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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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​Mare of Easttown: de onde vem o mal?

11 jun, 2021 • Opinião de Henrique Raposo


Mare e Easttown não caminham para a utopia, mas conseguem, pelo menos, diminuir a anarquia e o mal. É o máximo que conseguimos alcançar, na maioria das vezes.

‘Mare of Easttown’ é uma série especial sobre essa saga que é sobreviver ao inferno pessoal e colectivo. Como é que atravessamos o deserto que se expande no nosso coração pessoal e intransmissível e ao mesmo tempo suportamos a desagregação comunitária da nossa cidade ou vila? Neste sentido, a americana ‘Mare of Easttown’ é muito parecida com a britânica ‘Happy Valley’.

‘Happy Valley’ passa-se numa pequena cidade inglesa que está a passar por um período difícil: sente-se o desemprego e a droga por todo o lado. Ao lado desta desagregação colectiva, sentimos o pesadelo da protagonista: Catherine Cawood é uma mulher polícia já na meia idade; é divorciada, perdeu uma filha para um sociopata; cria um neto que é filho do sociopata. O grande dilema da série está relacionado com esta criança. Devido à sua experiência como polícia, Catherine Cawood não tem dúvida de que o mal (a crueldade) não é o resultado da educação e do ambiente; é algo intrínseco àquele ser humano em particular; é algo que está na própria essência da pessoa x, y ou z, que seria sempre sociopata; independentemente dos contextos de nascimento e infância, as pessoas x, y e z seriam sempre executantes da crueldade metódica. É por isso que, quando olha para o neto, Cawood não pode deixar de sentir medo: o meu neto tem em si mesmo a maldade horrível do pai? Se eu educar bem o meu neto, ele não vai desenvolver aquela maldade que tem em potência? E se a minha educação for insuficiente para vencer a semente do mal?

‘Mare of Easttown’ é um espelho americano de ‘Happy Valley’. O autor, Brad Ingelsby, é parecido com a autora de ‘Happy Valley’, Sally Wainwright: ambos retratam o actual pessimismo das pequenas cidades marcadas pelo desemprego, droga e desespero, as cidades esquecidas pela globalização. Easttown é um eco da cidade de um grande filme escrito por Ingelsby, “Out of the Furnace”. Aqui temos uma pequena cidade da Pensilvânia rural fustigada pela epidemia de opiáceos, sente-se desespero e depressão por todo o lado, não há um plano feliz em toda a série. A paleta é sempre cinza. A esperança foi sugada deste mundo. A personagem principal, Mare Sheehan, também é polícia, também é divorciada, também perdeu um filho (suicídio), também cria um neto e também está confrontada com uma questão que é uma bissectriz entre a genérica e a ética. O seu pai matou-se porque tinha uma condição mental por tratar. O seu filho matou-se em parte devido a uma condição mental que ficou por diagnosticar. Percebe-se que era um caso complicado e de diagnóstico difícil (autismo?, tourette?). Portanto, a questão que assombra Mare é esta: será que o meu neto tem aquela condição mental do pai e do avô? É essa condição inevitável? Ou a genética é só potencial e só desperta se houver um rastilho no contexto familiar, um acontecimento traumático que desperta aquela condição adormecida?

Seja qual for a resposta, Mare sobrevive. Ter coragem não é ir à luta na certeza de que se vai vencer, é ir à luta na certeza de que se vai perder; ela vai à luta todos os dias apesar de saber que a sua dor não vai desaparecer, vai à luta na certeza de que a sua terra dificilmente vai melhorar em breve. Mas também tem a certeza de que, devido à sua acção, Easttown é menos má. Mare e Easttown não caminham para a utopia, mas conseguem, pelo menos, diminuir a anarquia e o mal. É o máximo que conseguimos alcançar, na maioria das vezes. Não sabemos de onde vem o mal, mas temos o dever de lhe resistir.

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