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Nasceram na era das tecnologias de informação, são mais práticos e mobilizam-se por causas. Até dispensam o carro e a casa, também porque não têm grandes salários para pagá-los, mas arriscam ter o seu próprio negócio. Como podemos ajudá-los? Quais os medos que enfrentam? Que tal começarmos por ouvi-los? "Geração Z" é um podcast quinzenal, publicado à quarta-feira, às 18h, da autoria do jornalista Alexandre Abrantes Neves. Esta é uma parceria Renascença/Euranet Plus.
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Homofobia. "Evoluímos imenso, mas abriram-se mais portas para a violência"

Geração Z

Homofobia. "Evoluímos imenso, mas abriram-se mais portas para a violência"

25 mai, 2023 • Beatriz Lopes


No Geração Z desta semana falamos sobre todas as formas de preconceito, discriminação e violência em relação à orientação sexual: os insultos homofóbicos ainda são recorrentes? O que responder às pessoas que dizem que "já não há paciência" para estes temas? Há uma altura certa para as pessoas LGBTQIA+ assumirem a orientação sexual? A Igreja é conservadora e relutante ou há caminho para a abertura?

A aceitação da homossexualidade em Portugal "é cada vez maior", mesmo que, por vezes, precisemos "que as leis venham antes da transformação social" para travar "uma minoria muito ruidosa". É assim que Manuel Moreira, ator e voz ativa na defesa de causas LGBTQIA+, olha para um país onde a população, na generalidade, "ou está completamente a favor ou não pensa muito nisso, porque tem outros problemas com que se preocupar".

Se antes a sociedade portuguesa "olhava com estranheza" para o casamento entre pessoas do mesmo sexo, lei que foi aprovada em 2010 - mesmo com os votos contra do PSD e CDS - Manuel Moreira considera que, hoje, "a maior parte da população sabe que as pessoas só estão a ser felizes à sua maneira". Mas reconhece que "a violência homofóbica e transfóbica são ainda problemas reais e graves" e alerta que, sobretudo entre as gerações mais novas, "abriram-se mais portas para a violência".

"Há um fenómeno para o qual eu próprio, até há poucos anos, não estava tão atento, mas que nos últimos dois ou três anos, até em ações que fiz em parceria com a PSP, me apercebi: o bullying, de uma forma geral, não só está muito presente como tem crescido. Hoje, os miúdos ligam o telefone e podem ser vítimas de ameaças e bullying pelas mais diversas vias. E, portanto, é mais violento nesse sentido. E continua a haver escolas onde os miúdos são vítimas de bullying. Portanto, a minha resposta é ambígua. Há aspetos em que eu sinto que de facto evoluímos imenso, mas, por outro lado, também se abriram muito mais portas para a violência.”

Em 2021, Manuel Moreia convidou os portugueses "a calçar os sapatos" de quem sente o preconceito na pele: usou a conta de Instagram para partilhar um vídeo no qual vários jovens pronunciavam insultos. O objetivo? Defender a importância da consciencialização para o tema.

"Pensei que as pessoas ao verem o vídeo, quem não estivesse tão desperto para a problemática do bullying - neste caso de bullying homofóbico -, poderia ter uma sensação aproximada do que é ter alguém a olhar-te nos olhos e a dizer-te que te odeia por seres isto ou aquilo ou que te quer ameaçar por isso. Acho que às vezes faz falta passarmos por situações que nos põem nos sapatos dos outros", sublinha.


Homossexuais que não se enquadram em padrões de masculinidade sofrem mais preconceito

Uma das mensagens que Manuel Moreira quer deixar bem clara é "que não há formas corretas ou incorretas de ser uma pessoa LGBT", reconhecendo que os homossexuais que não se enquadram em padrões de masculinidade poderão ser um alvo mais fácil de discriminação até dentro da própria comunidade.

"Mesmo dentro da comunidade LGBTI, ouvir alguém dizer que 'aquele tipo de pessoas não ajuda a causa, porque são demasiado isto ou aquilo', é um erro e há que combatê-lo. As pessoas são como são e o que é masculino ou o que é o feminino são coisas também muito relativas. Há homens heterossexuais que têm jeitos considerados menos masculinos do que alguns dos seus amigos e não é por isso que deixam de ser heterossexuais. O mesmo se aplica às pessoas LGBTI. Ninguém tem a obrigação de corresponder a padrão absolutamente nenhum", defende.

