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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​A Irlanda do Norte à beira de uma crise

04 mai, 2022 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O Sinn Féin, que foi o braço político do IRA e do seu terrorismo, tornou-se um partido democrático e poderá vencer as eleições na Irlanda do Norte. Se tal acontecer, receia-se a reação dos protestantes pró-britânicos.

A Irlanda é uma ilha onde existem duas entidades políticas: a República da Irlanda, que ocupa cinco sextos do território, e a Irlanda do Norte (Ulster), que faz parte do Reino Unido.

Na quinta-feira, dia 5, realizam-se eleições na Irlanda do Norte, que poderão trazer novidades ao território. Acontece que as sondagens apontam para uma vitória do Sinn Féin.

Ora, este partido foi durante décadas o braço político do Exército Republicano Irlandês (IRA), uma organização terrorista.

Com o acordo de 1998 entre protestantes e católicos o Ulster passou a ter autonomia política. Assim se pôs fim a uma sucessão de sangrentos conflitos, opondo protestantes partidários de permanecerem no Reino Unido aos católicos, muitos dos quais gostariam de se juntar à República da Irlanda.

O governo do Ulster é chefiado pelo partido mais votado e o segundo indica o vice-primeiro ministro. Ou seja, o governo do Ulster depende de uma colaboração entre protestantes e católicos, o que nem sempre tem sido possível assegurar.

O Sinn Féin renunciou ao terrorismo e tornou-se um partido democrático. No Ulster o Sinn Féin não esconde defender a integração na República da Irlanda.

Na República da Irlanda, o Sinn Féin foi mesmo o partido mais votado nas eleições de 2020. No Ulster as eleições de 2017 foram ganhas pelo partido pró-britânico DUP (Partido Unionista Democrático), com o Sinn Féin a curta distância.

O Brexit veio complicar as coisas no Ulster. O DUP não aceita a fórmula encontrada para continuar aberta a fronteira com a República da Irlanda. O acordo do Reino Unido com a UE foi manter o Ulster na união aduaneira europeia, de maneira a não fechar a fronteira terrestre entre o Ulster a e República da Irlanda, país membro da UE.

O problema, para os pró-Reino Unido, é que assim se cria uma fronteira virtual, no mar, entre o Ulster e a Grã-Bretanha, de modo a evitar que as mercadorias britânicas entrem livremente no espaço da UE, ou seja, na República. A fronteira virtual limita a sensação dos pró-britânicos do Ulster de que fazem parte do Reino Unido.

Manter aberta a fronteira com a República da Irlanda foi um compromisso do acordo de 1998. Se tal promessa não for respeitada, abre-se a possibilidade de um regresso aos confrontos entre protestantes e católicos, o que seria trágico.

Por outro lado, o DUP não disse se aceitará fazer parte de um governo chefiado pelo Sinn Féin, que indicaria o primeiro-ministro, caso se confirme a vitória eleitoral deste partido.

Mais uma consequência do Brexit, cujos promotores não previram.

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