Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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A ameaça externa italiana

02 nov, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A partir de Itália pode estar a caminho uma nova crise do euro, que muito prejudicial seria para a economia portuguesa.

Em outubro os preços no consumidor subiram 2,2% na zona euro – o máximo dos últimos seis anos (em Portugal a subida foi de apenas 1%). Pode julgar-se estranho ser aquela uma boa notícia, mas a grande ameaça da presente década não foi a inflação, mas o seu inverso, a deflação, uma descida continuada dos preços, descida que leva a adiar compras à espera de preços mais baixos, travando o crescimento económico.

O Japão foi o país mais afetado pela deflação; na Europa comunitária e nos EUA foi possível afastar essa ameaça, graças sobretudo às políticas monetárias expansionistas dos respetivos bancos centrais. Assim, no fim deste ano o BCE deverá terminar mesmo o seu programa “não convencional” de compra de títulos de dívida pública, que tanto ajudou Portugal.

Mas o abrandamento económico europeu, já previsto, confirma-se. Na zona euro o crescimento económico baixou para metade no terceiro trimestre do corrente ano. É a taxa de crescimento mais baixa desde 2014. E na Itália não houve qualquer crescimento nesse período. A estagnação económica é um dos argumentos do governo italiano para recusar as metas de redução do défice para 2019, antes acordadas com a Comissão Europeia. Só que, da parte italiana, não se vislumbram medidas credíveis de estímulo ao investimento empresarial.

Pode acontecer mesmo o contrário, ou seja, a economia italiana começar a cair. Se os mercados financeiros internacionais exigirem juros incomportáveis para comprarem dívida pública italiana, por desconfiaram que o governo populista de Roma não consiga atingir, sequer, o défice que apresenta no seu Orçamento para 2019 (2,4% do PIB, o que a Comissão recusa), essa dívida será classificada de “lixo” pelas agências de notação financeira. Ora, a Itália precisa de refinanciar 18 mil milhões de euros só no próximo ano. A dimensão da economia italiana – a terceira maior da zona euro – impede um resgate como aqueles que a Grécia, Portugal e a Irlanda foram alvo.

Por outro lado, se acontecer a queda no nível de “lixo” da dívida pública italiana (e porventura não estará longe disso), automaticamente o BCE retira financiamento aos bancos italianos, que possuem grande quantidade de títulos de dívida pública do seu país. Acresce que, mesmo sem tal cataclismo, a banca italiana necessita de ser recapitalizada. A probabilidade de falências bancárias em Itália aumentou perigosamente.

Ou seja, a partir de Itália pode estar a caminho uma nova crise do euro, que muito prejudicial seria para a economia portuguesa.

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