A Guerra Ali Ao Lado
"A guerra ali ao lado" é um podcast Renascença, em três episódios, que olha a partir da Alemanha para a invasão russa da Ucrânia e aprofunda as consequências políticas, sociais e económicas de uma guerra que gerou ondas de choque na Europa e no mundo.
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A guerra ali ao lado: "Não podemos estar sempre a chorar" (episódio 1)

Podcast "A guerra ali ao lado"

"Não podemos estar sempre a chorar"

01 fev, 2024 • Guilherme Correia da Silva (jornalista) e André Peralta (sonorização)


A invasão russa da Ucrânia foi um choque. Um ataque a outro país em pleno século XXI? Foi um banho de realidade para Berlim, que tinha boas relações com Moscovo. Mudou tudo. A "fantasia alemã" sobre Putin terminou. Um milhão de refugiados ucranianos na Alemanha espera agora o fim da guerra. No mês em que se completam dois anos desde o início da invasão russa, lançamos o podcast "A guerra ali ao lado", em três episódios.

A guerra não fica muito longe da Alemanha. De Berlim a Kiev são pouco mais de 15 horas de carro. E os bombardeamentos russos, a 24 de fevereiro de 2022, fizeram estremecer o governo federal de Olaf Scholz.

A Alemanha tinha boas ligações com Moscovo, o gás e o petróleo russos alimentavam a maior economia europeia. A Rússia era a "estrela polar" de Berlim na Europa de Leste. Mas a "guerra de Putin" - como Scholz lhe chamou - pôs fim a isso tudo.

O portão para Moscovo está fechado.

Mais de um milhão de ucranianos procurou refúgio na Alemanha e acompanham com inquietação as notícias no seu país. "As pessoas estão num grande stress e numa grande depressão", conta Oleksii Nazarenko, um refugiado ucraniano a viver na cidade de Bona, no oeste da Alemanha.

"Mas não podemos estar sempre a chorar. Temos de fazer alguma coisa."

Este é um podcast Renascença, em três episódios, sobre as consequências políticas, sociais e económicas de uma guerra que gerou ondas de choque na Alemanha, na Europa e no mundo.


Ouça também:
Episódio 2 - O verde tem muitos tons
Episódio 3 - Amigos e inimigos
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Transcrição integral do episódio 1


Excerto da reunião do Conselho de Segurança da ONU (23.02.2022): "President in Russian: I wish to warmly welcome the Secretary-General, His Excellency Mr. António Guterres, to whom I now give the floor…"

Foi um último apelo de António Guterres nas Nações Unidas. Era de noite e o Conselho de Segurança reuniu de emergência para discutir a escalada de tensões na fronteira entre a Rússia e a Ucrânia. Guterres foi o primeiro a falar, depois do presidente do Conselho abrir a reunião.

António Guterres: "Hoje foi um dia em que houve muitos rumores e indicações de que está iminente uma ofensiva contra a Ucrânia. No passado recente, houve indicações e rumores semelhantes, mas nunca acreditei neles. Estava errado."

Há meses que as tropas russas se concentravam junto à fronteira ucraniana. Dias antes, Moscovo reconhecera a independência das regiões separatistas de Donetsk e Luhansk. E pairava no ar a ameaça de uma invasão russa da Ucrânia.

No Conselho de Segurança, o secretário-geral das Nações Unidas olhou diretamente para a câmara que o estava a filmar e fez um pedido ao presidente russo:

António Guterres: "Se há, de facto, uma operação que está a ser preparada, só tenho uma coisa a dizer, do fundo do coração: Presidente Putin, impeça as suas tropas de atacarem a Ucrânia. Dê uma oportunidade à paz. Já morreram demasiadas pessoas."

Pouco depois, a meio da reunião do Conselho de Segurança, Vladimir Putin apareceu na televisão a anunciar uma "operação militar especial" na Ucrânia. A invasão russa começou a 24 de fevereiro de 2022.

