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José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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A informação na época da pós-verdade

27 dez, 2017 • Opinião de José Miguel Sardica


Temos, por todo o mundo, uma comunicação social que, demasiadas vezes, procura “manipular a realidade”, recorrendo a “slogans fáceis” e a “rumores mediáticos inúteis”, daí resultando os seus maiores pecados: a “desinformação”, a “difamação” e o “sensacionalismo”.

Há pouco mais de uma semana, e em espírito natalício, o Papa Francisco produziu, no Vaticano, um discurso importante, na audiência concedida à União da Imprensa Periódica Italiana, retomando outras suas mensagens anteriores, como a divulgada em Maio último, para o Dia Mundial das Comunicações Sociais.

Entre a espuma e o ruído de que são feitos os (nossos) dias, a mensagem papal quase não foi notícia – e é pena, porque se tratou de uma bem lúcida e oportuna tomada de posição acerca do mundo das notícias e da comunicação social.

No que esta pode ter de pior – a voragem sensacionalista, a emotividade fácil, o boato, a calúnia, a destruição de reputações, o curso livre de pós-verdades e “fake news”, os agendamentos ocultos ou o servilismo perante o poder – 2017 foi pródigo, se calhar mais do que 2016, mas ainda assim menos do que poderá ser 2018. Não se trata de culpar apenas os jornalistas dos males que rodeiam e afectam a profissão de informar. Haveria muito a dizer, e não a despropósito, sobre o mundo dos meios de comunicação social, e como a concentração empresarial, a crise e o desinvestimento, a exiguidade das redacções, a promiscuidade com a política e a impreparação de muitos dos lançados nessa profissão afectam a qualidade da informação que temos e que consumimos. Sobretudo, a velocidade e fluidez dos tempos pós-modernos e a explosão incontrolada das redes sociais devem fazer-nos reflectir – a todos, cidadãos em geral e profissionais da comunicação social em particular – sobre a forma como a era da híper-informação não só não significa, hoje, maior esclarecimento ou conhecimento, como implica um enfraquecimento da função reflexiva e explicativa do jornalismo (como ele era classicamente entendido), e uma real ameaça à democracia (como modelo de organização política assente no debate civilizado).

Falando para a imprensa italiana, o Papa lembrou o que temos e explicou o que deveríamos ter. Temos, por todo o mundo, uma comunicação social que, demasiadas vezes, procura “manipular a realidade”, recorrendo a “slogans fáceis” e a “rumores mediáticos inúteis”, daí resultando os seus maiores pecados: a “desinformação”, a “difamação” e o “sensacionalismo”. Em vez disto, deveríamos ter, na opinião de Francisco, uma informação “livre”, “responsável”, “plural” e “crítica” – porque só essa garante “o crescimento de qualquer sociedade que se considere democrática”, através de um “debate baseado em dados reais e correctamente reproduzidos”.

Em sociedades civilizadas e educadas na tradição da liberdade, quem não concorda com isto? E contudo, ditaduras e fundamentalismos à parte (porque nesses a informação é propaganda a uma só causa ou acicate para silenciar a discordância), o clima noticioso das democracias anda pouco saudável. Falta “respiração mental” para um verdadeiro jornalismo de investigação, rigoroso, objectivo, imparcial, útil, em suma; e falta capacidade de discernimento e filtragem para uma informação diária que sublinhe o essencial, que renuncie ao acessório e que recuse o inútil. Toda a gente, hoje, munida das novas tecnologias, pode ser apologista de si mesma e do que bem entender, e insultadora de quem quer que pertença a outra bandeira, a outra causa, a outro clube, a outro partido. O ruído convida a mais ruído – e vencidos por ele, muitos mergulham num limbo de anomia, de passividade e de dormência amoral que entrega ainda mais o espaço mediático aos “berradores” de serviço. No final de um ano em que faltou muito “fact-checking” e razoabilidade de juízos na comunicação social, talvez valha a pena pensar nisto…

Comentários
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  • AMIM
    28 dez, 2017 Lisboa 14:00
    À partida a informação é inócua para a nossa vida quotidiana. Um escritor passa muito tempo a escrever para a gaveta, ou para qualquer outro sítio, indiferente ao que as massas julgam ou repetem da última pose da desvergonha ou ainda da vociferação dos fazedores de palpitações fáceis. Quando se chama pós-verdade ao indício já mais do que permanente, de há alguns anos atrás, da opinião poder ser veiculada sem recorrer a uma estrutura com sede e denominação social pretende-se com isso tentar cerrar os punhos na tentativa de mais uma vez pôr a coisa de a verdade ficar apenas só de um dos lados. Mas a informação não é aproveitada por todos da mesma forma e então produzida nem se fala, ou não ficasse patente que a difusão de informação não melhora como solução milagrosa, nem a condição física como ainda menos a disposição mental de cada um. Além disto, os que dirigem organizações de que dependem jornalistas e à posteriori os seus accionistas não podem compactuar com meias-verdades, indefinições e mentiras de auto-convencimento um terreno pantanoso todo ele de intolerância para com os seus bem reconhecidos interesses financeiros, que vêem fugir para a internet cheia de "free-service" dos blogs, alojadores de vídeos e sites de "promessas de notícias", a cota de leão da atenção das pessoas.
  • Dinis
    27 dez, 2017 Lisboa 22:22
    Talvez, a melhor pergunta seja: Para que serve a comunicação social? Ou para quem serve a comunicação social? Numa era de grandes corporações ou grupos económicos que compram tudo, há também um desejo de comprar a opinião [como no filme «Citizen Kane»]. Quando isto acontece, o jornalismo de investigação perde em favor do jornalismo para entretenimento.
  • MASQUEGRACINHA
    27 dez, 2017 TERRADOMEIO 16:44
    Pois é, suponho que concorde que, p. ex., os tablóides britânicos, essa grande instituição, também sejam tudo o que diz - mas situados nos idos da pré-verdade, pelo que nada se lhes aplica. A questão, verdade, verdadinha, está no indomesticável facto de que a informação se atomizou, e não se vê maneira de refrear o fenómeno sem recorrer a limitações ditatoriais - sendo certo que mesmo essas seriam fáceis de contornar. Deve ser até por isso, e não por pruridos democráticos, que a coisa ainda não foi feita. Dou um exemplo simples, o dos bolos-rei empilhados no caixote do lixo, a fazer lembrar um agradável serviço buffet, mas em estilo para-quem-é bacalhau-basta. Um átomo viu, captou a imagem, e informou os outros átomos na rede "social", dando origem a debate mais ou menos civilizado, de que o insulto e o berreiro são também naturalmente parte - relembro outra grande instituição britânica, o Parlamento, para que se perceba o que quero dizer. Ora, a comunicação "social" chegou muito, mas muito, depois, tal como já se torna hábito que aconteça. É que, sinceramente, não percebo o que se pretende: que as pessoas participem ou não? Ou não, é evidente, porque não são "civilizadas" e deixam a democracia toda suja de nódoas de sandes de chouriço. E concluo dizendo que, apesar de tudo, espuma e ruído pouco são, se comparados com som e fúria. É melhor irem-se habituando, o mundo está mesmo a mudar e a democracia a apurar-se.