Opinião de Henrique Raposo
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A sede de Tântalo

18 jan, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


“A Sede” está cheio destas parábolas que humanizam a natureza ou que naturalizam o homem. O homem-peixe que se algema todas as noites dentro do aquário num espectáculo de ilusionismo que procura molhar a sede eterna, uma sede de Tântalo.

Vi Tântalo a sofrer tormentos

em pé num lago: a água chegava-lhe ao queixo.

Estava cheio de sede, mas não tinha maneira de beber:

cada vez que o ancião se baixava para beber,

a água desaparecia, sugada, e em volta dos seus pés

aparecia terra negra, pois um deus tudo secava.

Qual é a fonte desta citação? Os mais precavidos saberão a resposta: é uma passagem da “Odisseia” (Od.11.582-587). Os mais distraídos, porém, poderão confundi-la com um dos melhores poemas de Susana Martins. Quando está no seu melhor, esta jovem poeta é capaz de produzir esta linguagem simbólica, que não é obscura, pseudo sofisticada ou cifrada. Estes poemas são parábolas com ecos das mitologias pagãs e da Revelação cristã. Olhem por exemplo para “Yggdrasil”, poema que reinventa com um enxerto cristão a árvore central da simbologia nórdica, o freixo sobre o qual o mundo girava: “Era a raiz do lado direito. / Faltava-lhe um olho / por causa das guerras. / Lá em baixo /crescia tanto, / todos os dias, / Durante todo o ano. / Não falava, só via / com o olho que lhe restava (...) Calada, crescia, crescia / e crescia. / Sempre à procura de quem destruía a árvore”. Esta imagem é notável, uma raiz humanizada com as cores do soldado, que, apesar do olho vazado, não desiste do seu dever: procurar água para a árvore que morre de sede. Qualquer pessoa a cumprir um dever (a mãe a criar com dificuldades um filho; um filho a cuidar do pai) encontra um eco da sua missão nesta raiz com uma pala no olho, qual veterano de guerra.

“A Sede” está cheio destas parábolas que humanizam a natureza ou que naturalizam o homem. O homem-peixe que se algema todas as noites dentro do aquário num espectáculo de ilusionismo que procura molhar a sede eterna, uma sede de Tântalo. O homem-ulmeiro que colocou um sofá dentro do tronco do ulmeiro amigo. O homem-sol que, depois de abraçar a árvore, sente que o arbóreo abraço é demasiado sufocante, abraço constritor de jibóia; assusta-se, mas logo descobre que a árvore só “tinha adormecido agarrado a ele”. É impossível não ficar rendido à ternura desta passagem, até porque é uma ternura depurada e oferecida na dose certa: mais uma linha e a autora ter-se-ia atolado no melaço lamechas como um animal na areia movediça.

Estas metáforas têm uma linguagem concreta, estão encostadas à precisão cirúrgica dos sonhos. Por vezes, até dá a impressão que Susana Martins passou a papel químico alguns dos seus próprios sonhos. Talvez o mais notável destes (hipotéticos) palimpsestos é o poema “Litoral”: “Deus construiu-me um caldeirão no meio das ondas (...) Do meu caldeirão no meio das ondas, / construído por Deus, / vejo tudo / E estou lá sempre. / De lá dou sugestões a quem me construiu o caldeirão. / Que nunca me ouve, /nem quando digo que / O mar é do melhor que já inventaste”. É preciso grandeza para imaginar alguém falando com Deus a partir de um trono que flutua como uma jangada perdida nas ondas. Não é esta uma metáfora perfeita do temor do crente perante o mistério de Deus?

Tal como “Êxodo”, o livro anterior da autora, “A Sede” tem o seu coração numa preocupação cívica da autora. Se “Êxodo” está marcado pelo drama actual dos refugiados, “A Sede” está marcada pelo fantasma da falta de água do nosso futuro próximo. Mas repare-se que nada aqui é panfletário ou chato. Susana Martins usa a preocupação humanitária como a fogueira que aquece o essencial: a poesia que há-de sobreviver à sua chama inicial. No futuro, quando os nossos filhos viverem num mundo normal e não num deserto apocalíptico, a nossa preocupação com a água será incompreensível ou uma preciosidade arqueológica. No entanto, os melhores poemas de “A Sede” continuarão a fazer sentido, continuarão a ser parábolas sobre a condição humana. Querem outro exemplo? Olhem para o poema “Natália”: “Apneiada, morta, suicidada./ Eu própria ultimada a afundar-me (...) Sem barbatanas desço, desço, desço, / Aqui não há som, ouço a minha própria descida em vertigem / trinta metros parecem cem / e sem retorno”. Como todos os seus irmãos, este poema parte em 2018 de uma preocupação humanitária da sua autora (a preocupação com a falta de água). Sucede que nada disso vai interessar em 2038 ou 2068. O que vai interessar é que este é um poema notável sobre o suicídio, é a sede de Tântalo aplicada à tentação do salto ou mergulho para a morte. Ou seja, há neste e noutros poemas de Susana Martins uma voz universal e intemporal, um buraco da fechadura onírico sobre a nossa queda, um buraquinho que nos obriga a tirar a máscara para assim podermos espreitar como deve ser.

PS: prefácio do livro "A Sede" publicado em Novembro passado.

Comentários
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  • Vera
    19 jan, 2019 Palmela 17:08
    Depois de ler este texto só uma coisa me veio à ideia! já a meio do texto, ela caiu na minha ideia! tornei a ler tudo do princípio e a ideia permaneceu: "Eu tinha sede e tu deste-me de beber" isto são palavras de Jesus! não significa apenas sede de beber água, significa 'precisão'! compaixão! amor ao próximo! amor ao filho de Deus e amor a todos os filhos por Ele amado. A água é símbolo de purificação da vida! vamos ver se eu me faço entender: e se Deus secar todas as saídas de água das montanhas, qual é a hipótese que temos de vida? Nenhuma. Ok! é isso mesmo.