Tetiana Nazaruk diz que acordou ao som das explosões por volta das cinco da manhã.

Tetiana Nazaruk: "Foi um estrondo enorme. Foi um barulho enorme. Ouvíamos tiros de artilharia e o estrondo das bombas. Pela janela, dava para ver os clarões dos bombardeamentos no céu. Pensei, wow! Liguei logo aos meus pais."

Tetiana Nazaruk tem 25 anos de idade; tem olhos verdes e cabelo longo. Ela estuda Economia na Alemanha, mas quando a guerra começou, em fevereiro de 2022, estava de férias em Vovchansk, uma pequena cidade no leste da Ucrânia, a menos de quatro quilómetros da fronteira com a Rússia. Foi visitar um dos melhores amigos.

Tetiana Nazaruk: "Nós falámos antes de eu ir. Ouvimos as notícias, mas não ligámos muito, porque há muitos anos que havia movimentações militares na fronteira. Não sabíamos…"

Esta é "A guerra ali ao lado", um podcast da Renascença sobre a invasão da Ucrânia da perspetiva da Alemanha. O meu nome é Guilherme Correia da Silva, sou jornalista e correspondente da Renascença na Alemanha. Este é o primeiro episódio do podcast: "Não podemos estar sempre a chorar".

A invasão russa da Ucrânia foi uma surpresa prevista.

A guerra propriamente dita começou oito anos antes, em 2014, depois de a Rússia anexar a península da Crimeia e depois de separatistas pró-russos ocuparem parte das regiões de Donetsk e Luhansk, no leste da Ucrânia.

Há muito que se falava na possibilidade de uma invasão russa, mas havia a convicção ou, pelo menos, a esperança de que esse cenário nunca se concretizasse.

Como Guterres, Tetiana Nazaruk não queria acreditar numa invasão de um país soberano em pleno século XXI. Nem ela queria acreditar, nem os pais dela.

Tetiana Nazaruk: "Com os bombardeamentos, fomos para a cave, que era o local mais seguro. Telefonei a toda a gente. Estavam todos chocados. A minha mãe contou-me que ia para um refúgio subterrâneo. O meu pai, que é militar, disse-me que ia para o quartel. Portanto, isto estava mesmo a acontecer."

Tetiana conta que, de onde estavam, em Vovchansk, na região de Kharkiv, ela e o amigo viram passar mais de 70 tanques russos. Os invasores montaram postos de controlo, espalhados pela cidade, e hastearam a bandeira da Rússia na praça central, numa esquadra da polícia. Foi uma "humilhação", diz Tetiana, e depois…

Tetiana Nazaruk: "… por volta das 11 da noite, quando nos fomos deitar, houve um forte bombardeamento. Houve uma explosão perto da nossa casa. Fragmentos de um míssil estilhaçaram as janelas. Atirei-me para o chão e protegi a cabeça com a minha mochila. Vi um pedaço de metal a passar por mim, ao lado da minha cabeça. Acho que se não me tivesse atirado para o chão, teria morrido."

Falo com Tetiana num parque, na cidade de Bona. Enquanto ela fala comigo, um grupo de jovens joga na relva; outros fazem jogging.

Tetiana diz que o que a salvou naquele dia do bombardeamento foi o que aprendeu seis anos antes num campo de treino, organizado pelo batalhão Azov, uma milícia ucraniana bastante polémica.

Tetiana Nazaruk: "Fui para um campo de treino durante a escola secundária. O meu pai estava no exército e disse-me que devia aprender aquelas coisas, porque nunca se sabe o que pode acontecer. E fomos para um campo de treino do Azov. Eu sei que há críticas em relação a esta organização…"

A Rússia chamou a esses campos "colónias de verão neo-nazis". Alguns membros do batalhão Azov foram considerados extremistas de direita. Nesses campos de treino participavam crianças e adolescentes, eram os chamados "Azovets". Mas Tetiana diz que o que aprendeu lá acabou por ser útil.

