Opinião de Graça Franco
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Jornalismo a meia-haste

18 jan, 2019 • Opinião de Graça Franco


Atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto.

Temi que algum jornalista se oferecesse para partilhar a cadeia com Armando Vara, só para ver como este se sentia “já lá dentro”. A porta ia-se fechando, em câmara lenta, e o enxame de microfones não largava a presa. O ex-banqueiro em tempos já se tinha visto rodeado do mesmo lamentável espetáculo de câmaras a atropelarem-se, para esmolar o “soundbite” que permitiria abrir o jornal da noite desse dia com o vómito sorridente do seu imenso poder. Talvez Vara gostasse desse ataque, agora repetido, com as câmaras atraídas pelo cheiro da putrefação da dignidade perdida e da humilhação total.

Às 16 horas e 45 minutos “é o momento em que chega Armando Vara” para se dirigir “à cela do rés-do-chão, a mais próxima do guarda da ala, onde antes estavam dois outros detidos que acabaram por ser deslocados…”. Que interesse público existe nisto? Nenhum. Mas o relato prossegue indiferente ao facto de aquele nome corresponder, agora, apenas a um homem que, no seu compreensível sofrimento, precisava de mais caridade do que de publicidade. A exemplaridade na Justiça poucas vezes é “exemplar”.

“Era o momento aguardado por muitos jornalistas” dizia a repórter em direto. Não a critico. Escalada para o serviço, enregelada, certamente tão interessada no caso e nos pormenores como outro português qualquer, falava como se estivesse programada para desempenhar aquele papel. Tão esquecida, como todos os outros, do código deontológico que proíbe que se façam perguntas a pessoas que estejam perturbadas e incapazes da serenidade necessária à resposta (artigo 8.º “(…) o jornalista deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor”).

Vara saiu do carro, enquanto apertava nervoso o casaco, murmurava que aquele era “o pior momento” da sua vida. Não bastou para que ninguém lhe virasse as costas e desligasse as luzes para o deixar em paz nesse seu luto. Numa das TVs, passados aqueles penosos dez minutos, alguém teve a decisão peregrina de voltar ao princípio. “Vamos rever”… mais dez minutos de inglória.

Não tenho por Vara nenhuma simpatia (como já não tinha por Sócrates, que foi uma vitima de igual ou pior tratamento). Na Renascença uma única vez divulgámos a fonte que nos tinha manipulado. Dissemos o seu nome. Enfrentámos o poder de Vara, que na época já era muito, embora só fosse ainda um secretário de Estado responsável pela Segurança Rodoviária. Chamou-nos mentirosos e nós devolvemos o insulto e provámos quem afinal mentia.

Isto talvez bastasse para não nos interessarmos muito pela sua sorte agora. Mas não. O Armando Vara que foi preso é um Armando como nós, que de Vara já tem pouco.

Já lá vai. Sobretudo esta não é a hora para repisar o vencido.

O Cardeal Patriarca de Lisboa pediu esta semana, na abertura do ano judicial, honestidade aos jornalistas para que se evitem julgamentos precipitados, na praça pública, através da comunicação social. Em si mesmo, o pedido podia ter sido feito por qualquer outra personalidade presente na cerimónia. Marcelo formulou algo de muito semelhante, ao pedir que não se diabolizassem nem endeusassem alguns agentes da Justiça, nem se olhasse o andamento dos processos como quem segue eleições (aqui a indireta era para Joana Marques Vidal e Carlos Alexandre como potenciais endeusados…).

Acrescentou o Patriarca: a comunicação é um “grande bem”, mas “depende do sentido de Justiça que realmente se tenha, quer da parte de quem informa, quer da parte de quem recebe a informação”, pedindo aos jornalistas honestidade para que não deturpem factos, que não julguem “a priori”, “não recolhendo fraudulentamente os dados, nem os manipulando depois”.

Um recado que ia direitinho para uma reportagem da TVI, recém emitida, sobre a forma como a Igreja lida com a questão da sexualidade na sua versão homo. Independentemente do tema, o que chocou e enlutou boa parte da classe foi o uso e abuso de métodos a todos os títulos condenáveis pelos próprios códigos da profissão. Câmaras ocultas para filmar e gravar conversas com profissionais de saúde, grupos paroquiais de anónimos em busca de ajuda pastoral e, para cúmulo, uma conversa de direção espiritual entre um jovem supostamente católico e um padre. Nada que não pudesse revelar-se à luz do dia e com o conhecimento dos visados, não fora pretender-se embrulhar “o caso” num suposto “secretismo” inexistente. Aliás, a psicóloga visada aceitou até estar presente para debater posteriormente, em estúdio, o teor de uma reportagem que a filmara secretamente, sem que esta o soubesse.

D. Manuel insiste: “Para dar a cada um o que lhe é devido, a Justiça como virtude básica e como prática judicial tem de incidir particularmente na qualidade da comunicação, de que afinal todos somos agentes, ativos ou passivos. Para que em tudo se respeite a todos e ninguém saia lesado. Mesmo quando for preciso denunciar o mal – e infelizmente não faltam ocasiões para isso – tenhamos em conta que se trata de pessoas, que nunca perdem a dignidade essencial que as qualifica.”

Para cúmulo, esta semana a mesma TV reincide e, a propósito da defesa da qualificação como vitimas de violência doméstica de duas crianças, devassa-lhes a vida, volta a agredi-las de forma inadmissível. Revela os seus nomes e recorda-lhes as agressões que sofreram e que foram praticadas entre os seus progenitores, repete inclusivamente os insultos proferidos pelo pai contra a mãe, mas, como se isto não bastasse, permite ao agressor utilizar um dos menores, manipulando-o uma vez mais, para assumir a sua defesa em direto, no debate que se seguia na TV. E ninguém diz nada. E ninguém diz "Chega".

