nacionalismos. É uma filha do ocidente aberto, da mistura da geração erasmus. E esta mistura está presente até na forma como canta.

Maro é portuguesa, mas vive ou viveu na América, pensa, fala e canta em português mas também em inglês, o que acaba por lhe dar um sotaque na maneira como canta em português. Percebe-se que é alguém de fora. Se tivesse ouvido o "saudade, saudade" no vazio, eu teria dito que esta era a voz de uma filha de emigrantes portugueses no Canadá. Sim, Inês Lopes Gonçalves, a apresentadora do festival, tem razão: a forma como Maro diz “saudade” tem um lado crioulo no sentido mais genuíno do termo: mistura, ser de dois sítios ao mesmo tempo, nascer aqui mas também ser de acolá. A palavra ‘crioulo’ não indicava um mulato na pele, mas sim um mulato na cabeça; os crioulos eram europeus que nasciam nas Américas. Aqui no site da Renascença podem encontrar vídeos que mostram Maro a falar com sotaque e expressões brasileiras. Porque trabalha muito com músicos brasileiros? Porque nos EUA, onde vive ou viveu, o idioma português acaba por ser o brasileiro? Não sei, nem interessa. O que impressiona é a facilidade com que Maro faz a fusão entre várias culturas lusófonas e o inglês.

Pois bem, é precisamente esta mistura que irrita Putin e todos os outros nacionalistas que defendem a ideia de pureza e do consequente fechamento em relação a outros povos e culturas. Repare-se que Putin está a fazer uma guerra contra a Ucrânia para impedir a ‘contaminação’ dos povos russos pelo inglês e pela cultura ocidental. É disso que se trata. Na cabeça de Putin, Kiev, a primeira cidade do mundo russo, não pode ser europeia, ocidental, não pode ser aberta e cosmopolita, só pode ser eslava e russa. Repare-se ainda que Putin não está sozinho nesta obsessão. Ao longo dos anos, na velha extrema-esquerda e na nova extrema-direita, Putin foi alimentando aliados na Europa. Nestas cabeças nacionalistas, alguém tão crioulo como Mara não faz sentido, é até uma blasfémia que deve ser censurada. Na mente psicótica e conspirativa do nacionalismo, nada é belo e artístico, tudo é político, tudo é uma ameaça política existencial, até uma jovem que canta uma canção com dois idiomas e três ou quatro sotaques diferentes.

Desde os campos de batalha da Ucrânia até aos palcos da Eurovisão, nós estamos de facto a lutar pela defesa de um modo de vida aberto e cosmopolita contra o regresso das forças da ‘pureza’ que veem ‘impureza’ na mistura crioula representada pela nossa Maro.

Comentários
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  • João
    20 mar, 2022 Porto 18:25
    Excelente análise!
  • Desabafo Assim
    19 mar, 2022 Porto 16:43
    Na verdade, sobre esta guerra poderia escolher um lado, mas qual se os dois estão cegos. A terra não é de ninguém, não existe pedaço de terra algum que tenha dono pois ao Homem foi dada a liberdade de desfrutar de toda a terra e ninguém padece por não se encontrar em determinada terra, de norte a sul qualquer que seja o chão todo o homem tem a liberdade de lá morar. Sendo assim porque disputam com sangue bocados de terra, padecem? Pois que olhem a África que foi dividida a régua e esquadro e ainda hoje, tantos anos passados não é causa de guerra e muitos povos e tribos foram divididos ao meio. Esse chão é causa para guerra porque carga de água, não suportam os seus indígenas o amor de duas nações.
  • Ivo Pestana
    19 mar, 2022 Funchal 14:09
    Saudade da vida normal. Foi a pandemia e agora a guerra. A Maro canta sobre os que perderam a paz, a alegria, alguém...tudo. É uma canção oportuna e agora, só nos resta a solidariedade e acima a ESPERANÇA. Saudade, saudade.
  • Desabafo Assim
    19 mar, 2022 Porto 00:58
    Na verdade, sobre esta guerra poderia escolher um lado, mas qual se os dois estão cegos. A terra não é de ninguém, não existe pedaço de terra algum que tenha dono pois ao Homem foi dada a liberdade de desfrutar de toda a terra e ninguém padece por não se encontrar em determinada terra, de norte a sul qualquer que seja o chão todo o homem tem a liberdade de lá morar. Sendo assim porque disputam com sangue bocados de terra, padecem? Pois que olhem a África que foi dividida a régua e esquadro e ainda hoje, tantos anos passados não é causa de guerra e muitos povos e tribos foram divididos ao meio. Esse chão é causa para guerra porque carga de água, não suportam os seus indígenas o amor de duas nações. Farto desta lama. Sobre Cesária Évora canta como ninguém.
  • António J Gomes Costa
    18 mar, 2022 Cacém 13:34
    É exatamente o que disse. Putin considera uma terrível ameaça a cultura ocidental. Se não existir liberdade para falar nos problemas, é como se eles não existissem. É a táctica de varrer para debaixo do tapete, que os sistemas totalitários usam e abusam. No fim os problemas desabam e acabam por ser "resolvidos" em revoluções extremamente violentas.
  • Joaquim Santos
    18 mar, 2022 Tojal 10:13
    É CONTRA TAMBÉM OS PORTUGUESES, E CONTRA A RENASCENÇA, É CONTRA A AGENDA DA IDEOLOGIA DE GÉNERO QUE OS EUROPEUS E OS PORTUGUESES, TANTO SE ESFORÇAM POR IMPOR AO MUNDO !!!