Tetiana Nazaruk: "Havia cursos para alunos sobre como se comportar com armas ou como agir em caso de explosões, o que foi bastante útil para mim. Ensinavam ainda primeiros socorros e o que fazer em caso de evacuação."

No início da invasão russa, Tetiana diz que ficou encurralada em Vovchansk, sem poder sair. A cidade, na frente leste da incursão russa, tornou-se uma ilha - estradas e pontes foram destruídas. Com os bombardeamentos, nem sempre havia eletricidade. Mas quando conseguiu carregar o telemóvel e teve um tracinho de bateria, Tetiana telefonou à mãe.

Tetiana Nazaruk: "E eu disse-lhe: Daqui a duas semanas, se eu estiver viva e continuar presa aqui, tens de avisar a Universidade em Bona que não vou poder ir, não vou poder…"

Na Alemanha, a notícia da guerra chegou à chancelaria federal por volta das 4h30 da manhã, hora de Berlim - 5h30 em Kiev.

Assim que soube, o chanceler Olaf Scholz falou por telefone com o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. O porta-voz do Governo alemão, Steffen Hebestreit, contou como foi esse dia em entrevista à emissora pública ZDF: de manhã, quando o gabinete de segurança se reuniu, o ambiente era pesado. As pessoas olhavam umas para as outras, com ar grave. O cenário que "há muito se temia" tinha acontecido.

Nesse dia, o chanceler Olaf Scholz falou à nação, na televisão.

Olaf Scholz: "Hoje é um dia terrível para a Ucrânia e um dia sombrio para a Europa. Estamos todos preocupados com a paz. E imagino as perguntas que faz esta noite…"

O que vai acontecer à Ucrânia? E o que fará a NATO? Vai começar uma terceira guerra mundial? Temos de fazer as malas? E os ucranianos, precisam de ajuda? Que ajuda?

Olaf Scholz: "A duas horas de Berlim, de avião, há famílias que estão neste momento em abrigos antiaéreos. Mulheres, homens e crianças temem pelas suas vidas. […] Esta é uma guerra de Putin. Reitero enfaticamente o meu apelo ao presidente Putin para parar com as hostilidades e retirar as tropas russas da Ucrânia."

Até hoje, Putin não dá ouvidos a esse apelo. O presidente russo insiste no que chama de "desnazificação" da Ucrânia e quer travar a expansão da NATO.

Escritório "Flüchtlingshilfe Bonn": "Flüchtlingshilfe Bonn, hier ist Maria. Guten Morgen, wer ist denn da?"

Vou até ao escritório da "Flüchtlingshilfe Bonn", uma organização não-governamental que ajuda refugiados a integrarem-se na Alemanha. A nossa entrevistada, Nadja Müller de Ossio, está ao telefone e aguardamos numa sala à parte.

Pela janela, dá para ver a estação de comboios, do outro lado da rua: há o rebuliço habitual, passageiros que esperam nas plataformas, comboios a entrar e a sair… Aqui a Bona, chegaram mais de 4.000 refugiados ucranianos, desde que começou a guerra. Ao país, chegou mais de um milhão. A Alemanha foi quem acolheu mais refugiados ucranianos na União Europeia.

Nadja despede-se, o telefonema acabou.

Nadja Müller de Ossio: "Foi um choque total. A guerra na Ucrânia começou e o meu telefone começou a tocar permanentemente. Porque é fácil encontrar o meu número no Google. E enquanto eu atendia o telefone, deixavam mensagens. Foi uma loucura. Metade dos telefonemas era de pessoas de origem ucraniana ou que tinham ligações à Ucrânia e que queriam saber o que fazer e o que diz a lei, para acolher pessoas. A outra metade era de pessoas daqui de Bona que queriam ajudar."

Era demasiado cedo. As infraestruturas ainda não estavam montadas. Nadja conta que, nessas primeiras horas e dias, o que fez foi apontar os nomes de todas as pessoas que se voluntariaram para ajudar, sobretudo daqueles que falavam russo ou ucraniano. Mas Nadja diz que ficou até impressionada com a rapidez na resposta da cidade.

