Opinião de Henrique Raposo
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Quer que o seu filho seja decente ou competitivo?

17 mai, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


Os empresários dos computadores e da internet foram moralmente ungidos apenas e só por causa do seu sucesso tecnológico. Foram transformados em profetas. É como se criar o iphone fosse um acto moral, e não apenas técnico e económico.

Se tivesse de escolher uma frase para descrever o nosso tempo, escolheria esta: a morte da empatia provocada pela internet só foi possível devido à destruição da gentileza enquanto valor social. Nesta última década, as redes sociais mataram a empatia porque já existia no subsolo um enorme rasto de destruição da comunhão ou da mesmo bondade, conceitos que implicam uma concepção plural e comunitária de felicidade. Desde os anos 60, o mainstream da esquerda e o mainstream da direita uniram-se para impor um individualismo árido que só aceita o “eu”, um “eu” enquanto ilha isolada do resto da família, da comunidade, da pátria, da humanidade.

À esquerda, o pós-modernismo destruiu qualquer narrativa colectiva (ex.: pátria, classe, família) e qualquer código ético ou religioso acima do “eu”. A bondade perdeu qualquer autoridade universal e intemporal e passou a ser um mero ponto de vista, isto é, cada um faz a sua própria concepção de bondade. Por sua vez, a direita que endeusa o mercado também impôs o relativismo do “eu”. Neste esquema mental libertário ou anarco-capitalista, o “eu” define-se por aquilo que conquista (salário) e compra no mercado. Só há quantidades. Esta amoralidade yuppie acabou por corromper um conceito-chave: o mérito. A valorização do mérito deixou de ser uma ferramenta e passou a ser um culto. Repare-se que não estou a pôr em causa a centralidade do mérito enquanto motor profissional e económico da sociedade. Não defendo sociedades de sangue azul. O indivíduo, seja qual for o seu berço, deve ter as oportunidades para prosseguir a sua carreira de acordo com a sua inteligência. Só que a inteligência não é sinónimo de decência. A inteligência, tal como a coragem, é uma capacidade mecânica, não é um valor moral por si só. O que me define como profissional não me define como pessoa, como pai, como amigo, como vizinho, como patriota, como ser humano. E julgo que se criou aqui uma enorme confusão conceptual. Basta ver como os empresários dos computadores e da internet foram moralmente ungidos apenas e só por causa do seu sucesso tecnológico. Foram transformados em profetas. É como se criar o iphone fosse um acto moral, e não apenas técnico e económico. A defesa do mérito não pode degenerar na imposição da "meritocracia" enquanto sinónimo de "exemplo moral".

No passado já remoto, esta confusão conceptual intrigava-me. Agora preocupa-me, porque sou pai. Eu quero que as minhas filhas sejam decentes antes de serem inteligentes e competitivas. Estou mais preocupado com a sua educação moral do que com a sua instrução escolar. Em vez de acompanhar os trabalhos de casa, prefiro ver ou ler com elas o Harry Potter, uma parábola moral para jovens. Quero formá-las como pessoas, não como intelectuais, executivas, advogadas ou professoras. Em vez de andar a treinar a tabuada, prefiro debater com elas as histórias da Bíblia ou dos filmes da Pixar. Sim, é verdade que projecto ambições académicas e profissionais nas minhas filhas. Claro que sim. Mas, se elas quiserem uma vida sem a chama do sucesso, não terei problemas em aceitar essa humildade. Não será uma desilusão. A desilusão só poderá nascer de falhas na muralha moral e familiar: agressividade cega, incapacidade para pedir desculpa, empatia escassa ou nula, descurar os avós, colocar a escapadinha low cost à frente das férias em família, a incapacidade para perceberem que tiveram sorte na vida. Que o Senhor me dê a força e a sabedoria para conseguir guiá-las pelo caminho certo. E, acima de tudo, que o Senhor me dê a coragem para resistir ao lado negro da minha cabeça que está a gritar neste preciso momento: o mundo é dos brutos, Henrique, e, portanto, tu estás a desarmar as tuas filhas quando insistes na tecla da decência; a bondade retira-lhes o escudo, o elmo e espada de que necessitam para vingar no mundo. Que o Senhor me dê coragem. É tudo o que peço.

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  • Vera Costa
    20 mai, 2019 03:15
    "A desilusão só poderá nascer de falhas na muralha moral e familiar: agressividade cega, incapacidade para pedir desculpa, empatia escassa ou nula, descurar os avós, colocar a escapadinha low cost à frente das férias em família, a incapacidade para perceberem que tiveram sorte na vida. Que o Senhor me dê a força e a sabedoria para conseguir guiá-las pelo caminho certo. E, acima de tudo, que o Senhor me dê a coragem para resistir ao lado negro da minha cabeça que está a gritar neste preciso momento: o mundo é dos brutos, Henrique, e, portanto, tu estás a desarmar as tuas filhas quando insistes na tecla da decência; a bondade retira-lhes o escudo, o elmo e espada de que necessitam para vingar no mundo. Que o Senhor me dê coragem. É tudo o que peço". Pois é Henrique Raposo, por um lado era bom que elas e eles (também), ignorassem certas coisas, para serem pessoas com valores; mas por outro lado, elas têm que saber defender-se, porque o mundo entortou um bocado! e não é 'in house' é 'outside' já não é tão esférico assim! dá ideia que lhe bateram e ficou com umas amolgadelas, faz-me lembrar o globo que os meus filhos têm em cima da secretária! sempre que vou limpar o pó, se bate em qualquer coisa! - Olha parece que se amachucou um bocado aqui no sítio dos 'estates'! Catrapum! -Outra vez? - Pois, olha agora foi aqui deste lado da China! -Tens que ter mais cuidado a limpar o pó, senão daqui a pouco, isso não tem jeito nenhum! E eu pergunto: Mas achas que ainda tem jeito? -Ah!...
  • Rodrigo
    17 mai, 2019 Zürich 21:31
    Adorei o seu artigo. Trabalho em corporações há 16 anos, vivo portanto diariamente no centro do mundo que descreve. Quando estou com os meus filhos sinto tanta necessidade de eles entenderem o valor intemporal da empatia pelo próximo e não endeusarem tecnologias e gadgets fúteis que não são mais do que brinquedos ou ferramentas de trabalho. Têm o mesmo valor espiritual que uma chave de fendas ou uma aparafusadora elétrica: não surgiram para mudar a humanidade surgiram para executar tarefas com menos esforço do que aquele despendido com a ferramenta da geração anterior. Fiquei muito contente de ver que afinal ainda há outros humanos que reparam !!! Votos de continuação de uma vida boa para sí e para a sua família
  • Paula Barradas
    17 mai, 2019 Elvas 18:09
    É tão bom saber que continua a haver gente que se orienta pelo Bem. Parabéns
  • João Lopes
    17 mai, 2019 10:05
    Magnífico artigo!