Opinião de José Miguel Sardica
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A estranha morte do Brexit?

12 dez, 2018 • Opinião de José Miguel Sardica


É muito duvidável que Juncker, Tusk e companhia aceitem dourar a pílula para a tornar tragável em Londres. Se começarem a ceder, a barganha instalar-se-á.

Em junho de 2016, quando o referendo sobre o Brexit deu vitória (embora tangencial) ao “sim” (51,9%) sobre o “não” (48,1%), a União Europeia teve de imediato a sensação de que qualquer coisa acabara de mudar para sempre. Dois anos e meio volvidos, em dezembro de 2018, o caminho para a saída do Reino Unido da Europa parece mais nebuloso do que nunca e cada vez mais distante do que seria, supostamente, a sua razão de ser.

Recordemos o enredo em versão simplista. O UKIP de Nigel Farage era a mais recente expressão daquele Reino Unido que nunca gostou de dialogar para lá do Canal da Mancha e que sempre viu em Bruxelas uma fortaleza continental recheada de burocratas com manias de Bonaparte ou de Hitler (salvo seja!). Como Farage andava a morder os calcanhares a David Cameron, o ex-Primeiro-Ministro decidiu usar a alta diplomacia para política interna. Jogou tudo em calar os “Brexiteers”. Mas estes, vencendo o referendo, mandaram-no para casa. O irrequieto Boris Johnson também já se sumiu. Corbyn e os Trabalhistas apostam no “quanto pior, melhor”, ou seja, em usar os imbróglios do Brexit para alcançarem Downing Street… e depois logo se vê. Pelo meio, herdando os despojos do dia, ficou Theresa May que, graças a umas eleições mal calculadas, se viu depressa acossada e nas mãos dos unionistas irlandeses. A Primeira-Ministra britânica andou meses a peregrinar pela Europa, quase sem tempo para governar o seu país, e com a Europa lá cozinhou um acordo calhamaço de 585 páginas e mais uma declaração-resumo que, feitos por políticos, devem desafiar a compreensão dos mais competentes juristas de direito comunitário. Entretanto, o inglês anónimo já reparou que não vai ter, como ele achava que ia, “soberania” restaurada, “leis próprias”, mais dinheiro para a sua Saúde Pública, menos refugiados e terroristas, etc. Não sai quem quer; sai quem pode – mas mesmo quem pode (a libra ajuda e o potencial económico da Inglaterra também), não sai como quer. Perante a perspetiva de perder na Câmara dos Comuns por uns 400 deputados contra 200, Theresa May adiou a votação sobre o acordo do Brexit.

De um panorama que era nebuloso, entrou-se num buraco negro, cuja réstia de luz tem data de apagamento total: 29 de março de 2019. E agora? Ninguém sabe. É muito duvidável que Juncker, Tusk e companhia aceitem dourar a pílula para a tornar tragável em Londres. Se começarem a ceder, a barganha instalar-se-á e breve chegarão os cadernos reivindicativos de outros povos (a Itália?) que poderão querer sair impondo condições. E isto numa conjuntura em que o “macronismo” se rendeu aos “coletes amarelos” e em que Merkel é um “lame duck” (“pato coxo”, o rótulo dos Presidentes dos EUA quando estão de saída). Se o acordo é final e não há outro, Theresa May terá de o levar (mesmo com uma cosmética de vocabulário para o “backstop” da Irlanda do Norte) ao parlamento britânico, onde a chicana, pouco britânica, vai com certeza triturar o dito acordo e a sua infeliz guardiã. É verdade que a justiça comunitária já aceita que a Inglaterra possa suspender unilateralmente o Brexit (e terá sido coincidência esta decisão sair no mesmíssimo dia em que May anunciou o adiamento da votação?...). Mas os britânicos, é preciso lembrá-lo, quiseram sair. Será que ainda querem? Que resultado teria hoje um referendo que lhes perguntasse se querem sair com o acordo que está sobre a mesa, ou sem acordo nenhum? A isto estamos reduzidos. Sucede que o acordo é um híbrido de que ninguém gosta e o “hard brexit” poderá ser um cenário de tragédia para britânicos e europeus.

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