Opinião de Henrique Raposo
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Os rapazes não podem ser pessoas

04 out, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


Quando uma menina cai, o impulso dos pais é levantá-la e dar-lhe mimo. Quando um menino cai, impulso é dizer, Então, pá, levanta-te! Isto mutila emocionalmente os rapazes desde o berço.

Estou com as miúdas num parque. Elas amarinham pela pirâmide de cordas acima. Recusando a odisseia, um rapaz fixa os pés no chão, tem medo e mostra-o. A mãe (repito: a mãe) não perde tempo e acede o rastilho de obus com milénios, És um homem ou és um maricas? Olha para estas meninas aqui, são mais fortes do que tu! Queres ser um homem ou queres ser um maricas? Isto não foi em 1950. Foi ontem. Fiquei a milímetros de lhe dizer, Olhe, minha cara colega de infortúnio, você não sabe o que está a fazer à cabeça do seu filho! Fui cobarde, calei-me.

À porta de uma escola, um rapaz está a chorar, está magoado no coração. Não no coração enquanto bomba hidráulica mas no coração enquanto metáfora emocional. Está a chorar. Procura consolo debaixo do braço da mãe. Ela porém dispara artilharia ainda mais antiga, Os meninos não choram! Desta vez fiquei a olhar, mas volto a não dizer nada. Fiquei a milímetros de lhe dizer, Olhe, minha cara colega de infortúnio, sabe o que dizem as pessoas que lidam com suicidas? O suicídio é sobretudo masculino, porque pais e mães continuam a educar o rapaz no pressuposto de que ele só deve ser meia pessoa, uma pessoa a metade do preço, uma pessoa incompleta e mutilada, uma pessoa que não tem direito a expressar e confessar a sua dor! Pensei mas calei-me. O problema porém é mesmo este: quando uma menina cai, o impulso dos pais é levantá-la e dar-lhe mimo. Quando um menino cai, impulso é dizer, Então, pá, levanta-te! Isto mutila emocionalmente os rapazes desde o berço. As meninas são educadas na misericórdia do Evangelho, mas a educação dos rapazes continua na caserna pagã. As meninas ficam com Lucas, os meninos com Leónidas.

Um menino que não chora é – em potência - um homem que se mata. É bom que pais e mães tenham consciência disto, até porque o suicídio de rapazes continua a subir. Portanto, se calhar, já é tempo de diluirmos Esparta com um pouco de Evangelho. Se calhar, já é tempo de percebermos que a sociedade de 2018 continua a sufocar os rapazes, continua a colocá-los num espartilho invisível, continua a colocar a sua masculinidade em guerra com a sua humanidade, continua a dizer-lhe que “ser homem” é ser metade de uma pessoa.

Comentários
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  • João Lopes
    10 out, 2018 Viseu 10:30
    Artigo interessante!
  • Miguel
    09 out, 2018 Lagos 11:44
    ...sim...é uma pena que estes episódios ainda se verifiquem...era normal na minha infância, anos 60, 70 do século passado...mas hoje? ..acho que, pior que isso, é que tenho a sensação que este fenómeno não só perdura, como está a crescer...acho que a sociedade portuguesa optou, não por uma linha comum nos países europeus do norte, mais homogénea e sem estes tiques de diferença de género, mas por uma linha ainda muito arreigada nos países sul-americanos e Estados Unidos, talvez pelo bombardeio que os mass media nos brindam...a democratização de uma "sociedade de não valor", descartável e altamente sugestionável pelas milhares de horas de televisão e afins, não produzem outro tipo de atitude!
  • Vera
    07 out, 2018 Palmela 13:17
    Pois, "a igreja serve para perdoar e não para condenar", eu sei! mas às vezes é preciso, não é bem o termo de 'condenar', mas sim 'chamar a atenção' daqueles que não estão no caminho certo, puxá-los para junto de nós e dizermos: ouve-me, porque eu quero o teu bem! isto é o tal "amor ao próximo", daquele que está próximo mas vive distante! - Não caminhes naquela rua que está toda esburacada! tens outra rua, onde até podes caminhar descalça, custa menos a percorrer... Eu não posso obrigar o outro a pisar o chão que eu piso, mas, custa-me ver que por teimosia ou falta de conhecimento, ela vai sacrificada por caminho incerto e leva com ela outros pelo mesmo caminho... O Papa Francisco, já pisou muitos caminhos que não lhe pertencem, mas este caminho de que eu estou aqui a falar, ele ainda não percorreu e tenho quase a certeza, de que nunca o vai percorrer! porque estes que percorrem este caminho 'esburacado' nunca foram convidados pelo Papa Francisco! Por quê??? não sei se me faço entender! mas creio, que alguém vai entender... Jesus falava muito, na 'casa de Seu Pai', quando se referia ao 'Templo'. Então ou existe um templo (igreja) ou escolhe-se um local em campo aberto, como Jesus fazia. Um verdadeiro cristão, segue tudo o que ELE fez. Bem Haja, Henrique Raposo! por este espaço, que chega para todos nós.
  • Vera
    06 out, 2018 Palmela 15:33
    "Portanto, se calhar, já é tempo de diluirmos Esparta com um pouco de Evangelho." Esta frase faz todo o sentido: quem conhece o que foi a educação (estúpida) de Esparta e quem conhece o Evangelho, sabe qual é a diferença! Se um homem chora, é porque é sensível a certas situações! eu disse um homem, não disse um rapaz, porque os homens também choram, não é um defeito! é feitio! não é falta de coragem, é sensibilidade! não é fraqueza, é bondade! também não é com meiguices que isso se cura! é fazê-los entender que as realidades são para ser enfrentadas! eu tenho por costume de dizer aos meus filhos: "temos que nos adaptar!" É com o Evangelho, é realmente com o Evangelho, que aprendemos a ter coragem, para suportar o que é difícil da vida... foi com o Evangelho que eu aprendi a não chorar! não foi com meiguices, nem com conversas pouco inteligentes... hoje, eu enfrento, procuro entender o porquê de certas situações e acabo por achar... "Se penso, logo existo"- René Descartes (a razão do ser...) Eu frisei 'O Evangelho' e agora veio me à ideia o filósofo francês? eu explico: antes de perceber 'Descartes', eu não percebia 'rien' do que vinha na Bíblia! encontrei 'Descartes' numa prateleira da biblioteca das 'Galveias' e a partir daí, ler os evangelhos foi muito fácil: estava tudo lá, tão transparente como a água! Os padres, são pessoas capazes de explicar aos outros...pelos estudos que tiveram! mas há pessoas por aí,que querem "ensinar a missa ao vigário"... são os que só riem!!!
  • Pedro Serra
    05 out, 2018 Odivelas 13:38
    Henrique, se publicar outra colectânea de crónicas, o título do livro deve ser "Deus, Pátria, Família". Apesar da provocação, não há título que resuma melhor o que escreveu nos últimos anos.
  • Elisabete
    04 out, 2018 Setúbal 17:14
    Meu caro Henrique!!! Calou, e calou mal!!! Sou mãe de menino, e sim menino chora e ri como as meninas. O mimo é bom para menino e menina. Penso até que mimo é o ponto central de um amadurecimento saudável. Somos nós pais que muitas vezes colocamos "minhocas" nas cabeças dos nossos FILHOS.