Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​Suspeitas incómodas

26 out, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


As últimas notícias sobre o escândalo de Tancos são incómodas para altas figuras do Estado. Mas só a justiça dirá aquilo que é verdade e o que não passa de mera especulação. Infelizmente, a justiça é lenta.

Noticiaram ontem os jornais “Público” e “Correio da Manhã” que o ex-chefe de gabinete do anterior ministro da Defesa, general Martins Pereira, afirmou ao Ministério Público ter informado Azeredo Lopes do memorando sobre Tancos que lhe fora entregue, há quase um ano, pelo então diretor da Polícia Judiciária Militar, coronel Luís Vieira. O general Martins Pereira estava a ser interrogado na qualidade de testemunha e entregou o seu telemóvel aos investigadores para perícia, de modo a confirmar as suas afirmações. Recorde-se que, segundo informações antes divulgadas, teria sido através de um telefonema que o ex-chefe de gabinete teria informado o seu então ministro da alegada encenação.

As anteriores declarações do general Martins Pereira (a primeira delas num comunicado enviado à agência Lusa) não iam tão longe. E também se diz que o célebre memorando, que só tem uma versão, já tornada pública, não entrou oficialmente no Ministério da Defesa, onde não existirão sinais dele. Mesmo assim, a última afirmação do ex-chefe de gabinete de Azeredo Lopes tem um apreciável grau de probabilidade de ser verdadeira. Numa declaração enviada à agência Lusa, Azeredo Lopes disse que “face às notícias de hoje (ontem) sobre o chamado caso de Tancos, contactei o DCIAP, tendo manifestado, com respeito pleno pela autonomia decisória da PGR [Procuradoria-Geral da República], a minha total e completa disponibilidade e interesse em ser ouvido pela investigação deste caso". O ex-ministro mantém que desconhecia a encenação do alegado reaparecimento das armas e munições presumidamente roubadas.

Claro que ninguém é culpado antes de ter sido condenado em sentença transitada em julgado. Mas as suspeitas nem por isso desaparecem entretanto do espaço público. E, como se compreende, não é com desmentidos dos eventuais visados que tais desconfianças se dissipam.

É uma situação incómoda para o ex-ministro Azeredo Lopes. Mas não só para ele. Se for confirmado que o ex-ministro sabia da encenação, é inevitável que se pergunte: o primeiro-ministro não saberia também? E o presidente da República, comandante supremo das Forças Armadas, poderia ter sido mantido em completa ignorância da tal encenação?

Apenas a justiça dirá aquilo que é verdade e o que não passa de mera especulação. Infelizmente, a justiça é lenta. Por isso o clima político na sociedade portuguesa atravessará um período desagradável. Mas não há alternativa.

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