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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Crise na OPEP

09 jul, 2021 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Os Emiratos Árabes Unidos desentenderam-se com a Arábia Saudita na OPEP. O que traz mais incerteza política no Médio Oriente e maior volatilidade no preço do petróleo bruto.

Desde maio que os combustíveis têm vindo a subir em Portugal, que é o sexto país da UE onde a gasolina e o gasóleo são mais caros.

Como é sabido, mais de metade do custo desses combustíveis vai para impostos, mas a evolução do preço do petróleo contribui naturalmente para aquilo que o consumidor paga.

Ora, as incertezas sobre o preço do petróleo bruto (“crude”) aumentaram nos últimos dias, pois está aberta uma crise na OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), o “cartel” dos produtores.

Os Emiratos Árabes Unidos (EAU) desentenderam-se com a Arábia Saudita, o tradicional líder da OPEP.

Na primavera do ano passado os países do cartel, aos quais se juntou a Rússia, decidiram realizar cortes na sua produção para subir o preço do “crude”, que tinha descido abaixo de 30 dólares o barril, em boa parte por causa do Covid-19 e das suas consequências na atividade económica.

Os cortes resultaram em subidas do preço do “crude”, com o barril de “brent” a aproximar-se dos 80 dólares, para o que contribuiu também o início de alguma recuperação económica mundial pós-pandemia.

A maioria dos países da OPEP e a Rússia queriam, agora, produzir mais, travando a alta dos preços do “crude”, pois recearam que um preço demasiado elevado acelerasse no mercado global a substituição de petróleo por energias alternativas menos poluidoras.

Mas os EAU condicionaram o seu apoio à medida proposta; os EAU exigiram uma revisão da quota de produção que lhes cabe na OPEP, que consideram ultrapassada. De facto, os EAU desde 2018 investiram muito no aumento da sua capacidade de produção petrolífera e pretendem que esse aumento seja reconhecido na distribuição de quotas.

A Arábia Saudita não cedeu à exigência dos EAU. Talvez se obtenha um compromisso nas próximas semanas. Mas este inédito conflito faz antever um aumento na volatilidade do preço do “crude”.

Os produtores petrolíferos enfrentam um desafio de resposta difícil: pretendem extrair mais petróleo agora, para investirem na diversificação das suas economias, antes de a procura mundial de “crude” começar a baixar, como sabem que inevitavelmente irá acontecer a longo prazo.

A essa dificuldade acrescem motivações políticas. Os EAU tradicionalmente seguiam a liderança saudita.

Mas em 2019 os EAU deixaram de acompanhar a Arábia Saudita na sangrenta guerra civil no Iémen.

E depois disso chegaram a um entendimento com Israel, que não caiu bem em Riade, a capital saudita.

É possível que a liderança árabe da Arábia Saudita também tenha sido afetada pelo comportamento tirânico e brutal do líder saudita Bin Salman – o qual, por exemplo, não podia desconhecer (se é que não partiu dele a ordem para matar) o bárbaro assassinato de um jornalista, Khashoggi, no consulado da Arábia Saudita em Istambul, há quase dois anos. De qualquer forma, tudo indica que do Médio Oriente virão mais motivos de preocupação – e talvez não apenas ligados ao petróleo.

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