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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

Do nojo: tentar aprovar eutanásia agora

29 out, 2021 • Opinião de Henrique Raposo


Esta onda de doenças não covid vai crescer e vamos ter um aumento constante de casos de doença grave e dolorosa em todos os campos da medicina, a começar na oncologia, porque milhares e milhares de cancros ficaram por diagnosticar e tratar a tempo. Em vez de olharem para estas pessoas, em vez de criarem soluções na saúde para resolver este problema (protocolos com hospitais privados, por exemplo), os deputados preferem dar a estas pessoas a lei da eutanásia e uma saída fácil para o sofrimento em massa que aí vem.

Este parlamento está de saída, estamos num limbo, estamos a preparar eleições e a configuração do novo parlamento. Claro que este parlamento perdeu autoridade para impor medidas legislativas de fundo. Então porque é que alguém decidiu que a lei da eutanásia devia avançar agora? E logo a eutanásia! Então a eutanásia, que é uma mudança civilizacional de fundo que altera a percepção do que é a morte ao ponto de transformar a morte num dever do estado perante o cidadão que a pede em suicídio, vai ser imposta por um parlamento diminuído na sua autoridade? Estão a gozar? Não houve discussão alargada, não houve referendos, houve chumbos no tribunal constitucional devido à imprecisão dos termos usados nos projetos de lei (como se define “dor insuportável”?) e agora um parlamento diminuído quer impor à força esta lei? Que barbaridade é esta?

Se querem aprovar a eutanásia, então que tenham a coragem de a colocar nos programas eleitorais. Em 2019, nenhum programa eleitoral falava em eutanásia. Nenhum. Não foi assunto de campanha. Reparem, portanto, nestes dois anos de desonestidade intelectual: estes deputados foram eleitos sem falar ao povo da eutanásia; quiseram impor a lei a partir do parlamento, mas foram bloqueados pelo TC e pelo Presidente. Agora, quando têm a autoridade diminuída, querem voltar à ideia à pressa como aquele autarca corrupto que, já depois de ter perdido as eleições, adjudica mais uma obrazinha ao amigo construtor.

A perplexidade transforma-se em asco quando pensamos no seguinte. Na Europa, Portugal tem um dos piores cenários na saúde não covid. Ou seja, no último ano e meio, a mortalidade não covid em Portugal foi altíssima e continuará a ser, porque muitas doenças e tumores ficaram por detectar e tratar. Este é um tabu que foi imposto por Costa, por Temido e, na verdade, por toda a narrativa do #ficaremcasa: não se pode falar do excesso de mortalidade não covid, não se pode falar dos doentes não covid que já morreram e dos que morrerão em breve por falta de diagnóstico e tratamento; estas pessoas, as grandes vítimas da pandemia, não têm lugar na narrativa. Morrem e sofrem em silêncio, porque nada pode perturbar a ideia de que o SNS foi um sucesso na frente covid. Pois, claro: esse alegado sucesso na frente covid foi feito à custa dos outros doentes e mortos, que foram esquecidos.

Agora e no futuro próximo, esta onda de doenças não covid vai crescer e vamos ter um aumento constante de casos de doença grave e dolorosa em todos os campos da medicina, a começar na oncologia, porque milhares e milhares de cancros ficaram por diagnosticar e tratar a tempo. Em vez de olharem para estas pessoas, em vez de criarem soluções na saúde para resolver este problema (protocolos com hospitais privados, por exemplo), os deputados preferem dar a estas pessoas a lei da eutanásia e uma saída fácil para o sofrimento em massa que aí vem. Isto, minha gente, é a política no grau zero do asco.

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