Nadja Müller de Ossio: "… como a cidade e todos os atores envolvidos conseguiram usar redes e estruturas criadas em 2015 e 2016 (durante a chamada "crise dos refugiados"). E como se conseguiu gerir a situação, em pouco tempo, porque é preciso acomodar e registar as pessoas, apoiá-las financeiramente ou, pelo menos, dar-lhes roupas e alimentação. Bona conseguiu lidar bem com essas questões, numa primeira instância."

Ao contrário dos refugiados sírios ou iraquianos de 2015 ou 2016, os refugiados ucranianos não precisam de pedir asilo na Alemanha: têm direito a ficar três meses no país, sem visto, e podem pedir de imediato autorização de residência. Podem trabalhar e podem receber benefícios.

A seguir à invasão da Ucrânia, houve, na Alemanha, uma grande onda de apoio aos ucranianos. Milhares de pessoas foram para as ruas protestar contra a guerra, houve campanhas de recolha de donativos, a bandeira ucraniana estava em todo o lado - em edifícios públicos e em muitas varandas.

Entre o milhão de refugiados ucranianos a viver na Alemanha, 79% está em habitações privadas. Conseguiram alojamento em casa de familiares que já viviam aqui ou de famílias alemãs que os acolheram. Ou então conseguiram, entretanto, arrendar.

Isso não é tarefa fácil, explica Nadja Müller de Ossio. Porque não há casas suficientes.

Nadja Müller de Ossio: "A questão das casas deixa-me furiosa. Completamente furiosa. Eu conheço refugiados ucranianos e de outras nacionalidades que têm de viver em alojamentos coletivos, porque não encontraram apartamento no mercado de arrendamento."

O problema também, diz a colaboradora da "Flüchtlingshilfe Bonn", é que se tornou ainda mais difícil para os refugiados de outros países arranjar casa.

Nadja Müller de Ossio: "De vez em quando, há senhorios que nos contactam e dizem que podem acolher refugiados, mas só refugiados ucranianos… O que respondemos é que a lista de espera de famílias que procuram casa e não vêm da Ucrânia é muito maior. Estão à espera há muito mais tempo, e não posso ajudar…"

É preciso construir mais casas. Urgentemente, diz Nadja.

Nadja Müller de Ossio: "Há realmente uma luta pela distribuição dos imóveis. É um barril de pólvora, do ponto de vista social."

O céu está nublado, mas não chove. Na praça principal de Bona, há uma festa ucraniana, com música tradicional.

Homens, mulheres e crianças vestem camisas ou túnicas brancas com ornamentos bordados a azul ou vermelho. São bordados típicos ucranianos, chamados "vyshyvankas". Uma das crianças usa na cabeça uma coroa de flores, enfeitada com fitas de cetim coloridas.

Ao ver a festa na praça, um casal que vai a passar pergunta se a música "é em romeno". Não, é ucraniano…

Oleksii Nazarenko: "Queremos mostrar às pessoas que a Ucrânia é mais do que a bandeira azul e amarela. Os ucranianos têm tradições, têm uma cultura muito rica."

Este tem sido o trabalho de Oleksii Nazarenko, o presidente da associação de ucranianos em Bona. A associação foi fundada em 1 abril de 2022, pouco mais de um mês depois do início da invasão russa.

Mas esta festa não é só para alemães - é também para os ucranianos a viver aqui, diz Oleksii. A festa serve para reforçar o espírito de comunidade, promover a entreajuda e - mais simples do que tudo isso - serve para as pessoas se divertirem e pensarem noutras coisas além da guerra.

Os ucranianos "não podem estar sempre a chorar", afirma Oleksii.

Oleksii Nazarenko: "As pessoas estão num grande stress e numa grande depressão. Às vezes, olhamos para as caras delas e estão a sorrir, mas não estão bem psicologicamente. Há mulheres que vieram sem os maridos, só vieram com os filhos… Foi muito difícil. Mas não podemos estar sempre a chorar, é verdade. Temos de fazer alguma coisa."

