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Inteligência Artificial. "Se regulamentar em excesso, Europa poderá perder mais um boom tecnológico"

24 nov, 2023 • José Pedro Frazão


A importância da regulação da Inteligência Artificial foi debatida na última Web Summit em diversos painéis. James Ball, repórter de investigação e especialista em temas que cruzam a tecnologia e a política, alertou para os riscos e méritos da abordagem dos reguladores neste domínio.

Os reguladores da Inteligência Artificial (AI) estão a sofrer as dores de terem agido tarde demais no domínio das redes sociais. A opinião é de James Ball, jornalista britânico de investigação que reflete sobre temas de tecnologia, política e sociedade e foi deixada num painel sobre regulação da AI na edição deste ano da Web Summit. O repórter considera que existe um consenso em torno da intervenção preventiva dos reguladores em matéria de Inteligência Artificial.

"As pessoas tendem a concordar que os reguladores entraram em cena muito mais cedo. E isso é algo positiva face à perspetiva de terem que reagir exageradamente mais tarde. Estão a sofrer os danos potenciais da subregulamentação durante a primeira década daquela que é uma tecnologia potencialmente muito mais impactante", sugere o antigo editor do "Bureau of Investigative Journalism".

Numa conversa com Jillian Deutsch, correspondente da Bloomberg em Bruxelas, o jornalista assinalou o aumento dos gastos com "lobbying" na área da IA em Bruxelas - "está na casa dos biliões" - e detetou uma tendência para a regulação dirigida aos utilizadores destas tecnologias.

"No contexto dos EUA, as pessoas respondem que não regulamentam os fabricantes de armas, mas tornam ilegal disparar sobre alguém. E ainda assim, o sonho dos especialistas em desenho regulatório é sempre regular o menor número de pessoas que têm o maior impacto", explicou na Web Summit em Lisboa.

O risco pode ser contornado

A abordagem europeia baseada em graus de risco das aplicações foi também debatida no painel, com James Ball a sublinhar que há formas de contornar as regras europeias. "Assim que introduzir um IA generativo e potencialmente generalizável, pode desenvolver-se um modelo de código aberto destinado a uso de baixo risco e depois encontrar outra organização que possa ajustá-lo para alto risco", avisa o repórter britânico.

James Ball sustenta que a União Europeia está a tentar um "equilíbrio bastante difícil" entre uma abordagem dura dos políticos em relação à tecnologia e a " enorme consciência" entre os estados-membros da UE de que "a Europa perdeu os dois últimos booms tecnológicos e que se regulamentarem excessivamente agora, perderão outro. E aquele que penso com bons fundamentos, as pessoas pensam que poderia ser o mais valioso".

A pista britânica

Dentro da Europa, mas fora da União, Ball aplaude a convocação pelo Reino Unido de uma conferência de dois dias para debater a Inteligência Artificial, realizada no início de Novembro. Ball disse ter conversado com alguns participantes que descreveram o estabelecimento de "algumas conversas genuinamente bastante úteis" e em que os oradores "se desviaram das posições públicas e realmente pareceram ouvir um pouco".

James Ball diz que a cimeira mostra que o Reino Unido ainda mantém uma influente capacidade de organizar discussões importantes numa estrutura de reuniões "que está um pouco fora do bloco da UE ou do bloco dos EUA".

"A convocatória de uma cimeira por Sunak é provavelmente uma boa abordagem para debater uma ampla gama de divergências sobre como regulamentar a IA, com os 'aceleracionistas totais' - que acham que até falar sobre regulamentação é imoral - versus as pessoas que acham que deveríamos parar todo o desenvolvimento geral de IA", concluiu o antigo repórter do Guardian e do Washington Post, que também trabalhou no projeto Wikileaks.

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