Opinião de Eunice Lourenço
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Notas da chamada “rentrée"

04 set, 2016 • Opinião de Eunice Lourenço


Passos Coelho não consegue sair da prisão em que se meteu, Assunção foi “atropelada” pelo ex-parceiro de coligação e Marcelo fez questão de se meter numa rentrée que ainda cheira a férias.

Já entrámos em Setembro, mas ainda faz um calor de Agosto, o povo – diz o Presidente – está distendido, ou mesmo ainda estendido à beira-mar, mas este fim-de-semana cumpriu-se uma parte desse ritual político a que chamamos “rentrée”. Passos Coelho encerrou a Universidade de Verão, Assunção Cristas fechou a Escola de Quadros e Jerónimo de Sousa fechou a Festa do Avante. O que fica, então, de um domingo cheio de discursos políticos?

1. Pedro Passos Coelho não consegue sair do seu próprio labirinto. O líder do PSD mostrou mais uma vez, como tinha acontecido há três semanas na Festa do Pontal, a sua incapacidade de dar a volta ao discurso. Não parece ter mais nada a dizer do que “isto vai correr mal, vai correr muito mal”, sem apresentar soluções, propostas, ideias.

Diz que não quer ser cúmplice da desgraça que anuncia, mas também diz que o PSD não deve ter pressa de voltar ao poder e que o mais importante é salvar Portugal. Mas se a desgraça é assim tão grande não devia ter pressa?

Passos já tinha avisado que não contem com ele para a aprovação do Orçamento do Estado, mas parece preparar-se para repetir o filme do Orçamento do Estado deste ano: não apresentar propostas. Ora, o líder da oposição, que é, ainda por cima e ao mesmo tempo, o líder do maior partido no Parlamento não pode não ter alternativas. As suas propostas vão ser rejeitadas? É provável, mas é assim que funciona a democracia. O PCP passou anos a fazer autênticos orçamentos alternativos.

2. Há diferenças entre Passos Coelho e Assunção Cristas. Sim, há. Na forma: ela é mais eficaz e menos chata do que ele. E no conteúdo: ela também optou por fazer um ataque cerrado às esquerdas, mas apresentou propostas. Podem ser irrealistas, mas mostram trabalho e que há modelos e opções diferentes.

3. Se havia dúvidas, este domingo mostrou a ruptura entre os anteriores parceiros de coligação governamental. Separados por mais de 200 quilómetros, Passos Coelho e Assunção Cristas tinham o encerramento das respectivas universidades previstos para o mesmo dia e por volta da mesma hora. Ainda assim, houve um esforço de coordenação que começou na quinta-feira para que não falassem ao mesmo tempo. O CDS, que tinha tomado a iniciativa de tentar um compromisso, estava avisado que Passos falaria, em Castelo de Vide, a partir das 12h45. Assunção decidiu, então, começar o seu discurso pelas 12h15. Mas, dez minutos depois de a líder do CDS começar, Passos Coelho subiu à tribuna de Castelo de Vide, “atropelando” a sua antiga ministra.

Assunção foi mediaticamente prejudicada, pois os três canais noticiosos mudaram, rapidamente, os directos da praia da Consolação para a vila alentejana e já não voltaram à Escola de Quadros do CDS. Dos directos de Assunção ficou apenas o seu ataque à “festança” da esquerda e nenhuma das suas propostas.

4. Jerónimo de Sousa continua igual a si próprio e está para ficar. O PCP diz do próximo Orçamento o que sempre disse de qualquer Orçamento: a decisão será determinada pelo conteúdo pois o PCP não passa um “cheque em branco”. Quer, como sempre, reposição de salários e aumento de pensões.

A haver problemas, a culpa será da Europa, como sempre foi. O PS só tem de escolher se cede à Europa ou aos comunistas. Como os socialistas – que só têm a sua “rentrée” no próximo fim-de-semana - continuam a considerar que é possível honrar os compromissos com ambos, metidos entre a espada e a parede, podem sempre tentar que a parede se mexa.

5. O Presidente não resiste. É superior às suas forças. Se os partidos falavam quase todos este domingo, Marcelo não podia ficar calado e, na sua Festa do Livro, falou para dizer que vivemos todos uma grande normalidade. A nível popular “há uma distensão” e quanto aos políticos faz parte do filme “haver alguma crispação”, disse o Presidente para quem “felizmente” há duas visões da política no imediato. Marcelo está, claramente, apostado em acabar com o ambiente pessimista e em dar mimo e esperança aos portugueses. Se isso implicar desvalorizar as críticas e os alertas feitos pelo CDS e o PSD, é lá problema deles.

Comentários
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  • joao
    06 set, 2016 lisboa 04:33
    Também o Dr. Medina Carreira era um profeta da desgraça , dizia sempre que isto ia correr mal , ninguém ligou e deu o estouro de 2011. Só espero, para bem de Portugal e dos portugueses, que o Passos Coelho esteja enganado...
  • Rui
    05 set, 2016 Lisboa 18:27
    Verdade, especialmente em relação ao PSD que é um vira o disco e toca o mesmo com especial incidência no apelo à desgraça de Portugal sendo que neste capítulo a cdcristas também não lhe fica atrás.
  • carmom
    05 set, 2016 FAMALICÃO 17:02
    Passos Coelho nunca foi brilhante em retórica,é triste por natureza, ou por saber melhor que ninguém o estado das finanças públicas.Em todo o caso não merecia as criticas que César lhe faz.Passos recebeu o pais com um programa forçado pela Troika e pedido por Sócrates,não fez tudo o que seria preciso,mas tentou.César ao não respeitar os militantes do PSD que o elegeram e os eleitores, que em maioria votaram nele para 1º ministro está a insultar-me a mim.O meu PR não devia desvalorizar os avisos vindos de economistas independentes,e, saber que não são os mais prejudicados que fazem protestos na rua.
  • Luis
    05 set, 2016 Lisboa 11:50
    PPC continua e continuará com o seu discurso ultrapassado, inconsequente e catastrofista, com a sua incapacidade de fazer oposição e com o seu total desnorte, destruindo o PSD, pois não pode ter outro discurso para além do que tem tido.Ter um discurso contrario e apresentar propostas contrarias às politicas que executou como 1ºMinistro seria um assumir de mea culpa do desastre que foi a sua governação.Já todo o mundo chegou há muito tempo a esta conclusão, excepto PPC e uma parte dos seus acólitos.Ele não vai desistir e vai manter-se como lider do PSD com a convicção de que Costa um dia vai cair e que com ele o PSD volta a ser governo.Que o Costa um dia vai cair está escrito nas estrelas Que caia nas próximas legislativas e que com isso o PSD volte a ser governo, "a ver vamos" como dizia o cego.Há uma coisa porem que é uma certeza, PSD pode e vai um dia ser governo mas nunca com PPC.Para bem do País PPC deveria ser corrido pois dentro do Partido já tem muito pouca gente com ele.Ou então a maioria dos militantes do PSD, que já não suportam PPC, deveriam criar um novo partido. Portugal precisa de um novo PSD,serio e credivel com gente capaz , competente, culta e honesta e não de um grupo de calaceiros que a unica coisa que sabem fazer é manisfestar desejos mal disfarçados confundindo-os com realidades e previsões nunca cumpridas.O PSD como partido da opisição custa muito dinheiro ao País.Sejam patriotas ou então retirem o penduricalho da lapela do casaco que só os envergonha.
  • Rafael Moura
    05 set, 2016 Europa 09:43
    Como sempre brilhante análise!