Oleksii conta que é de Sumy, uma cidade no nordeste da Ucrânia, a cerca de 30km da fronteira russa.

Oleksii Nazarenko: "Era a primeira grande 'pedra' no caminho do Exército russo. Portanto, às cinco horas da manhã, acordámos com o alerta dos mísseis."

Oleksii Nazarenko: "Saí de casa e vi que a guerra tinha começado. Vi os bombardeamentos, os clarões no céu em todo o lado. Foi… uma loucura. Ficámos um mês encurralados pelo exército russo, era impossível sair da cidade."

Oleksii tem três filhos, de cinco, oito e 11 anos de idade.

Oleksii Nazarenko: "É claro que estavam muitíssimo assustados. Não percebiam o que estava a acontecer, não sabiam o que fazer. Só choravam."

Ele diz que começou a ajudar na cidade, onde podia - distribuindo comida, distribuindo roupas, porque era Inverno e estavam temperaturas negativas… Mas em meados de março de 2022, assim que houve uma oportunidade, Oleksii e a família resolveram fugir.

Primeiro, para outra zona da Ucrânia. Fizeram-se à estrada com o carro cheio - cinco pessoas e toda a bagagem que conseguiam levar.

Oleksii Nazarenko: "Eles bombardearam a central elétrica. Não havia eletricidade, nem água, nem rede de telemóvel, nem internet. Estava muito frio e decidi proteger os meus filhos. E nessa noite, atravessámos a floresta, em direção a outra cidade, mas houve um novo bombardeamento…"

Sair da Ucrânia passou a ser o objetivo.

Oleksii pôde sair do país porque tem três filhos. É uma exceção prevista na lei marcial da Ucrânia. Ele já tinha estado na Alemanha e tinha conhecimentos aqui.

Agora, Oleksii está a aprender alemão. Nas horas vagas, coordena as atividades da associação de ucranianos em Bona.

Oleksii Nazarenko: "A minha filha mais nova está no infantário, o meu filho, que é o mais velho, está numa turma especial para crianças ucranianas. Mas a minha filha do meio está na escola primária, numa turma só com crianças alemãs. Não é fácil. Mesmo assim, estou contente, por poderem estudar numa escola normal e estar com outras crianças."

Oleksii interrompe a conversa e olha para o telemóvel. Ele lembra-se que hoje há uma aula aberta na universidade sobre a situação na Ucrânia e pergunta-me se quero ir até lá. É um minuto a pé.

Vamos a passo apressado. Chegamos ao auditório e a aula já vai a meio.

Na sala estão 30 ou 40 pessoas; alguém pergunta se a guerra na Ucrânia significou o fim da "fantasia" alemã em relação a Moscovo? Durante muitos anos, a Alemanha escolheu a Rússia como parceiro preferencial no Leste Europeu, sobretudo para fazer negócios.

O professor Martin Aust está no pódio a orientar a discussão e responde que sim - a guerra trouxe muitas mudanças. Não consigo falar com o professor depois da aula, mas telefono-lhe mais tarde…

Martin Aust: "A Rússia deixou de ser o único ponto de orientação da Alemanha na Europa de Leste. Olhando para a política, ainda há um grupo que olha sobretudo para a Rússia, seja no partido A Esquerda ou na AfD, mas há também um grupo, fortemente representado pelo partido Os Verdes, que está a olhar para a Ucrânia e para outros países europeus vizinhos, seja a Polónia, a República Checa ou até mesmo os países bálticos."

Martin Aust é diretor do departamento de História do Leste Europeu, na Universidade de Bona. A primeira vez que estivemos frente a frente foi numa matiné na Ópera de Bona, em novembro de 2022, com música e prosa de artistas ucranianos. Até se entoou o hino nacional da Ucrânia traduzido para alemão.

A primeira estrofe do hino diz o seguinte: "A glória e liberdade da Ucrânia ainda não pereceram".

