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Miguel Simões Correia
Opinião de Miguel Simões Correia
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As crianças destroem carreiras?

26 mar, 2024 • Miguel Simões Correia • Opinião de Miguel Simões Correia


“Sim, as minhas filhas destruíram a minha carreira. Adoro-as, mas impediram que eu chegasse ao estrelato pop. Irrita-me que digam que se pode ter tudo, porque não é verdade”, afirmou há dias a cantora Lily Allen num podcast de uma revista britânica. A cantora parece querer, apenas, referir-se à impossibilidade de conciliar a vida familiar com a carreira profissional, bem como expressar a sua frustração relativamente àqueles que afirmam o contrário. Porém, teria de o fazer de outra forma.

Parece-me absolutamente justificado que a cantora em causa use a visibilidade que tem para chamar a atenção de quem a ouve para a questão da conciliação da maternidade com a carreira. Ainda há muito a fazer na proteção da parentalidade, sobretudo em matéria de apoios e garantias à maternidade e repartição de tarefas ligadas à parentalidade, no seio do casal. Não discuto isso de forma nenhuma, bem pelo contrário, subscrevo a crítica. Talvez num olhar mais apressado, a frase com que começámos seja só sobre isto.

Porém, parece-me que esta afirmação vai mais longe e peca, tanto na matéria quanto na forma/contexto. Por um lado, não creio que seja correto afirmar que são as crianças quem destrói a carreira da mãe. Por outro, acredito que qualquer adulto deve a qualquer criança um cuidado que é incompatível com a violência ínsita a esta frase, dita neste contexto.

1. Não são as crianças quem destrói a carreira da mãe

Comecemos pela questão de fundo. Correndo o risco de cair no ridículo, dada a evidência desta constatação, parece-me importante recordar que as crianças não escolhem a altura em que nascem, nem têm qualquer papel na própria conceção e consequente nascimento. Só o facto de não terem liberdade para tal bastaria para recusar a qualquer adulto a possibilidade de dizer: “as minhas filhas destruíram a minha carreira”. Mais ainda, o facto do nascimento se dever a comportamentos dos pais afasta, em absoluto, a legitimidade dos mesmos para proferir a referida acusação.

Parece-me possível estabelecer uma analogia entre esta situação e uma outra em que uma criança chutasse uma bola que partisse uma janela. Não tenho qualquer dúvida de que os pais desta criança, face a esse cenário, recusariam categoricamente a culpa da bola. A bola não carrega a culpa de estilhaçar um vidro – porque não tem liberdade nem vontade, presumo eu – mas o nascituro já pode carregar a culpa de estilhaçar uma carreira. Estranhamente, os pais saem sempre livres de qualquer culpa.

Passada esta dimensão "lapalissiana" – pelos vistos, ainda necessária –, parece-me importante que se possa endereçar a questão que a cantora presumivelmente queria destacar. Quando se critica a dificuldade de conciliar a carreira e a maternidade, é frequente, e natural, que se aponte várias questões culturais, sociais, económicas ou políticas que funcionam como obstáculos a um bom equilíbrio. Muitas vezes, os obstáculos apontados são a falta de recursos ou de apoios na parentalidade, ou a visão social de que as mães devem abdicar mais das suas carreiras. Ao afirmar a culpa das crianças, não estaríamos a tirar força ao argumento de que são estas as causas que obstam à referida conciliação? Consequentemente, não estaremos a pôr em causa o caminho feito na melhoria destas condições?

Parece-me, então, que esta afirmação, além de falsa e injusta, é contraprodutiva numa luta muitíssimo válida, desviando o foco dos verdadeiros problemas para o pôr em crianças (inocentes).

2. Que cuidado devem os adultos às (suas) crianças?

Numa análise da forma e contexto, não choca menos a frase em questão. Mesmo que a culpa fosse das crianças – o que, como vimos, não é o caso – não deve uma mãe cuidar a forma como fala das suas crianças e às suas crianças?

Em primeiro lugar há, nesta frase, um potencial destruidor enorme para a autoestima destas crianças. Quão devastador será o sentimento de culpa gerado na criança supostamente responsável por destruir a carreira daquela que é, provavelmente, a sua maior figura de referência?

Acredito que mesmo que as filhas fossem adultas, tendo presumivelmente mais maturidade, teriam dificuldade em olhar para esta frase como apenas uma crítica social à falta de apoios à maternidade. Por maioria de razão, crianças (ou jovens) sem essa maturidade – de 11 e 13 anos, como é o caso – não têm essa capacidade. Torna-se sobretudo duro para estas crianças, porque além de não terem os mecanismos para lidar com esta culpa, não terão, certamente, capacidade para perceber o que fizeram de mal, uma vez que não fizeram nada de mal.

É mau que uma mãe acuse as suas próprias filhas de algo que não é verdade, algo em relação ao qual elas não têm culpa nenhuma, algo que lhes traz um enorme e injusto sentimento de culpa. Porém, pior ainda é fazer tudo isto publicamente.

Estas crianças têm colegas na escola ou atividades extracurriculares que certamente viram esta manchete, podendo ter confrontado as filhas da cantora, até com alguma ingenuidade. “Porque é que destruíste a carreira da tua mãe?”; “Como é que a tua mãe continua a gostar de ti depois de teres destruído a carreira dela?” poderão ter sido algumas das perguntas com as quais foram confrontadas.

Assim, uma frase que parecia ser uma afirmação poderosa de defesa dos direitos das mulheres, esconde uma acusação injusta e violentíssima dirigida a duas crianças, ainda que não tenha sido proferida com essa intenção.

Uma frase que violenta (duas) crianças, desta forma, é sempre inaceitável. As crianças não destroem carreiras.


Miguel Simões Correia é jurista. Integra o Serviço de Proteção e Cuidado dos Jesuítas e coordena o Serviço de Cuidado Integral das Doroteias. É presidente da associação Candeia, que acompanha crianças e jovens em acolhimento residencial, e responsável pelo projeto Amigos p’ra Vida.

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