Opinião de Henrique Raposo
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Os botões da paternidade

21 set, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


Mesmo que a evolução da espécie tenha colocado a natureza masculina num ponto menos disponível para os filhos, isto não legitima o machismo e a clássica divisão de trabalho: ela, os filhos; ele, o trabalho fora de casa.

Botões. Como é que uma coisa tão pequena e tão dada à fofice pode irritar tanto uma pessoa? Explico-me: abotoar os botões da roupa das minhas filhas é uma daqueles misteres da paternidade que me põem a praguejar em pensamento. Os meus dedos gigantescos nem sequer conseguem agarrar naqueles minúsculos círculos.

Não, não é o elefante na loja de porcelana. É o elefante na loja de porcelana a tentar apanhar com a paquidérmica pata os pedaços da faiança que já partiu. Desisto quase sempre. Quando a mãe está, lanço o SOS. Quando a mãe não está, vão desabotoadas para a escola. Brincadeiras à parte, este é um daquelas momentos em que a tentação do machismo espreita. É um daqueles momentos em que sinto que isto dos filhos é para a natureza das mulheres, não para a natureza dos homens. Dura segundos, mas dura.

Será que os filhos são mesmo mais enquadráveis na natureza das mulheres? Será que a natureza dos homens é menos propensa para o cuidado da ninhada? Admito que sim. O cérebro dos homens pensa de forma diferente do cérebro das mulheres. É factual. Tal como me parece factual a capacidade que as mulheres têm para fazer mais tarefas ao mesmo tempo. Cuidar de crianças é fazer dez coisas em simultâneo e não apenas uma – algo que me parece mais natural para elas do que para eles. Contudo, nós, seres humanos, não somos a nossa natureza animal criada pela evolução. Somos outra loiça; loiça que parte menos. Ou seja, mesmo que a evolução da espécie tenha colocado a natureza masculina num ponto menos disponível para os filhos, isto não legitima o machismo e a clássica divisão de trabalho: ela, os filhos; ele, o trabalho fora de casa e chegar a casa às sete ou oito, ora essa!, já depois de banhos e jantares dados.

Nós não somos o nosso instinto, natureza ou “feitio”. Somos seres racionais com uma visão moral que se eleva acima da natureza. É isso que nos separa dos animais. Fazermos aquilo que não é natural é a base da civilização, da moral, até da beleza. O ballet, por exemplo, é duro, difícil e pouco intuitivo. É um treino, um mister que se pratica, tal como a paternidade.

Os homens não têm desculpa, porque precisamente são homens e não orangotangos. Admito que a paternidade é mais difícil e muitas vezes contrária à nossa natureza, mas isso não é álibi. Sim, para um homem é mais difícil abotoar um vestido de uma menina, mas isso não determina que as mulheres devem ficar com o monopólio dos botões. Determina, isso sim, um esforço e uma disciplina da parte do homem, do pai. Ou seja, implica amor. É esse amor que preenche o vazio entre o feitio e a decência, entre a natureza e o dever. Portanto, sejam homenzinhos e abotoem o mundo; o vosso mundo, pelo menos.

Comentários
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  • Vera
    22 set, 2018 Palmela 16:42
    É tão fácil um homem desabotoar botões de um vestido de senhora, então por que não, aprender a abotoar os botõezinhos do vestido da filhota! é uma questão de mentalidade, de carinho, de precisão. É mais natural a mãe tratar dos filhos/filhas, mas a mãe não tem que ser escrava da casa! quando é preciso, o homem deve ajudar no que for preciso, é um dever. Quem não quer cumprir obrigações, é melhor viver só! assim só limpa o que ele próprio suja e só arruma o que ele próprio desarruma.
  • Emanuel
    21 set, 2018 lisboa 14:46
    A transferência do poder eucuménico ocidental para a ONU não eucuménica,da instituição dos valores da europa e outros perderam-se na europa as suas raízes de fundação.Com modificaçao do mercado do trabalho ,do aparecimento de radicalismos ,instabilidade constante e negação da ciência por motivos políticos está a construir-se sociedade desadaptada.Segundo pressupostos e para não ter os problemas acima referidos que nao sao os mais onerosos e difíceis o mais racional é não ter filhos e assim a demografia vai estrondosamente decrescendo .
  • JOAQUIM S.F. SANTOS
    21 set, 2018 TOJAL 10:27
    Ao homem, Deus deu os dons por zelar pelo bem estar material da família, à mulher o amor de mãe, muito semelhante e próximo do amor de Deus. Residindo nestes dois pontos complementares um dos elos essenciais da família, a complementaridade entre homem e mulher. Nos tempos modernos a mulher masculinizou-se. Revoltou-se contra a sua condição de mulher, deixou as tarefas do lar, reduziu ou evitou a maternidade e procurou trabalho, mais por revolta da sua condição de mulher que por necessidade. Com esta revolta as condições sociais alteraram-se e a mulher passou a procurar trabalho por necessidade de equilibrar o orçamento familiar, com o detrimento da vida familiar de apoio aos filhos e aos pais. Hoje todos pagamos a factura.