O professor alemão Martin Aust explica que, na Alemanha, há um interesse cada vez maior por tudo o que seja ucraniano. Mas prevalece também uma imagem distorcida da Ucrânia, segundo Aust: o país continua a ser visto como uma ponte entre dois "mundos" - o Ocidente e o Oriente.

Martin Aust: "Essa é uma imagem que a Ucrânia tinha de si própria na década de 1990. Nessa altura, a Ucrânia reconheceu conscientemente que tinha heranças muito diferentes na sua história que a ligavam ao Ocidente, por um lado, e ao Oriente, por outro."

Isso foi logo depois da dissolução da União Soviética. Mas os tempos mudaram. Putin mudou tudo, a guerra mudou tudo. O portão para a Rússia fechou-se, para já. E a Ucrânia abriu as portas para a União Europeia, de par em par.

Martin Aust: "Com a anexação da Crimeia em 2014, com a guerra não declarada no Donbass, na altura, e com o ataque a toda a Ucrânia em 2022, a reação perfeitamente lógica da sociedade e da política ucraniana é dizer que agora também fazem parte do Ocidente. Pertencem à União Europeia. Isso é claríssimo."

Zelensky vê as coisas assim. Mesmo em plena guerra, o país corre a alta velocidade para entrar na União Europeia. Está a fazer uma série de reformas, tem combatido a corrupção, os oligarcas…

Volodymyr Zelensky: "A Ucrânia vai entrar na União Europeia. E vamos fazer isso transformando o nosso país - é uma transformação interna no absoluto interesse do nosso povo."

A jovem estudante Tetiana Nazaruk também vê as coisas dessa forma. A União Europeia é o futuro da Ucrânia, diz Tetiana.

Tetiana Nazaruk: "Não é uma ilusão. É possível. É difícil, mas é possível. É necessário fazer reformas para cumprir os critérios da União Europeia, mas isso está nas nossas próprias mãos. E, com a globalização, não podemos ser neutros como a Suíça. Nós não somos a Suíça. Com as ideias imperialistas e totalitárias que vemos na Rússia, mesmo ao nosso lado, é difícil ser neutro . Portanto, para nós só se coloca a questão da integração com o Ocidente democrático."

Com a guerra, essa vontade da Ucrânia também ficou mais clara para os alemães, afirma Tetiana.

Em março de 2022, ela conseguiu escapar da cidade onde estava, invadida pelos militares russos. Foi à boleia com um amigo de um amigo.

Tetiana Nazaruk: "Lembro-me de ver uma ponte completamente destruída. Na estrada, vimos veículos militares russos, em chamas. Vimos muitos cadáveres; era Inverno, havia neve e víamos o sangue."

De volta à Alemanha, Tetiana diz que não pensa em regressar ao seu país, para já. Ocupa-se com os estudos e com as atividades de uma associação de estudantes ucranianos. Além disso, viaja pela Europa. Esteve em Roma, em Bruxelas…

Tetiana Nazaruk: "Em primeiro lugar, tenho de sobreviver. Tenho de cuidar de mim - dormir bem, alimentar-me bem, fazer exercício físico - para depois ser produtiva e poder ajudar outras pessoas na Ucrânia. Depois de quase ser morta por aquele fragmento do míssil russo, percebi que tenho de sobreviver. E tenho de aproveitar a vida. Mesmo nos momentos mais difíceis, tenho de aproveitar a vida em vez de estar a sofrer e a chorar. Porque quero ser feliz, como uma pessoa normal."

Ao mesmo tempo, Tetiana nota na sociedade alemã um certo cansaço da guerra.

Tetiana Nazaruk: "As pessoas veem que há bastantes refugiados ucranianos, sofrem com as consequências da crise energética e olham para a ajuda militar e financeira à Ucrânia…"

O choque inicial deu lugar ao medo. Na Alemanha, houve reviravoltas políticas. É sobre isso que falamos no próximo episódio.


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