Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Aventuras do euro

22 jun, 2019 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A história do euro passou por muitas vicissitudes. E ainda falta completar a sua arquitetura, antes que ocorra uma crise.

O ainda presidente da Comissão Europeia, Claude Juncker, participou na reunião desta semana que juntou em Sintra banqueiros centrais e economistas prestigiados. Juncker pronunciou ali um interessante discurso, lembrando marcos da história da moeda única em que ele estivera presente em várias qualidades.

Um curioso antecedente do euro foi recordado por Juncker. Disse ele que o primeiro projeto de uma moeda única europeia foi o chamado plano Werner de 1970, que não chegou a ser concretizado. É um facto conhecido.

Menos referido é que, na altura, houve um impulso para avançar com a ideia: a decisão de Nixon, em 1971, de retirar o dólar do padrão ouro e de acabar com o regime de câmbios fixos, que funcionava desde o fim da II guerra mundial. Por outras palavras, agora que se sucedem as decisões unilaterais de Trump, o euro é mais necessário do que nunca.

Outro antecedente pouco conhecido, abordado por Juncker, foi a crise do mecanismo cambial europeu em 1990, que levou à traumática saída da libra desse mecanismo, desvalorizando fortemente. O Reino Unido já havia declarado que ficaria de fora da moeda única em gestação.

Ora, nessa altura, os ministros das Finanças da França e da Holanda defenderam a saída dos seus países do projeto da moeda única e do mecanismo cambial então em vigor. Quem os convenceu a não ir por aí terá sido… o ministro das Finanças do Reino Unido, Kenneth Clarke, um conservador europeísta, que afirmou: “Se deixam sair a Alemanha e a Holanda, nunca terão uma moeda única. Pessoalmente, gostaria que os meus netos pagassem um dia em euros”. K. Clarke era um estadista, algo que hoje escasseia em Londres.

Entretanto, foram alargadas as margens de flutuação cambial do mecanismo europeu. Comentou Juncker em Sintra: “no dia seguinte, todos os jornais e os académicos de topo escreveram que aquilo era o fim da moeda única, quando na realidade foi a sua salvação”.

O papel de Draghi

Juncker também chamou a atenção para que a Comissão Europeia tinha flexibilizado as regras orçamentais do euro para facilitar a recuperação económica de países como Portugal e Espanha. E não deixou de felicitar Mário Draghi, presidente do BCP até ao fim de outubro próximo, pelo seu papel decisivo na continuidade do euro.

Draghi tornou-se presidente do BCE em 2011. Nessa altura, a maioria das previsões apontava para uma política monetária rigidamente ortodoxa a ser seguida pelo BCE. O novo governador era italiano e na Alemanha (sobretudo no Bundesbank) predominava o receio da alegada falta de rigor financeiro dos italianos. Temia-se que Draghi, sabendo dessa suspeição, fosse ultra rígido.

Por isso foi surpreendente a solene declaração de Draghi, em agosto de 2012, de fazer tudo, mas tudo, para salvar o euro. Prometeu e cumpriu, apesar das reservas do Bundesbank e do seu governador, Weidmann – que, esperemos, não seja o sucessor de Draghi.

O BCE baixou juros e comprou vastos montantes de dívida pública, o que acalmou os mercados e fez baixar os juros da dívida. Para Portugal foi um precioso auxílio. Por isso justificou-se plenamente Draghi ter sido condecorado pelo Presidente Marcelo.

Draghi acentuou que o BCE irá continuar a seguir uma política monetária expansionista. Como o euro baixou um pouco a sua cotação face ao dólar, logo veio Trump queixar-se de concorrência desleal por parte da zona euro – o mesmo Trump que tem multiplicado críticas ao banco central americano, a Reserva Federal (Fed), por não baixar os juros (parece que a Fed o irá fazer em breve).

Para Trump o que conta é a balança comercial – um défice aí é considerado por ele como um roubo aos EUA. Não só o presidente americano tem uma visão económica do séc. XVIII (o mercantilismo) como parece querer regressar ás desvalorizações competitivas (se um país desvalorizava a sua moeda, logo outros o seguiam desvalorizando as suas), que tanto contribuíram para a Grande Depressão dos anos 30 do século passado.

A UEM não é só monetária

O problema atual é que, com as taxas de juro tão baixas, não há grande margem de atuação para a política monetária dos bancos centrais, como é o BCE. Como Draghi tem repetido vezes sem conta, é preciso que os governos da zona euro, que o podem fazer, concretizem uma política orçamental expansionista, para contrariar uma inflação que está persistentemente abaixo de 2% e o abrandamento da economia.

Nada há aqui de menos ortodoxo: o euro é uma face da UEM, isto é, da União Económica e Monetária. Mas, contra o que Jacques Delors avisava já há 20 anos, não há coordenação das políticas económicas dos países da zona euro. Países que têm as contas públicas equilibradas e grandes excedentes externos, como a Alemanha, recusam-se a aumentar significativamente os seus gastos públicos em investimento e a aumentar as importações, o que ajudaria os países endividados, como Portugal.

Houve progressos na arquitetura do euro. Mas a união bancária está atrasada. Falta um seguro de depósitos bancários à escala da zona euro. A Alemanha opõe-se e recomenda paciência.

Como lembrou Juncker em Sintra, o euro nunca foi um assunto puramente técnico ou económico. “É sobretudo um projeto político”. Mas tem que ser modernizado.

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