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40 anos de "70x7". "Linguagem da evangelização tem de ser percetível no mundo contemporâneo"

21 out, 2019 • Pedro Filipe Silva


A 21 de outubro de 1979 ia para o ar a primeira emissão do "70x7". António Rego foi um dos fundadores deste programa. O padre jornalista recorda os primeiros anos, onde percorreu o país com câmara às costas e microfone em punho para “relevar o que a Igreja fazia”.

Quando António Rego pensou, juntamente com o colega Manuel Vilas Boas, em criar um novo programa religioso de televisão, já trazia consigo uma bagagem. O sacerdote jornalista já tinha sido o autor do programa ‘Andar faz caminho’, nos Açores, e trabalhava na Renascença antes do 25 de abril. Passou também pelos Estados Unidos, onde fez alguns programas dedicados à comunidade portuguesa.

Por cá, na RTP, já existia um programa dedicado aos temas da Igreja, mas gravado em estúdio. Quando surgiu a oportunidade de criar o "70x7", o padre António Rego pensou em criar algo novo. “O que me lembrei e o que veio de novo foi que o programa passou a não ser de aquário ou de estúdio. Passou a ir à realidade e a entrevistar as pessoas em vários pontos do país, até que percorreu o país todo. Não inventei muito”, conta o padre jornalista.

“Era necessário comunicar aquilo que se fazia e não apenas naquilo que se dizia. Se a palavra diz, os atos falam de uma forma mais eloquente. Ou seja, ir visitar as comunidades, ir ouvir os jovens, ir ouvir os idosos, gravar experiências diferentes que havia”, sublinha o padre António Rego , que foi o principal responsável do programa, até 1992, ano em que assumiu a Direção de Informação da TVI.

O padre jornalista lembra-se ainda dos primeiros tempos no mundo audiovisual. “Adquiri uma câmara e eu próprio fazia a filmagem. Não aparecia muito. Depois tomei um contacto com os profissionais. E só depois de fazer é que fui estudar. Ainda antes de estudar fui dar aulas em França porque um professor que veio cá viu-me a trabalhar e disse ‘pode ajudar-me nos cursos que faço?’. Primeiro estive a ensinar e depois pensei que valia a pena tirar um curso. A minha vida tem umas evoluções bizarras e neste campo também foi assim”, diz sorridente.

O "70x7" surge poucos anos depois do Concílio Vaticano II, que se realizou em 1961. Por isso mesmo houve um misto de reações. “Foram positivas, mas houve algumas críticas, porque achavam que era avançado demais e que às vezes se intrometia em terrenos um pouco perigosos. Estava-se ainda no pós-conclio, onde havia discussões acerca de várias temáticas, algumas eram quase interditas. Eu senti necessidade de as explicitar na linguagem dos jovens. Às vezes há determinados conceitos, em que se pensa que a Igreja não é capaz de abordar questões da atualidade. A Igreja tem a capacidade para fazer essa abordagem”, sublinha.

O padre António Rego fala por isso do contributo do programa para ajudar a mudar a imagem que as pessoas têm da Igreja. “Eu sempre disse que não queria converter ninguém, o programa não era para converter ninguém, mas era para fazer testemunho. Ou seja, para a Igreja revelar o que fazia, para além do que dizia. Julgo que foi estimulante para muitas situações, porque era visto em todo o país, por jovens, adultos e idosos. Isso estimulou algumas iniciativas. Depois ao mundo não cristão, ao mundo pagão, deu uma ideia diferente da Igreja porque faziam-na sempre muito fechada na sacristia. O programa penso que terá ajudado a abrir horizontes”, diz o padre António Rego, que defende ainda a necessidade de transportar a linguagem da Igreja para a televisão, sem mudar o estio de cada uma.

“Eu sempre pensei e penso que um bom programa católico, tem de ser primeiro um bom programa de televisão. Com a linguagem da televisão, que não vai buscar os seus estilos aos púlpitos, vai trazer o estilo do púlpito da própria televisão. Foi um velho problema e talvez ainda é, a linguagem da evangelização ser percetível no mundo contemporâneo. E nós como falamos para um mundo contemporâneo, temos de falar uma linguagem que seja entendida", acrescenta.

Momento mais marcante: o silêncio da Cartuxa

Questionado sobre o momento mais marcante deste longo percurso, o padre António Rego responde sem hesitar: o programa dedicado à Cartuxa, em Évora, emitido em Abril de 1982. Um programa que recebeu um Prémio da Associação Católica Internacional de Cinema e Televisão.

O sacerdote recorda os momentos passados, nas gravações. “O silêncio que fiz e o silêncio que fiz com uma equipa para nós filmarmos o silêncio da Cartuxa, onde praticamente não havia palavras. Era só o gesto da oração, o cântico que era entoado, a passagem dos irmãos com os seus trajes. Os lugares da própria Cartuxa” diz o Padre António Rego, sublinhando também que este não foi um programa qualquer. “Não se vai filmar um programa da Cartuxa de qualquer forma. Temos de estar muito calados, não necessário que os irmãos falem muito, é preciso que saibamos fazer silêncio e quase nos tornarmos um pouco monges cartusianos. e captar aquilo que parece que não é captável em televisão, que é a experiência da interioridade, a experiência do silêncio”, conclui.

A primeira emissão do programa "70×7" ocorreu no dia 21 de outubro de 1979. Depois do primeiro ano como programa quinzenal passou a ser emitido todas as semanas, em novembro de 1980.

Marcelo recorda o "diálogo entre religiões"

O Presidente da República recorda o programa "70x7" como uma ponte de diálogo entre religiões. “Dentro do espírito de abertura ecuménica, a liberdade religiosa, de diálogo entre religiões, confissões e Igrejas passou a ser uma ponte para essas confissões, para essas comunidades e Igrejas, não deixando de ser a voz dos católicos, ou se quisermos, de forma mais geral, dos cristãos, num país aberto e ecuménico”, afirmou o Presidente da República numa mensagem enviada à Agência Eclcesia, recordando ainda os tempos em que foi colaborador do programa com uma crónica semanal.

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