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Freira nigeriana critica cultura de silêncio da Igreja Católica e exorta à transparência

23 fev, 2019 • Lusa


Veronica Openibo avisa os bispos que “esta tempestade não vai passar”. A conferência da nigeriana impressionou o Papa.

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Uma freira nigeriana criticou este sábado a cultura de silêncio na Igreja Católica, que há muito procura ocultar os abusos sexuais do clero, afirmando que a transparência e a admissão de erros são necessárias para restaurar a confiança.

Num discurso na cimeira que decorre, até domingo, no Vaticano sobre a proteção de menores, a irmã Veronica Openibo, disse ao Papa Francisco e à restante hierarquia católica que os líderes africanos e asiáticos da Igreja não devem justificar o seu silêncio sobre a violência sexual, alegando que a pobreza e os conflitos são assuntos mais sérios para a Igreja.

"Esta tempestade não vai passar", avisou Veronica Openibo.

Mais tarde, na conferência de imprensa diária, o padre Federico Lombardi disse que as palavras de Openibo tinham impressionado o Papa.

A irmã nigeriana pediu aos presentes uma discussão sobre uma serie de questões controversas para abordar o escândalo, incluindo a participação de leigos na escolha de bispos, se os seminários são realmente saudáveis e porque é que os abusadores não são dispensados do clero.

"Proclamamos os Dez Mandamentos e desfilamos como guardiões de padrões morais, valores e bom comportamento na sociedade", afirmou no encontro, onde questionou: "hipócritas às vezes? Sim! Porque ficamos em silencio por tanto tempo?".

Openibo discursou no penúltimo dia do encontro que junta no Vaticano, até domingo, 190 representantes da hierarquia religiosa e 114 presidentes ou vice-presidentes de conferências episcopais de todo o mundo, para debater a proteção de menores por parte do clero, admitindo que não é apenas um problema confinado a alguns países, mas a toda a igreja.

Os primeiros dois dias da reunião concentraram-se na responsabilidade dos líderes da igreja em cuidar "dos seus rebanhos" e em como devem ser responsabilizados quando "não protegem adequadamente os jovens dos sacerdotes predadores".

O sábado está a ser dedicado a questões de transparência e quebra do código de silêncio que manteve o abuso escondido por tanto tempo.

Openibo, superior da ordem religiosa da Sociedade do Menino Jesus, lembrou o filme premiado com o Oscar "Spotlight", que conta abusos e encobrimentos do clero que provocou a explosão de casos que viriam à tona nos Estados Unidos, em 2002.

"Como a igreja pôde manter-se em silêncio, cobrindo essas atrocidades. Devemos reconhecer que nossa mediocridade, hipocrisia e complacência nos trouxeram para este lugar vergonhoso e escandaloso que nos encontramos como uma igreja", frisou.

A irmã elogiou ainda o "irmão Francisco" pela sua honestidade em admitir que errou no caso de um abuso no Chile, no ano passado. O Papa Francisco defendeu, na altura, um bispo acusado de testemunhar e ignorar o abuso de um notório predador, acusando as vítimas de "difamação".

"Eu admiro-o, irmão Francisco, por tomar o tempo como um verdadeiro jesuíta, para discernir e ser humilde o suficiente para mudar de ideia, para desculpar-se e agir – um exemplo para todos nós", disse Openibo.

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