O ano judicial começa, em matéria comunicacional, numa semana (mais uma) triste para o jornalismo – que vive nesta espécie de morte lenta a que o condena a furiosa luta pelas audiências. É caso para dizer que, atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto. Com muitos de nós a mover-se, de olhos fechados, em bandos, titubeantes, como sombras de redações fantasmas.

Comentários
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  • António Barroso
    22 fev, 2019 Cartaxo 20:35
    Tenho estado muitas das conferências em que a Graça tem tido presença marcante, daí a minha admiração pela coerência do seu trabalho.
  • Maria Teresa Pereira
    27 jan, 2019 Lisboa 09:34
    excelente artigo. Graça, parabéns. É necessario voltar a haver principios éticos e respeito pela dignidade da pessoa em todas as circunstâncias
  • Amora de Bruegas
    22 jan, 2019 Torres Novas 21:18
    Interessante. Curioso o desabafo do Cardeal Patriarca, bem como do Marcelo moeda de duas caras. Não me recordo de alguma vez terem pedido aos jornalistas ou pseudo.historiadores, honestidade para que evitassem julgamentos precipitados na praça pública, através da comunicação social, de figuras do Estado Novo, muito mais honestas, competentes e tolerantes. Antes pelo contrário..., têm calado ou alinhado com o marxismo cultural, com a mentira, o ódio e a inveja de estalinstas, corruptos e outros que têm empobrecido Portugal. Até quando?
  • Teresa Ferrer Passos
    20 jan, 2019 Lisboa 18:01
    Alguns dos momentos televisivos dramáticos do nosso jornalismo foram apontados com argúcia pela Dr.ª Graça Franco, Directora de Informação da RR. Acho que este jornalismo-espectáculo está a desvirtuar a missão do jornalista e está, em simultâneo, a romper com princípios éticos que devia respeitar. Tudo isto e outros casos criam condições para um abandalhamento da sociedade, para a sua corrupção generalizada dos indivíduos.
  • Luísa Bessa
    20 jan, 2019 Porro 16:37
    Obrigada Graça Franco por dizeres o que poucos jornalistas no activo ousam dizer e menos ainda retirar as devidas ilações na sua prática.
  • Marco Almeida
    20 jan, 2019 Olhão 12:04
    Obrigado pelo texto excelente, hoje fez o meu dia melhor
  • Diogo Pinto
    20 jan, 2019 Cinfães 09:11
    Bom dia . Eu , como mediador de conflitos em contexto escolar , tive uma tarde de sábado ocupada por uma " disciplina " , justiça restaurativa , apresentada por uma doutora com muita experiência em casos de jovens e não só com problemas com á justiça . Então , á justiça restaurativa , tenta , porque não consegue , pelo menos em casos médio graves , dar uma oportunidade de inclusão ao agressor através de uma manifestação de solidariedade com á vitima do seu acto , consistindo numa explicação do seu comportamento transgressor . Até aqui tudo bem . Mas não se pode esquecer em que tipo de casos deve á justiça restaurativa ser posta em prática . Mas o que aqui me tráz é o comentário da igreja . Então alguém que usa uma falsa identidade , neste caso desonestidade , merece o mesmo respeito e tratamento que os outros . O sr. cardeal que me perdoe mas ele está completamente enganado . Bom dia !
  • cicero
    19 jan, 2019 lisboa 18:39
    Hoje em dia com a velocidade que a vida corre em todas as suas vertentes é impossível ao cidadão comum acompanhar tudo e todos e qem está realmente interessado em como se porta o governo, os outros governos,as noticias q contam da esfera básica quesao a economia,democracia e segurança não tem tempo para estas telenovelas noticiosas q descredibilizam qem as faz ,são alegadamente predadores e conhecimentos quase holísticos do mundo não têm.
  • Henrique Vila Forte
    19 jan, 2019 Algés 15:30
    Senhora Doutora: "Chega" é o termo adequado, que seja sempre uma sentinela atenta da vergonha do jornalismo, escrito, falado, etc. , que por aí se faz, de autêntica fossa mal cheirosa. Muito obrigado mais uma vez por colocar um ponto de ordem nesta vergonha. Haja quem, com mérito saber e competência, mostre que a nossa sociedade não deve ser a que teimam em fabricar, Senhora Directora. Vila Forte
  • Manuel da Silva Azev
    19 jan, 2019 Castelo da Maia 11:12
    Tenho lido os seus artigos, (penso que todos) e aprecio tanto os temas escolhidos pela sua actualidade, bem como aborda os mesmos. Contudo, (e desculpe-me se estou errado) ainda não li nada sobre sobre o caso dos e-mails, como do e-toupeira e de outros casos ligados a um clube, que se apelida como um exemplo de honestidade e transparência e que se vê acusado, de actos lesivos da ética e da verdade desportiva. Não para crucificar ninguém, não para julgar na praça pública ninguém, mas como jornalista, tomar uma posição deontológica sobre as repetidas abordagens sobre estes temas que nada dignificam a classe jornalística. A quase totalidade desses comentários, opinam que "se deve condenar o carteiro, mas não condenar o teor da carta". Então a divulgação dos referidos casos não são de interesse público? Os casos não um crime público? Os crimes públicos não são obrigados a ser divulgados sobre pena de serem punidos por lei? É sobre este atropelo jornalístico, que gostaria de ver um seu artigo. Peço mais uma vez desculpa se já abordou o assunto e eu por lapso não li, ou se estes assuntos não se enquadram nas escolhas dos seus artigos. Contudo, e por serem assuntos da actualidade, fico a aguardar algo soibre os mesmos.