Aos jovens que sofrem de preconceito ou não se sentem confortáveis em determinado ambiente, o ator de 40 anos deixa "uma mensagem cliché, mas que é mesmo verdade": o tempo cura tudo e há quem tenha conselhos para lhes dar.

"Quando chegamos à idade adulta, a nossa independência traz-nos defesas e, portanto, a mensagem que eu tenho, assim, em primeiro lugar, é que se aguentem porque as coisas normalmente tendem a melhorar com o tempo e não a piorar. E podem procurar ajuda junto das entidades nas quais sentem mais confiança, seja a direção da escola, seja um professor, sejam instituições como, por exemplo, a Associação ILGA Portugal ou rede ex aequo", sublinha.

Hungria e Polónia mancham valores europeus

No passado dia 19 de maio, todas as iniciativas legislativas sobre autodeterminação da identidade e expressão de género seguiram para discussão na especialidade. Em cima da mesa, estão projetos de resolução do Partido Socialista (PS), Livre, partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) e Bloco de Esquerda (BE), com medidas que vão permitir, por exemplo, que o Cartão de Cidadão deixe de ter identificação de género ou acabar com a obrigatoriedade do nome próprio corresponder à identificação com um sexo. Também nas escolas, o governo promete avançar com um guia com orientações para combater discriminação de género.

Sobre todas elas, Manuel Moreira tem uma certeza: "tudo aquilo que sirva para fazer com que as pessoas se sintam mais seguras e respeitadas, é uma boa ideia", sobretudo quando "não muda em nada a vida das outras pessoas".

"Por exemplo, o facto de nós passarmos a permitir nomes que não são conotados como masculino ou feminino, é uma coisa que não prejudica nem a tua vida, nem a minha, nem a de ninguém" (...) Ou se há uma jovem que é trans, por exemplo, e não se sente à vontade de ir à casa de banho dos rapazes, mas também não se sente bem-vinda na das raparigas, porque não haver uma casa de banho para ela poder ir à vontade?", questiona.

Quanto ao que se passa na Europa, Manuel Moreira lamenta que "se fale muito de valores europeus", quando há estados-membros que não só não têm evoluído, como tem regredido em assuntos LGBTI, como é o caso da Hungria e Polónia.

"O caso da Hungria é muito flagrante porque aprovou agora uma lei que até incentiva as pessoas a denunciarem famílias homoparentais e a denunciarem pessoas que sejam homossexuais. Isso é gravíssimo. E, portanto, eu acho que devíamos todos nós, de alguma forma, exigir que façam pressão junto da União Europeia para que este tipo e comportamentos seja penalizado. Não é compatível fazer parte desta família que é a União Europeia que fala tanto sobre os valores da igualdade e da diversidade e depois andar a fazer uma caça às bruxas a uma parte da população."

Posição da igreja. Há "um ligeiro avanço" com Francisco

Manuel Moreira diz ser "não crente e não católico", assumindo que as opiniões da igreja relativamente à orientação sexual de cada um, "são um bocado indiferentes". Ainda assim, questionado sobre se considera que a igreja será sempre conservadora e relutante, ou se vê sinais de mudança, por exemplo, nas declarações do Papa Francisco, o ator considera que aquilo que por vezes parecem ser avanços, facilmente se tornam novamente em recuos.

"Acho que tem havido às vezes um ligeiro avanço, sobretudo com este Papa, que é um bocadinho mais aberto em relação a algumas coisas, mas é um bocadinho uma no cravo e outra na ferradura. Dá com uma mão e tira com a outra", entende o ator, que defende que esta é "uma luta que tem de ser feita dentro da igreja, com pessoas da igreja".

"Eu desconfio que algumas das posições que a Igreja tem hoje não correspondem àquilo que a maior parte dos católicos, hoje em dia, pensam, que já são um bocado mais livres e já escolhem um bocadinho que preceitos da Igreja levar tão a peito ou não", conclui.

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