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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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A grande desordem

07 jan, 2022 • Opinião de Henrique Raposo


Nós vivemos numa grande desordem paradoxal: estamos a perder liberdade todos os dias no mundo real, mas no mundo virtual campeia a total libertinagem, a liberdade total e não ordenada pelo estado de direito, ou seja, não é liberdade, é a lei da selva. O mesmo indivíduo pode ser como cidadão um 8 securitário na realidade física e um 80 libertino no mundo virtual enquanto utilizador da internet.

Foi uma semana horrível. Um ataque informático destruiu o site do meu jornal, Expresso. O jornal foi roubado. Fui roubado, fui assaltado, fomos assaltados. Fiquei sem o espaço onde trabalho e escrevo todos os dias. Se aplicarmos isto à rádio, seria o mesmo que alguém bloquear a emissão da Renascença. Só ouviríamos a estática. Sim, a estática. Foi este o som desta semana: estática. Este é um ataque à liberdade e ao modo de vida dos jornalistas e cronistas, é um ataque direto à minha vida: acordo sempre cedo para escrever a crónica do dia na fronteira entre a madrugada e a manhã; sinto-me agora no vazio sem este começo de dia. E, já agora, este é um ataque direito ao ganha pão das minhas filhas. Mas tenhamos calma. No Pasa Nada! O Expresso tem 49 anos e fará mais 49. Daremos a volta por cima mais fortes. A Impresa voltará mais forte e consciente dos riscos, tal como todos os outros grupos de comunicação.

Mas este caso leva-me a uma ideia paradoxal, uma ideia que me assusta. Nós vivemos numa grande desordem paradoxal: estamos a perder liberdade todos os dias no mundo real, mas no mundo virtual campeia a total libertinagem, a liberdade total e não ordenada pelo estado de direito, ou seja, não é liberdade, é a lei da selva. O mesmo indivíduo pode ser como cidadão um 8 securitário na realidade física e um 80 libertino no mundo virtual enquanto utilizador da internet. Eu, como cidadão, perco liberdades todos os dias para um clima cada vez mais securitário e censório por várias razões; mas, se for para a opacidade virtual, tenho uma liberdade total e anárquica e posso lançar ódio e caos à minha volta com enorme impunidade. Repare-se na pressão para se retirar o direito de voto a quem está com teste positivo à covid. O quê? Mas já elegemos a Graça Freitas para alguma coisa? Ainda somos uma democracia ou já somos uma monarquia médica nas mãos de três ou quatro médicos de saúde pública?

É esta a grande desordem. Na vida real, a pessoa x perde liberdades para o estado e para as burocracias como a DGS; essa mesma pessoa não consegue expressar no espaço público uma opinião válida e heterodoxa contra as ortodoxias vigentes; expressar a liberdade heterodoxa de pensamento é cada vez mais difícil, seja em que tema for, na gestão da covid, no racismo, no ambientalismo, etc, há uma pressão cada vez maior para se seguir uma única narrativa. Mas, na vida virtual, a pessoa y pode ser um canalha, um pirata, um odiador através de uma liberdade absoluta que obviamente deixa ser liberdade e passa a ser anarquia.

Voltarmos a ter a liberdade que já tivemos nas nossas vidas implica corrigir esta desordem.

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  • Carlos Lopes
    13 jan, 2022 Lisboa 15:06
    apesar de este texto ter sido escrito dia 7 de janeiro apenas hoje, dia 13, o li. E li com agrado como leio, quase sempre Henrique Raposo. Quer aqui, quer no Expresso. Foi no jornal que li a crónica de hoje, "Livre e Iniciativa Liberal: ar fresco que merece apoio", que me deixou sem palavras. Aí se faz um apelo descarado ao voto na IL, onde presumo HR vai votar, e no Livre. Ou seja, li alguém que se diz católico, que tem espaço na Emissora Católica Portuguesa, apelar ao voto em dois partidos que defendem, clara e abertamente, o aborto e a eutanásia. Pois é, o HR, ao apoiá-los, está defender, diretamente, que se mate. O que para alguém que já vi assumir-se como católico, é, no mínimo, estranho. Tenho o maior respeito por quem não pensa como eu, desde que seja fundamentado e coerente, o que, no caso presente, HR não foi.
  • Maria da Paz Garcia
    07 jan, 2022 Lisboa 17:14
    não deve ser um acaso os hackers internacionais escolherem um dos mais prestigiados órgao de comunicação social escrita como alvo. Já agora gostaria que me explicassem o que ´´e ser catolico não crente.agradeço resposta