Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

​Bach ajuda

22 mar, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


Repare-se que nem toda a música clássica tem esta respiração teológica. Quando oiço compositores do século XIX, como Sibelius e Beethoven, sinto que estou a ouvir música de homens que tentam criar o seu próprio universo.

Na rua, à mesa, no mail, amigos e desconhecidos pedem-me conselhos sobre a fé, como mantê-la, como protegê-la do inferno das dúvidas, etc. Fico um pouco constrangido. Sou um convertido tardio, não tenho jurisprudência sobre a matéria. A minha autoridade sobre a fé é igual à minha soberania sobre os anéis de Saturno. Se quisesse antropomorfizar a minha fé, diria que é uma adolescente insegura - não pode dar segurança a ninguém. Seja como for, apesar de me sentir ridículo, lá vou dando conselhos na medida do possível. Um dos conselhos recorrentes está relacionado com música.

Entrar em certas atmosferas musicais ajuda a reencontrar a fé; uma música ou sinfonia pode funcionar como um João Baptista musical, um prenúncio, uma antecâmara. A frequência sonora de certas peças é porventura a frequência mais parecida à emoção que sentimos naqueles momentos em que temos a certeza que Ele está ali ao nosso lado. E aqui a música clássica é imbatível, sobretudo Bach.

Repare-se que nem toda a música clássica tem esta respiração teológica. Quando oiço compositores do século XIX, como Sibelius e Beethoven, sinto que estou a ouvir música de homens que tentam criar o seu próprio universo, há ali um som autónomo e totalmente humanizado, há uma direcção humana. Beethoven mudou para sempre a música com o seus tempos acelerados, como no início da 5.º Sintonia: ta, ta, ta, taaaaaaa. Claro que esta aceleração do tempo musical está relacionada com a aceleração do tempo histórico propriamente dito. Beethoven musicalizou o tempo histórico moderno e novo pós-revolução francesa.

Bach é diferente. O barroco remete para um tempo mais calmo, para um tempo não histórico, um tempo que não é bem o tempo tal como nós, homens modernos, o concebemos. Uma escritora particularmente preocupada com a soberania do amor ou do bem, Iris Murdoch, descreveu na perfeição a música de Bach no romance “Henry e Cato”: “Já só gostava de música sem fim, formalidade sem forma, movimentação sem movimento, inocente de drama e de história e romance”. A música de Beethoven descreve o drama humano, tem uma lógica e uma direcção humana: começa num sítio e acaba noutro. A música de Bach é um eco da eternidade onde não existe essa urgência de direcção; é uma música que fica ali a flutuar noutro tempo, um tempo que não tem pressa de ir a sítios; é uma música que está, que é, tem uma gramática de esperança eterna, imutável e circular e não a gramática retilínea da razão que quer completar, fechar, atingir. Sim, Bach ajuda a encontrar a sintaxe do Reino.

Comentários
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  • Vera Costa
    23 mar, 2019 07:33
    Eu comparo o som da música clássica, com o som das marés! ao ouvir Strausse, eu oiço o mar em tempo de Primavera, a alegria do sol sobre as ondas que ainda um pouco desassossegadas, bailam, com uma brisa fresca, não fria; Verdi, lembra-me o Verão, o calor, as ondas calmas, gaivotas airosas, andando para lá e para cá, num passo certo e a chilrear quando avistam uma traineira que já vem a caminho; depois Sebastian Bach, é o fim da tarde quando o sol se põe sobre o mar: a maré começa a ficar vazia e silenciosa... Agora Beethovan, começa o Outono, as marés vivas! sobem e recuam, batem no ar e de repente parece que se acalmam, mas surge uma ventania e as ondas saltam em fúria por cima dos pontões, as gaivotas fogem amedrontadas! depois esperam uma oportunidade de calmaria, para procurarem os peixinhos que se perderam por lá; aqui talvez o Mozart e Chopin, cada um com sua calma, ora estão na praia, ora estão no campo, gostam do tempo ameno e sombrio; entretanto fica o frio do Inverno, com ele, Shubert ! cavalos que correm na areia molhada pela praia deserta! e ainda falta o Vivaldi, que é o homem das 4 estações!!! Obrigada, Henrique Raposo! Gostei deste Texto! A vida sem música, não tem lógica! Há pessoas que ouvem música quando estão contentes, eu não! eu oiço música quando estou cansada, ou aborrecida, porque me desperta! verdade! varre-me as ideias! Eu já aconselhei tanta gente a ouvir música! até parece, que alguém ouviu! pegou moda e nos aeroportos: dançam grupos de jovens...
  • Domingos Simões
    22 mar, 2019 Caldas da Rainha 15:20
    Um agradecimento profundo a Henrique Raposo pela oferta da sua escrita e hoje, em "Bach ajuda", destaco a partilha de uma sua noção da universalidade do sentimento que aqui nos serve apoiado na Musicalidade do Universo Infinito.
  • João Lopes
    22 mar, 2019 09:30
    Neste artigo há beleza, grandeza e humildade...